Graça e esvaziamento

Nós somos salvos pela graça e de graça. Mas a salvação que nos foi concedida gratuitamente, para Deus, custou um preço altíssimo. Sim, pois a graça não é um conceito teológico sem qualquer correspondente na realidade concreta de nossas vidas; tampouco uma superestrutura retórica que afirma um amor perfeito e incondicional, porém abstrato e imaterial; a graça é o amor incondicional, irrestrito e irrevogável de Deus que se faz concreto em nosso favor na pessoa de Jesus Cristo! Ele é a expressão material da graça, a encarnação do amor incondicional de Deus por nós, a graça de Deus em pessoa! Deus tanto nos amou que se fez um de nós. O apóstolo Paulo reflete lindamente sobre essa maravilhosa metamorfose divina quando escreve aos filipenses no célebre hino registrado no capítulo 2.

Um problema, no entanto, emerge aqui: como o infinito poderia caber na finitude? Como a perfeição poderia caber na imperfeição? Como o eterno poderia caber no tempo? Como Deus poderia caber num homem? Para se fazer humano, Deus precisaria reduzir de tamanho, se apequenar, se autolimitar. E foi exatamente isso que Deus fez. De novo. Pois para nos dar à luz na criação, Deus se impôs uma espécie de cruz, Deus se restringiu e se autolimitou renunciando em parte à sua onipotência. Como assinalamos noutro lugar, uma vez que o ser humano foi criado livre, a vontade de Deus expressa em seus mandamentos sempre correrá o risco de não se realizar (pois o ser humano pode desobedecer com fez no Jardim do Éden e faz frequente).

Segundo o apóstolo Paulo, na encarnação, Deus se impõe um novo golpe. Deus agora vai ainda mais longe ainda. Ele não apenas renuncia a algo de sua onipotência, ele deixa de lado muito de sua divindade. Nas palavras do apóstolo: Deus se esvaziou. Sim, ele murchou, minguou; Deus abriu mão de algo de si mesmo, abdicou momentaneamente de sua condição divina e se fez gente, pessoa humana, como qualquer um de nós. Esse foi o preço que Deus pagou para que a salvação nos fosse oferecida gratuita e concretamente.

Jesus nasceu em Belém da Judeia, na palestina do século I, na família de José, do ventre do Maria. Deus agora tem um rosto, um corpo, um sotaque, um timbre de voz, um tom de pele, uma coloração de olhos e cabelos. Ele sente fome, sede, sono, cansaço, fraqueza, medo. Como todo mundo, o Deus esvaziado precisa aprender a falar, a engatinhar, a sustentar-se de pé e andar… Ele se sujeita ao tempo e ao espaço. Para chegar aos lugares, precisa caminhar ou pegar carona num jumentinho. Um dia para Deus agora tem 24h ao invés de 1000 anos.

Não costumamos pensar sobre isso, mas na encarnação, Deus se fez absolutamente vulnerável e dependente dos seres humanos. Ele dependia do seio de Maria para se alimentar e dos braços de José para o embalar e proteger. Mais que isso ainda: esse Deus que se esvazia por amor a nós se sujeita ao risco de amar sem ser correspondido, o que tristemente acabou por acontecer. O Evangelho de João registra: “veio para os que eram seus, mas os seus não o receberam”.

Jesus foi rejeitado do nascimento à cruz. Nasceu numa estrebaria porque ninguém da família de José o quis receber em casa. Quando iniciou seu ministério, sofreu desconfiança, calúnia e perseguição. Foi acusado de glutão e beberrão, de expulsar demônios pelo poder do Diabo, de profanar o sábado, de relativizar a Lei e blasfemar contra Deus!!! Por fim, foi morto na cruz entre dois ladrões como se fosse um criminoso!!! Esse foi o preço que Deus pagou por nos amar incondicionalmente. Em Cristo, Deus se impôs muitos limites e se fez um de nós; contudo, nós o rejeitamos. E o matamos. Não queríamos um Deus fraco, humano, tão parecido com a gente. Por nos rejeitarmos, rejeitamos também o Deus que veio até nós como um espelho (porque na encarnação, não são os homens que se assemelham a Deus como na criação, mas Deus que se mostra a semelhança dos homens). Ao olharmos para Deus em Cristo-nosso-espelho, não gostamos do que vi e o matamos.

