Filho custa caro?

O preço de não ter filhos quando se deseja ser pai ou mãe é maior do que os gastos com eles.

 

“Os filhos são herança do Senhor, uma recompensa que ele dá” (Sl 127:3)

Diz-se que filho custa caro. Não necessariamente. Tenho três e posso dizê-lo com conhecimento de causa.

Começa que filho não custa nada para fazer. Depois, até mais ou menos os dez meses, a criança se alimenta basicamente de leite materno e raios solares (fundamentais para ativação da vitamina D sem a qual não há absorção do cálcio reponsável pelo desenvolvimento dos ossos). Durante esse período, a única despesa regular que se tem com o pimpolho são as fraldas descartáveis; afinal, um mínimo de conforto e praticidade é necessário. Os gastos com remédios constituem o grosso das despesas inesperadas.

É isso, basicamente. Mais tarde, os gastos se concentram em educação e saúde. Aqui reside o nó a ser desatado. Isso porque, tais gastos seriam evitados se vivêssemos num país sério onde as escolas e os hospitais públicos não ofendem à dignidade humana. Imagine por um minuto que diferença faria em seu orçamento familiar não ter de pagar todo mês a mensalidade da creche ou escola de seu(s) filho(s). Nem a van que vem buscá-lo(s) e trazê-lo(s) de volta já que você precisa sair muito cedo para trabalhar e chega em casa sempre bem depois do horário de apanhá-lo(s). Imagine também que você não tem de arcar com aquela pancada no início do ano quando compra livros, material de apoio e uniformes. Imagine, finalmente, como seria se você não precisasse pagar as atividades extraclasse como futebol, judô, natação, ginástica olímpica, música, teatro, etc., porque tudo isso é oferecido gratuitamente pela escola já que faz parte da formação integral do indivíduo. Parece um sonho, não é mesmo? Mas em vários países do mundo o que para nós parece um sonho impossível é a mais elementar e concreta das realidades.

Permita dize-lo novamente com outras palavras: nós brasileiros sentimos o enorme peso financeiro da chegada e criação dos filhos porque os custos essenciais com educação e saúde recaem sobre o núcleo familiar. No papel, todo cidadão brasileiro tem direito à educação e saúde, mas todos nós (ou a maioria de nós) tem uma boa ideia de como, salvo raras exceções, educação e saúde públicas no Brasil estão consideravelmente aquém do mínimo aceitável. Todo mundo sabe: em nosso país, só recorre à educação e saúde públicas quem absolutamente não tem outra alternativa. Assim sendo, todas as despesas relativas aos anos escolares inevitavelmente caem no colo das famílias que tem de arcar também com os custos altíssimos dos planos de saúde.

É essa dura realidade que desencoraja e, frequentemente inviabiliza, o projeto de muitas pessoas de tornarem-se pais e mães. Isso e nossos devaneios consumistas. Sim, porque fora educação e saúde (e gastos sazonais com vestuário), o mais é comida. Neste quesito, porém, os recursos se multiplicam: onde comem dois, comem três e onde comem três, comem quatro. Até porque arroz, feijão, frango e uma saladinha não custam tanto dinheiro assim. E se os pais forem mesmo engajados ao ponto de abrirem mão de pegar um cineminha no Plaza para, de vez em quando, assistirem o filme no Shopping São Gonçalo, sobra até uma graninha para incrementar a dieta com yogurt e geléia de mocotó.

Infelizmente, no entanto, quando falamos em criação de filhos, a primeira coisa que vem a mente das pessoas são planilhas e planilhas de excel, múltiplos extratos bancários e uma enormidade de cobranças de cartão de crédito que retratam uma realidade desesperadora de gastos que beiram o infinito. De modo semelhante, a expressão planejamente familiar evoca logo uma gama de perguntas enlouquecidas ligadas à economia doméstica: o que eu precisarei comprar para sustentar um filho? E se forem dois? Quanto irá custar? O dinheiro vai dar? Não seria mais viável eu desistir da idéia de ser pai ou mãe e trocar de carro?

De onde vem essa paranóia? Por que agimos assim? Como já disse: vem de nossa realidade brasileira. E acrescento: também de nossa condição de reféns de uma mentalidade hiperconsumista. Nós estamos tão expostos a cultura do hiperconsumo que passamos a enxergar todas as esferas de nossa vida desde essa perspectiva da aquisição permanente de bens diversos sem os quais a sobrevivência se torna inconcebível.

Lembro-me de uma conversa que tive quando estávamos esperando Igorzinho, nosso terceiro filho. Ela é emblemática do modo como essa mentalidade opera. Saindo do banco, encontrei na rua uma amiga que estava também esperando seu segundo filhinho:

– E aí? Quanto tempo…

– Pois é, estou grávida de novo. Três meses.

– Puxa, que legal! Karine e eu também estamos esperando mais um filho. É nosso terceiro menino.

– Sério?! Que loucura!!! Vocês vão ter que se mudar, né? Eu já estou procurando outro apartamento maior para mim.

Nos despedimos. Ela saiu para um lado e eu, perplexo, saí para o outro. Comprar um apartamento maior??? O que será que leva alguém a pensar que o nascimento de um bebê que mede cerca de 50 cm e pesa por volta de 4kg requer a compra de um apartamento maior? Minha esposa está prestes a dar à luz um bebê humano e não um filhote de dinossauro! Bebês são seres tão pequeninos que cabem dentro da pia da cozinha. Qual a necessidade real de comprarmos um apartamento maior, com um quarto a mais em função da chegada de uma criaturinha tão minúscula?

