O que fazer quando não sabemos o que fazer?

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“Então veio o Espírito do SENHOR no meio da congregação e disse: Não temais, nem vos assusteis por causa desta grande multidão, pois a batalha não é vossa, mas de Deus. Amanhã […] não tereis de pelejar; tomai posição, ficai parados e vede o livramento que o SENHOR vos dará,” (2Cr 20:15-17)

Todos já nos deparamos com situações diante das quais não sabíamos como proceder. De fato, o inusitado tende a nos imobilizar, sobretudo, quando nos surpreende negativamente. Atônito e tomado pela perplexidade, quem sabe discernir o caminho? Emerge então a pergunta: como reagir diante daquilo que nos pegou de surpresa? O que devemos fazer quando não sabemos o que fazer?

A narrativa de 2Cr 20:1-30 lança luz sobre esta questão ao relatar a experiência vivida por Josafá, rei de Judá, quando tomou conhecimento da invasão planejada pelos amonitas e moabitas contra o seu reino. Conta a historiografia sagrada que diante da perturbadora notícia, Josafá teve medo e pôs-se a buscar o Senhor em oração: “Ah! Nosso Deus […] em nós não há força para resistirmos a essa grande multidão que vem contra nós, e não sabemos nós o que fazer; porém os nossos olhos estão postos em ti” (v.12). A resposta divina à oração do rei de Judá foi surpreendente e emblemática: “ficai parados e vede o livramento que o Senhor vos dará” (v.17).

Com base na experiência do rei Josafá, podemos concluir que a coisa mais sábia a fazer quando estamos perplexos e desorientados é justamente não fazer nada. Com efeito, diante do inesperado, do não-previsto, ninguém deve, de imediato, tomar decisão alguma, optar por nenhum caminho, tentar resolver qualquer problema sob pena de pecar por precipitação (como aconteceu com Abraão que tentou solucionar o problema da esterilidade de Sara fazendo um filho Hagar – um equívoco cujas trágicas conseqüências se arrastam até hoje). Ao invés de agir por impulso, instinto, ou no calor da emoção, quem se descobre confuso e fragilizado deve “ficar parado”, em oração, com o olhar fixo em Deus, exatamente como fez o rei Josafá (v.12).

Embora algumas pessoas insistam em repetir que há casos em que a oração de nada adianta, onde sem uma ação paralela ela não tem nenhum sentido ou eficácia, orar é realmente o melhor que podemos fazer quando não sabemos o que fazer. Disto é possível estarmos certos: orar nunca é inútil. Pois como a Palavra de Deus, a oração não volta vazia. Nas palavras do próprio Senhor Jesus Cristo: “todo o que pede recebe” (Mt 7:8).

Muito provavelmente, as pessoas que pensam deste modo sobre a oração não compreenderam ainda um de seus segredos mais maravilhosos: ela é porta para fora do labirinto da dúvida e a chave da vitória. Pois, através da oração, desviamos o nosso olhar das adversidades e dos inimigos concentrando-o Naquele de onde vem o discernimento, o sábio conselho, e, finalmente, a salvação. Não foi esta a experiência de Pedro quando caminhava sobre as águas? Enquanto tinha os olhos fitos em Jesus, avançava sem mais. Todavia, quando parou para notar o vento forte e as ondas, afundou. A lição que aprendemos com a experiência de Pedro é a mesma que aprendemos com a de Josafá: quem mantém o olhar em Deus caminha sobre as ondas da vida e não se deixa abater pelo vento contrário. E nada melhor para manter o nosso olhar em Deus do que a oração.

Na seqüência da narrativa de 2Cr 20, Deus confunde os inimigos de Josafá fazendo-os lutar entre si até se aniquilarem mutuamente. A Josafá e ao povo coube apenas passar recolhendo os despojos. Eis aqui a boa-notícia: Deus também faz conosco o que fez ao rei de Judá: instrui-nos, segue a nossa frente e nos garante a vitória. A parte que nos cabe é tão somente ficar parados em oração mantendo todo tempo o olhar fixo Nele. Afinal, como afirma o texto bíblico, a “batalha não é nossa, mas de Deus” (v.15); e Ele a peleja por nós. Recordemo-nos sempre desta verdade.

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Até quando, Senhor?

A esperança que se adia adoece o coração
A esperança que se adia adoece o coração

Oração é algo misterioso. Nasce no coração dos seres humanos e floresce diante de Deus. A um só tempo, conhece a alma das pessoas e a face do Senhor. Daí que implique reverência, nudez radical e silêncio. O espírito humano se exprime diante de Deus através da oração.