Todavia, a morte não pôde contê-lo e ao terceiro dia ele ressuscitou!!! O amor venceu! Isso é a páscoa que nós cristãs celebramos anualmente: Jesus Cristo é o Senhor da vida e da morte! Porque tendo vivido como qualquer um de nós, morreu como qualquer um de nós e tendo morrido, ressuscitou como nós também ressuscitaremos!!!

A páscoa é a festa da identificação radical de Deus com o ser humano! Deus se fez um de nós! Deus viveu a nossa vida e a nossa morte! E nos abriu o caminho da ressurreição! Por isso ele pode nos salvar. Ele conhece o caminho para fora do labirinto da culpa, do medo, do ressentimento e da vingança. E nos convida a fazer esse caminho com ele. Daí Paulo dizer aos Filipenses: “Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo”.

Como responder a um amor como o amor de Deus por nós? Como responder à graça? Sendo graciosos como Jesus – nos ensina o apóstolo Paulo! Porque ser gracioso tem a ver com amar radicalmente, tem a ver com autoesvaziamento para o outro ter vez também, pois, como sabemos, nós não estamos sozinhos no mundo! Não somos o centro do mundo! O outro existe também e o exercício da minha liberdade não pode anular a liberdade dele! E vice-versa. Para nós dois coexistirmos no mundo, nós precisaremos nos esvaziar cada um um pouco. Como o outro viverá a própria liberdade se eu imponho sobre ele que seja como eu gostaria que ele fosse? Como ele poderá ser ele mesmo diante de Deus e da vida se eu o constranjo a ser igual a mim?

Nós somos tão cheios de nós mesmos que não deixamos espaço para o outro ser quem ele é. E vice-versa. A páscoa nos convida a nos esvaziarmos e nos tornarmos graciosos como Deus que, por amor, assumiu um alto preço em nosso benefício.

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Graça, liberdade e responsabilidade

Até 1997, no Brasil, a obrigatoriedade do uso do cinto de segurança restringia-se às estradas e rodovias. Nas demais vias públicas, tanto o motorista quanto os passageiros tinham a liberdade de usá-lo ou não! O motivo preponderante para a mudança da legislação foi a incrível disparidade dos índices de mortalidade entre as vítimas arremessadas para fora dos carros e aquelas que, de algum modo, permaneciam dentro dos veículos nos acidentes. Embora a lei tenha por objetivo proteger a vida e a liberdade de ir e vir das pessoas, muitos resistem a usar o cinto queixando-se que o mesmo limita a liberdade de movimentos no interior dos automóveis.

A lei de Deus funciona como um cinto de segurança. Ela impõe limites à nossa liberdade, mas ao fazê-lo, a protege (e nos protege também). Gn 3 ilustra de maneira emblemática essa realidade: Deus criou o ser humano livre e o colocou num jardim maravilhoso onde homem e mulher poderiam viver como desejassem. Tudo lhes era permitido, exceto comer o fruto da árvore no meio do jardim porque, se assim eles fizessem, morreriam. É paradoxal realmente: a lei de Deus protege a nossa liberdade limitando-a! E por que esse limite se faz necessário? Porque o exercício irrestrito da liberdade é autodestrutivo! Liberdade sem limites é morte.