É a isso que me refiro. Mergulhamos tão fundo nessa loucura consumista que, antes mesmo da criança nascer, já estamos gastando dinheiro comprando enxoval, decorando o quarto, mudando de carro e até de apartamento. Nos ocupamos de imediato – quase “instintivamente” com isso – enquanto negligenciamos outros aspectos. Por exemplo: quem, antes de engravidar, se preocupa em ler um bom livro ou dois sobre a experiência de ter filhos e o desafio de criá-los? Quantos procuram uma terapia para tratar suas questões e quem sabe serem melhores pais e mães para o bebê que irá chegar? Quantos pensam como podem reduzir sua carga horária a fim de estarem com o(a) filhinho(a) que tanto precisará deles? Quantos fazem uma poupança para liberar um dos responsáveis (talvez os dois) da obrigação de trabalhar no primeiro ano? Quantos oram por seus filhos enquanto estão sendo gestados?

Esse é o lado trágico de tudo isso. Confundimos preparação para a chegada do bebê com gastos absurdos e supérfluos. Ninguém se engane: criança não precisa de quarto exclusivo nem de enxoval caro. Não precisa de apartamentão nem de minivan com DVD acoplado no teto. Criança precisa é de pai e mãe presentes e atuantes. Ou, na ausência deles, de adultos saudáveis e interessados, que lhes deêm afeto, cuidado e orientação. Tudo mais será supérfluo se isso faltar.

O ponto dessa longa e apaixonada reflexão é o seguinte: a rigor, filho não é caro. Filho é caro no Brasil! E é mais caro ainda quando a proposta é criá-los segundo os ditames desvairados do hiperconsumo. Caro é a hiper-sofisticação. Pois como gosta de dizer um amigo querido: “sofisticação é um caminho sem volta”. Uma vez que o escolhemos, é muito difícil recuar. E quanto mais avançamos nesta estrada, mais sacrifícios nos são exigidos. Inclusive esse: abrir mão de uma das maiores alegrias da vida que é ter a casa cheia de rebentos. Esse preço, embora não apareça nas planilhas de excel, é bem mais alto do que os gastos realmente indispensáveis para se criar um filho. Ou dois. Tudo bem, no meu caso, três.

A simplicidade é um caminho muito mais promissor.

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O preço da comunhão

 

Best Friends
Conviver não é fácil, mas é maravilhoso.

Quando ainda estudante em Campinas, participei de um programa de aconselhamento voluntário por telefone chamado Disque-paz. Tão logo começaram as sessões, pude constatar com assustadora clareza que o principal problema das pessoas que procuravam o programa era a solidão. Solidão a dois, solidão em família, solidão na igreja, solidão em relação a Deus, solidão de tudo quanto era jeito e forma. Descobri que as pessoas estavam sós; e que a comunhão tornara-se o grande suspiro de muitos corações.

Não é difícil explicar por que as pessoas se tornaram tão sós (basta considerarmos o pouco tempo de que dispomos para investir nos relacionamentos interpessoais). Muito mais difícil é explicar por que as pessoas insistem em continuar sozinhas. De todo jeito, segue aqui uma tentativa. 

A única maneira de nos livrarmos da solidão é através da convivência. Pois sem convivência não há como construirmos a comunhão. Precisamente aqui se encontra o nó que precisamos desatar: temos tanta necessidade de conviver quanto fugimos de fazê-lo. Por quê? A resposta talvez se resuma em duas palavras: medo e egoísmo.

Estou certo de que tememos a convivência. Sim, porque conviver é arriscado. À medida que convivemos de perto com alguém, vamos nos expondo, nos desvelando, nos desnudando diante do outro. Quanto mais profunda desejamos que seja a relação, maior o risco que corremos de serem manifestados os nossos defeitos, as nossas fraquezas e limitações. Tudo o que sempre quisemos esconder tende a ser descoberto quando convivemos com outras pessoas. Aí reside a raiz de toda dificuldade: tememos ser rejeitados depois de conhecidos. As pessoas poderão descobrir quem sou e desistir de mim. Será que vale o risco?

O outro fator na origem de nossa solidão é o egoísmo. Em maior ou menor medida, a maioria de nós é egoísta. Não resta dúvidas de que queremos estar com outras pessoas que de algum modo nos livrem da solidão, mas não sei se queremos ser o alguém que vai livrar outras pessoas da solidão. Nosso foco, via de regra, está em nós mesmos. Vivemos sozinhos porque procuramos, nos outros, a nós mesmos. Vamos ao outro pensando em nós mesmos; em nosso bem-estar, em nossas necessidades e carências. No fim, nosso egoísmo empurra de volta para longe de nós as pessoas que cativamos. Enquanto permanecermos egoístas, continuaremos sós.

Enfim, a comunhão pressupõe o encontro, o relacionamento pessoal e a convivência com todos os riscos que lhe são inerentes. Quem quiser ter comunhão, precisará também ter coragem e exercitar o altruísmo. Precisará ter a ousadia de desnudar-se e de amar o outro como a si mesmo. Obviamente, tal caminho constitui um grande desafio. Mas é assim mesmo. Pois “como ferro com ferro se afia”, assim também a convivência nos fará pessoas melhores e nos libertará finalmente das algemas da solidão. Nada disto, no entanto, acontecerá sem que sejam produzidas algumas fagulhas…