O Salmo 13 é uma oração belíssima que nasce da tensão entre os largos tempos de Deus e o imediatismo próprio dos seres humanos. Ele é o testemunho de uma alma que percorre na oração o caminho que vai do sofrimento gerado por circunstâncias desfavoráveis ao louvor suscitado pela certeza da bondade divina. Tal caminho é princípio de cura que restaura a alma adoecida pela esperança que tarda em se cumprir. Como veremos, ele consiste em três movimentos internos que aprendidos podem nos fazer mais resistentes no dia da angústia e, finalmente, restituir-nos a alegria.

O primeiro dos três movimentos deste caminho é aquele que vai do sofrimento à lamentação (v.1-2). O salmista não nega sua dor. Ele a admite; a sofre intensamente. Sua aflição é como a nossa: dói para valer. Ele se sente sufocado pelo inimigo que o persegue (v.4) e quatro vezes indaga ao céus: “até quando, Senhor?”. Sua demanda é urgente, mas Deus não tem pressa -parece brincar de esconde-esconde. Pior que a própria adversidade, é sentir-se esquecido por Deus – “Até quando ocultarás de mim o teu rosto?”. Tal conjuntura insustentável move o salmista a queixar-se em oração de forma ousada: “Esquecer-te-ás de mim para sempre?”. Ao invés de ficar murmurando a má sorte que o acomete, ou de encher os ouvidos dos outros com queixumes, o salmista se lamenta aos pés do Senhor. Tal atitude, por estranha que possa nos parecer (quem é o homem para falar assim com Deus?), é justamente a atitude que o Pai espera de nós. Afinal, Ele o único que pode de fato mudar a nossa situação.

O segundo movimento deste caminho de cura é aquele que vai da lamentação à súplica (v.3-4). A conjuntura na qual o salmista se encontra é crítica, mas ele deseja superá-la e viver. Seu lamento, por conseguinte, desemboca numa súplica insistente diante do Senhor: “ilumina-me os olhos”. O salmista precisa enxergar alternativas para sua luta e ter certeza da ação de Deus a seu favor, pois sente-se abandonado. Seus olhos estão cerrados pela angústia como acontece muitas vezes com qualquer um de nós. Somente a luz que irradia do olhar do Pai pode devolver-lhe a esperança. Daí ele orar: “Atenta para mim”. O fato de Deus olhar para nós é prova da sua graça e metáfora do seu favor. Justamente por esta razão é que, em determinados momentos de nossas vidas, nada nos é mais caro do que tal convicção (Sl 17,8). A certeza do olhar de Deus sobre nós é garantia do quanto nossa vida tem importância para Ele e fundamento de esperança que nutrimos de que Ele agirá misericordiosamente em  nosso favor.

O terceiro movimento é aquele que vai da súplica ao louvor (v.5-6). Chama atenção nos versículos finais do Salmo, a súbita  mudança de tom (do desespero para a serenidade).  A súplica veemente e angustiada parece ter produzido no salmista uma nova disposição para enfrentar a problemática com a qual se depara. A ruptura é abrupta e evidente, mas o quê de fato mudou? Nada no salmo nos faz pensar que a situação tenha sido resolvida ou contornada. Porém, o coração do salmista é outro. Já C.S. Lewis dizia: “Minhas orações não mudam a Deus, mas a mim”. Após queixar-se honestamente diante de Deus e de buscar nele o socorro, sua confiança  parece inabalável. As escamas caem de seus olhos permitindo-lhe perceber que, a despeito de tudo, o Senhor tem estado sempre a seu lado. Ele então termina o salmo com um voto de louvor e reconhecimento: “cantarei ao Senhor, porquanto me tem feito muito bem”.

Como se deu com o salmista, também em nossa experiência diária somos, vez por outra, solapados por sentimentos de abandono e desamparo por parte de Deus. Vivemos nossas crises sozinhos, pois não percebemos a presença de Deus a nossa volta. Ainda que não tenhamos a coragem de verbalizar, nos perguntamos: “Senhor, até quando?”. Em momentos assim, por meio da oração honesta e ousada, podemos perceber novamente o olhar de Deus sobre nós e, pela fé, confiar que sua mão se movendo em nosso favor, mesmo que as circunstâncias digam que o contrário. Ao final, estaremos também aptos a levantar aos céus um canto de esperança (louvor) ao som do qual seguiremos nosso caminho na certeza inexorável de que não estamos sós.