Nós somos livres para comer ou beber ou ficarmos sem dormir ilimitadamente, mas se o fizermos, iremos nos autodestruir. A liberdade precisa do limite, pois é o limite que a torna saudável, sustentável e mesmo possível. Mesmo Deus, que é absolutamente livre, livremente se impôs um limite ao nos criar. Pois ao nos criar livres como Ele próprio, Deus prescindiu de algo de sua própria liberdade. Por isso Deus não nos impede de exercer nossa liberdade mesmo quando contraria a vontade dele. Deus não impediu Adão e Eva de comerem do fruto proibido. Ele os advertiu, os exortou, os proibiu, mas não os impediu de ir lá na árvore no meio do jardim (mesmo contra sua vontade e ordem), pegar o fruto e comer!!! Tanto é assim que eles comeram…

Cabe aqui perguntar: por que Deus permite que nós descumpramos sua Lei, que façamos aquilo que contraria sua própria vontade para nós que, como afirma o apóstolo Paulo, é boa, perfeita e agradável? A resposta é simples: porque Deus leva muito à sério a liberdade humana. Deus não nos quer presos a ele, reféns de sua vontade. Ao contrário. Ele nos deseja livres porque somente se formos livres para caminharmos para longe Dele e de sua vontade, seremos também livres para escolhermos estar perto Dele e obedecermos aos seus mandamentos. Isso é graça: amor que não se impõe, mas se expõe ao risco de ser rejeitado!!!

Contudo, é importante frisar, a liberdade não é a única filha da graça; ela tem uma irmã gêmea que se chama responsabilidade. Toda ação produz uma reação. Toda escolha é uma fecundação: produzirá filhos que não poderão ser desamparados. O ser humano escolheu comer o fruto proibido! Ok, Deus respeita a liberdade humana. Mas ele agora terá de responsabilizar-se pelas consequências. O exercício da liberdade querer responsabilidade! Mais liberdade corresponde a mais responsabilidade! E vice-versa: Menos liberdade corresponde a menos responsabilidade!

Neste ponto residem muitos de nossos problemas. Pois em geral nós queremos ser livres, mas não queremos ser responsáveis!!! Adão comeu do fruto proibido, mas tentou isentar-se da responsabilidade lançando-a sobre Eva. Eva, por sua vez, lançou a responsabilidade sobre a serpente visando lavar as próprias mãos. Mas Deus leva à sério demais a liberdade humana para nos eximir da responsabilidade por nossas escolhas. Quem quer ser livre tem de estar pronto para ser responsável! Pois onde há verdadeira liberdade, não há vítimas! Se livremente eu escolhi o meu caminho, então sou o único responsável por ter chegado onde cheguei. Ou por não ter chegado a lugar nenhum… Não posso culpar os outros pela estado em que minha vida se encontra. Pois ninguém faz nada comigo que eu não permita. Se as coisas estão como estão é porque, em alguma medida, eu consenti!!! No mínimo, eu sou co-responsável.

Assumir a responsabilidade por nossas escolhas é o ônus da liberdade. Daí que muitos optem por agir como os gálatas que abdicaram de ser livres para não terem de se responsabilizar pelas próprias escolhas. Adão e Eva, no entanto, fizeram uso da liberdade concedida por Deus, logo, não poderiam ser eximidos por Deus de arcar com a responsabilidade. A graça nos concede ampla liberdade, mas requer de nós igual responsabilidade. Por isso o ser humano foi expulso do Paraíso (o que não significa que Deus o tenha abandonado, porque a graça segue com a gente até o fim, não recua jamais, e nos ajuda a lidar com as consequências de nossas escolhas equivocadas). O Evangelho da Graça é um convite à vida livre e responsável baseada no amor incondicional, irrestrito e irrevogável de Deus por nós que nos deu a sua Lei para nos proteger e orientar. Contudo, obedecer ou não a Lei, é algo que compete a cada um escolher assim como a cada motorista e cada passageiro compete também decidir se irá acatar ou não a Lei e viajar usando o cinto de segurança.

 

 

A retórica da morte e o Deus da vida

Não se trata de defender marginal, mas de proteger o ser humano.


“Então o Rei dirá às ovelhas à sua direita: “Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo. Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram”. Então os justos lhe responderão: “Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, ou necessitado de roupas e te vestimos? Quando te vimos enfermo ou preso e fomos te visitar?” O Rei responderá: “Digo-lhes a verdade: O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram”. (Mateus 25:34-40)

Todos acompanhamos pelos meios de comunicação a onda de violência que culminou no último domingo na tomada do Complexo do Alemão pelas forças de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro – as Polícias Civil, Militar e Florestal – em conjunto com as forças armadas do Brasil, nomeadamente, a Marinha e o Exército.

As causas de toda essa violência são conhecidas: a (1) desigualdade e injustiça social, a (2) falta de vontade política, a (3) indiferença e conivência do Estado que se beneficia da ignorância e da pobreza da população, o (4) contingente policial reduzido, despreparado e mal-remunerado, a (5) hipocrisia de setores da sociedade que sustentam o tráfico através do consumo de drogas, as (6) limitações da legislação criminal, a (7) corrupção na Polícia, na Política e no Poder Judiciário, a (8) impunidade, a (9) crise do sistema penitenciário, o (10) contrabando de armas, o (11) desrespeito pela vida, etc. A lista é longa. E igualmente extensa é a relação das ações necessárias para virarmos em definitivo essa página. Haverá solução?

Toda essa conjuntura nos afeta profundamente. Como cidadãos, sentimo-nos desprotegidos, vulneráveis, traídos, indignados e – o pior de tudo – sem esperança. Tornarmo-nos, desse modo, presas fáceis de um certo discurso irracional e truculento que vê no extermínio sumário dos atores desse circo de horror a única solução possível para o presente quadro. “Tem de matar todo mundo” – repetimos com gosto de sangue na boca.

Sejamos sinceros: quem não desejou a morte daqueles rapazes pardos e favelados que armados até os dentes chegavam de moto na comunidade da Vila Cruzeiro enquanto zombavam das autoridades instituídas e espalhavam o terror pela cidade? Quem não torceu para que, ao invés da rendição, houvesse uma chacina, um implacável banho de sangue, na manhã do último domingo?

Engana-se, porém, quem imagina que isso solucionaria o problema. Afinal, existem filas e filas de meninos naquela e em diversas outras favelas sonhando com a oportunidade de ocupar os lugares dos traficantes que lá estão hoje. Disto ninguém se engane: os nossos vilões, são os heróis deles para quem, aliás, nós do asfalto, a polícia, e o Estado são os verdadeiros criminosos. Na cabeça dessas crianças, os traficantes mortos na guerra urbana são mártires que pagaram com a própria vida o preço da rebeldia e não-adequação aos padrões questionáveis de uma sociedade hipócrita, egoísta e indiferente.

Já o filme Cidade de Deus, do diretor Fernando Meirelles, mostrou como essa lógica opera. Depois vieram Tropa de Elite 1 e 2, deixando claro que quem cria e sustenta o traficante é, de um lado, o usuário de drogas das classes média e alta que hipocritamente fuma seu baseado enquanto discute o problema da violência urbana e, de outro, o governo, que manipula a opinião pública combatendo ou não o problema na medida em que tal ação pode ser ou não revertida em voto.

Como se vê, não é tão fácil como a primeira vista talvez pareça dizer com segurança quem é o vilão e quem é o mocinho nessa história. É também por este motivo que este tipo de discurso simplista e truculento é inadmissível e precisa ser confrontado. Muito para além disso, no entanto, a principal razão para se combater essa retórica da violência reside no fato de que tal constitui grave afronta aos direitos humanos, aos fundamentos do Estado democrático de direito e, sobretudo, ao Deus da vida.

Mas como assim? Por que essa mentalidade representa uma traição ao Deus de Jesus Cristo? Por que, como cristãos, não podemos nos permitir pensar dessa maneira?

Por uma razão decisiva: a vida é um direito concedido por Deus aos seres humanos e uma responsabilidade atribuída à igreja por Jesus Cristo. À luz dessa verdade, a fome, a nudez, a enfermidade, a indiferença, o desamparo, e a violência dentre tantas outras coisas se revelam forças contrárias ao dom outorgado por Deus a nós. São forças antagônicas ao querer divino, ao Reino de Deus e à vida abundante em Cristo Jesus; forças de morte que ameaçam e podem fazer morrer a vida. Ora, era justamente visando combater e cancelar tais forças que Jesus curava os enfermos, libertava os endemoninhados, acolhia os menosprezados e alimentava a multidão quando esta tinha fome. Ele sabia o valor da vida humana e esforçava-se por afirmá-la, defendê-la, promovê-la, e plenificá-la. A ética e a retórica de Jesus não eram a da morte, mas da vida, do novo nascimento, da ressurreição. Daí que ele andasse “por toda parte fazendo o bem” (At 10:38). Mais tarde, incumbiria a igreja desta gratificante tarefa.

Precisamente por essa razão não podemos nos unir ao coro daqueles que pedem a morte de quem quer que seja, especialmente de traficantes e bandidos que, em grande medida, ajudamos a criar. Não nos esqueçamos que dois mil anos atrás a opinião pública também pediu a morte de Jesus. A violência a nossa volta não pode nos tornar violentos. Seria uma dupla derrota. Portanto, ao invés de engrossarmos as fileiras das forças de morte aliando-nos aquele que veio matar, roubar e destruir, e traindo assim nossa vocação fundamental como igreja de Jesus Cristo, cumpre-nos agir em todo tempo como pacificadores, como agentes de paz e reconciliação. Afinal, estamos a serviço da vida. Esta é a marca inconfundível nos distinguirá no último dia como ovelhas de Jesus: a solidariedade dirigida a essa gente para quem o mundo deu as costas e Jesus abriu os braços na cruz do Calvário ao preço da própria vida.

Epitáfio

Como você gostaria de ser lembrado?

 

Quem não se torna sábio ouvindo o que a Morte tem a dizer está condenado a ser tolo a vida inteira. (Rubem Alves)

 

Não estou pensando em morrer. Não mesmo. Mas tenho pensado acerca da morte. Tenho refletido sobre meu último suspiro; aquele depois do qual fecharei os olhos para abrir do outro lado e, finalmente, poder enxergar. Ver como sou visto. 

Há uma imensa sabedoria na morte. E aprender sobre ela revela-se inspiração para a vida. Devíamos planejar a nossa tragetória neste mundo de trás para a frente. Primeiro o fim, então o começo. Pois é a visão de como desejamos ser lembrados que melhor nos orienta sobre as escolhas que temos de fazer. Afinal, o fim que antevemos para nossa breve existência lança luz sobre as opções que temos diante de nós e nos indicam, desse modo, uma direção a seguir. De outra parte, também evita o trauma de ao final de tudo, constatarmos desiludidos: “Que vida foi essa que vivi? Se pudesse, faria tudo diferente!”.

Quando chegar para mim o dia derradeiro, não quero pronunciar essas palavras. Quero antes, como Cristo na cruz do Calvário, dizer: “Está feito”. E render meu espírito a Deus com gratidão e dignidade. Apenas isso. Pois há muito desisitir de pensar que nasci para ser alguém extraordinário. Sou uma pessoa comum e anônima e estou em paz com isso. Se deixar uma pequena marca naqueles com quem convivi mais de perto, já basta. Não tenho a pretensão de escrever meu nome na posteridade. Estou safisteito em tê-lo no livro da vida. É assim gostaria de ser lembrado: como alguém que foi fiel a si mesmo, ao que acreditava, a quem amou e a Deus.

Provavelmente não me ocuparia de tais pensamentos se não tivesse lido com toda igreja o livro “Um mês para viver”. Lemos a obra enquanto jejuávamos e oravámos buscando discernir os caminhos de Deus para nossas vidas pessoais e comunitária. O fizemos na convicção de que tal reflexão nos levaria há uma profunda reorientação de vida e correção de rumo enquanto ainda há tempo. Nesse intuito, ao final dos 30 dias de leitura, fizemos um exercício poderoso: convidamos a todos que escrevessem o próprio epitáfio. No domingo seguinte, aqueles que desejaram, leram o seu breve texto para toda a igreja enquanto celebrávamos a Santa Ceia. Compartilho aqui o que escrevi e li, comovido,  para meus irmãos e irmãs na esperança de viver à altura de cada palavra:

Aqui jaz Leandro Marques.

Esposo amado e amável. Pai sábio e presente. Amigo verdadeiro. Servo fiel. Um homem bom.

Esforçou-se por viver a vida de acordo com o que entendeu do Evangelho, com o que acreditou ser verdadeiro e importante. Deu boas risadas e tentou não acreditar em tudo que diziam a seu respeito, fosse isso bom ou ruim. Buscou em tudo ser uma pessoa inteira. E transparente, na medida do possível. Amou a vida, o semelhante, e a Deus. Gastou-se pela causa do reino de Abbá. Fez o bem. Viveu e morreu como discípulo de Jesus Cristo.

Agora descansa em paz. E deixa saudades…

 

Páscoa: Deus passou por aqui…

Na cruz de Jesus, Deus passou pela morte

 A palavra “páscoa” traduz o hebraico “pessach” que, como é sabido por todos, significa “passagem”. Trata-se de uma referência à noite em que anjo de Deus passou pelo Egito libertando o povo de Israel de sob o domínio de Faraó que já durava 400 anos. Tal episódio encontra-se relatado em Êxodo 12 e é, sem sombra de dúvida, uma das memórias prediletas do povo judeu. Com efeito, desde aquela noite até o dia de hoje, uma vez por ano, inexoravelmente, Israel celebra esta data. É a festa da Páscoa.

Entretanto, a celebração anual desta festa não é privilégio dos judeus. Nós cristãos também a celebramos fielmente, se bem que desde um prisma diferente. Um prisma que, a rigor, não exclui nem invalida o prisma judaico, mas o transcende. Porque se para os judeus a páscoa é a festa da libertação nacional, para nós cristãos, ela é a festa da libertação universal e total; a comemoração por excelência do triunfo da vida sobre a morte e sobre todos os seus agentes em benefício de toda criação. Por essa razão, na páscoa, cantamos todos juntos: “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1Co 15,55).

Este ponto é preciso estar claro: para nós cristãos, a páscoa é a festa da vida, de sua afirmação e vitória sobre a morte ainda que cruzes façam parte da história. Porque o que aqui celebramos não é outra realidade senão a da passagem triunfal (e misteriosa) de Deus pela morte suscitando vida desde suas entranhas. O que na fé afirmamos, na páscoa celebramos: Deus mesmo, em carne e osso, visitou a nossa história, experimentou as nossas dores, comeu pão e bebeu vinho, sentiu fome, sede, teve medo, riu e chorou. Nasceu criança pobre, vulnerável, entregando-se aos cuidados de José e Maria. Foi circuncidado ao oitavo dia, freqüentou o templo e as festas do povo. Uma vez crescido, tomou partido dos pecadores. Deu valor às crianças e às mulheres, curou os enfermos, libertou os endemoninhados, acolheu a gente marginalizada, questionou os costumes e as tradições religiosas, ensinou o amor e denunciou a injustiça. Viveu sem pecado. Foi morto de forma brutal em uma cruz hedionda. Mas ressuscitou ao terceiro dia. Nas palavras de Pedro: “andou por toda parte fazendo o bem” (At 10,38). Em Jesus de Nazaré, Deus mesmo passou entre nós ordenando vida e inaugurando a ressurreição de todas as coisas.

Na Páscoa, portanto, nós cristãos declaramos: o mundo já não terá um fim, mas um futuro – será transfigurado. Toda criação já está sendo redimida, ressuscitada. Por isso, na fé, já não falamos mais em termos de morte e vida, mas de vida e ressurreição. Porque a morte nada mais é do que o ponto de chegada de nossa vida natural ao passo que a ressurreição marca o seu início. Sim, começamos a viver quando ressuscitamos em vida por meio de Jesus Cristo. Dia após dia o nosso corpo vai morrendo, mas em Cristo, somos ressuscitados a cada novo dia, chamados a uma nova existência, a uma experiência de plenitude.

Embora muitas vezes o contexto concreto em que nos encontramos aponte noutra direção – seja a família em crise, a vida profissional ameaçada ou mesmo a conjuntura social caótica –, é necessário sempre de novo lembrar que a cruz não pode conter a ressurreição. Ao terceiro dia, ela acontecerá!!! Haverá dias de pranto, de luto, de sombras, mas o sol brilhará outra vez. Esta promessa foi selada com sangue. Assim, aguardamos o dia bendito em que Deus será “tudo em todos” (1Co 15,28). É isto, precisamente, que na páscoa celebramos: o princípio de nossa libertação total e a promessa de abundância de vida. Aleluia!

Sobre viver e morrer

A morte do meu tio me fez pensar sobre minha vida
A morte nos faz parar para pensar sobre a vida

 

“Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os homens; e os vivos que o tomem em consideração” (Ec 7:2).

 

Hoje sepultei um parente querido: meu tio Célio, irmão mais velho do meu pai. Ele já não vinha muito bem de saúde, é verdade, mas sua morte não deixou de ser uma surpresa.

Enquanto dirigia para o cemitério pensava sobre a vida e a morte. Pensava sobre minha família que de tão grande somente se reúne em ocasiões extremas: ou muito alegres e festivas como casamentos e bodas, ou muito tristes como funerais. Fiquei pensando no sofrimento do meu pai, dos meus tios e tias, meus primos… Pensei também nos que já partiram: tio Nilson, tia Gracinha, Pipe… Pensei na minha avó que morreu sem que eu pudesse me despedir dela – estava morando nos EUA, à época. Pensei em Guto, meu irmão, e na minha mãe que, por não ter condições de suportar a dor, mal fala do meu irmãozinho. Ele hoje seria um homem.

Em meio ao caos urbano e ao barulho de motores e buzinas, pensei em Karine, minha mulher, e em Hugo e Theo, meus dois filhinhos. Imaginei o quão insuportável seria a dor de não tê-los mais. Pensei também na igreja – na Betânia, que há pouco completou 43 anos, e na Betânia Litorânea que ainda está sendo gestada. Vida que segue e vida por nascer.

Pensei em tantas coisas importantes que logo me dei conta do quanto penso pouco sobre elas. Percebi o quanto elegemos prioridades equivocadas e em como gastamos nossa vida correndo atrás do vento. “Vaidade de vaidades”, dizia Salomão, “tudo é vaidade” (Ec 1:2). Será que estamos destinados a viver assim?

A morte do meu tio Célio despertou-me para a necessidade de recobrar a lucidez. Pois me dei conta de que chorei a partida de alguém que, na realidade, nunca conheci. Convivi com tio Celinho toda a minha vida e quantas vezes conversamos para além do trivial? Quantas coisas ele tinha para dizer que nunca lhe foram perguntadas? Quantas estórias para contar que nunca parei para ouvi? Quantos conselhos para oferecer?

É estranho como nossa vida é frágil e vulnerável. E como nossa percepção das coisas é lenta. Perguntei-me: quantas pessoas mais precisarão morrer para que eu me dê conta de que desperdicei a oportunidade de conhecê-las realmente? Quantas pessoas mais precisarei perder para que possa finalmente descobrí-las? Talvez não haja desgraça maior neste mundo do que não perceber que o grande dom da vida é o outro.

Não posso mais seguir vivendo tão destraído e ensimesmado. Solidão, às vezes, é um mal que nos auto-impomos. Quero, a partir de hoje, estar mais perto de quem amo. Quero poder conhecê-los: minha mulher, meus filhos, meus pais, meu Deus, meus amigos. Quero ouvir suas histórias, seus sonhos, suas queixas, seus testemunhos. Hoje, no velório do meu tio Celinho, chorei não apenas sua morte, mas também a minha.