A oração mais sábia

Não precisamos tanto de descanso quanto de renovação
Não preciso tanto de descanso, mas de renovação

 

“[…] os que esperam no SENHOR renovam as suas forças, sobem com asas como águias, correm e não se cansam, caminham e não se fatigam” (Is 40:31).

 

O ritmo de nossas vidas é extremamente acelerado. As 24 horas do dia nunca são suficientes para tudo o que precisamos fazer. São muitas as camisas que temos de vestir. No meu caso, a de pai, marido, pastor, provedor, conselheiro, mestre, líder, capelão, amigo, filho, discípulo, pregador, administrador, etc. Todas estas demandas requerem enorme energia e uma alta capacidade de fazer malabarismos. (Sinto-me, muitas vezes, como aqueles meninos  jogando limões nos sinais de trânsito preocupado em não deixar nenhum deles cair).

Quando chega o fim do dia – ou da semana, ou do mês – o cansaço é brutal. Fomos além de nosso limite e, ainda assim, muita coisa ficou por ser feita. Vencido pela fadiga, nosso corpo se rende à preguiça e ao sono. A única oração que sabemos fazer é: eu preciso descansar. Mas mesmo para isto, o tempo não parece ser suficiente. Comentando sobre um livro que leu, um amigo me disse, dias atrás: nosso problema, na realidade, não é falta de tempo, mas falta de energia. Estamos exaustos não porque nos falte tempo para tudo o que precisamos fazer, mas porque concentramos nosso tempo nas atividades que mais nos roubam energia e deixamos de fazer justamente aquelas coisas que tem o poder de renovar a nossa energia.

Imediatamente, me lembrei do Pastor Pablo, missionário de nossa igreja no Peru. No ano passado, quando esteve na Igreja Betânia, ele relatou que após cinco anos no campo missionário servindo a Deus com grave escassez de recursos humanos e materiais, seu coração estava desanimado, seu corpo exausto e sua mente fixa na idéia de parar. Ele estava a ponto de desistir de tudo. Incessantemente, repetia para Deus: “Da-me um tempo de descanso”. Até que Deus falou-lhe ao coração: “Pablo, meu filho, você não precisa de descanso, você precisa de um renovo. Eu vou te renovar”.

Lembrei-me destas palavras como se Deus as tivesse dizendo para mim. E logo constatei que minhas orações estavam equivocadas. Mais sábio do que orar por descanso é orar por renovação. Até por que os limões continuam no ar e não podemos permitir que caiam ao chão. Por isto, tenho buscado este aprendizado. Quero orar desta forma a cada dia: “Renova-me, Senhor; renova as minhas energias. E ajuda-me a discernir as minhas reais prioridades. Livra-me de gastar meu tempo apenas com o que rouba as minhas forças e me permite-me não negligenciar aquelas pequenas coisas sagradas que me enchem a alma e trazem alegria”.

Em meio à loucura desta nossa vida pós-moderna, urbana, e hiper-acelarada, orar por renovação é, não apenas uma necessidade, mas também um ato de lucidez e de sabedoria. De outra parte, é igualmente importante passar em revista nossos hábitos e rotinas. E então prosseguir.

Que Deus nos renove hoje e a cada dia.

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A lucidez do lunático Van Gogh

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Noite estrelada, de 1889.

“Os céus manifestam a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos. Um dia fala disso a outro dia; uma noite o revela a outra noite. Sem discurso nem palavras, não se ouve a sua voz. Mas ela ressoa por toda a terra até os confins do mundo” (Salmo 19:1-4)

Pouco sei sobre arte, especialmente pintura. Mesmo assim, ouso dizer: curto Van Gogh. Fascinam-me suas telas e a história de sua vida.

Vincent Van Gogh foi um artista genial. Quis ser pastor, inicialmente. Chegou a estudar teologia e atuar no ministério pastoral. Mas logo trocou o púlpito pelo ateliê e os livros de teologia pela palheta de tintas, sua verdadeira vocação. Melhor assim. Acabou revolucionando para sempre a arte dos traços, das cores e texturas. Seu estilo inconfundível permite que mesmo um leigo como eu seja capaz de reconhecer suas obras. Elas são vibrantes e poderosas como poucas homilias. Em vida, porém, Van Gogh vendeu apenas um único quadro. Talvez pelo estigma da loucura.

Não há consenso quanto à enfermidade que o assolava. Epilepsia? Esquizofrenia? Transtorno bipolar? Ainda hoje se discute o diagnóstico. Sabe-se apenas o seguinte: era um homem perturbado. Suas crises, intensas e frequentes, estendiam-se por semanas inteiras. Numa delas, mutilou-se amputando parte da orelha esquerda. Depois pintou um autorretrato com a cabeça enfaixada cobrindo o ferimento. O episódio aconteceu na noite do dia 23 de Dezembro de 1888. Vang Gogh vivia em Paris à época. Após presentear uma prostituta com a orelha cortada, foi internado na clínica psiquiátrica Saint-Rémy-de-Provence onde permaneceu até o dia 7 de Janeiro do ano seguinte. Em carta ao seu irmão Theo, escreveu o seguinte sobre a experiência: “Conheci o abominável!”.

A fim de livrar-se das alucinações e da angústia lancinante que experienciava durante os surtos, ceifou a própria vida no ano de 1890. A tela “Campo de trigo com corvos” retrata a nuvem sombria que encobrira sua alma e pressagiara sua morte, ainda jovem, aos 37 anos de idade.

Uma de suas obras mais celebradas, Noite estrelada, é para mim a mais extraordinária de todas. Foi pintada no ano de 1889 num momento de lucidez durante uma das muitas vezes em que ficou internado na clínica Saint-Rémy. Através da janela de seu quarto, Van Gogh experienciou a beleza enigmática do céu estrelado do lado de fora do edifício e transformou em arte a paisagem viva e indizível. Porém, mais que registrar o firmamento memorável, a famosa tela dá testemunho da rara sensibilidade de alguém que, em meio à ruidosa agitação da própria alma, foi capaz de ouvir o silencioso convite das estrelas para contemplar o mundo além de si e acima de sua cabeça. Como homem religioso que era, não ficou indiferente – sabia que há na vida um mistério que os céus a um só tempo ocultam e revelam.

Sempre que vejo uma reprodução deste quadro, me pergunto: onde está o louco? Escondido atrás da tela ou mirando-a de frente? Indago-me desta maneira porque não me convenço de que o louco em questão seja mesmo o pintor flamengo. Não, o louco sou eu. O louco sou eu que vivo correndo de um lado para o outro, sempre apressado, sem jamais parar para contemplar o céu infinito sobre mim. Quem sabe não somos loucos todos nós que vivemos deste modo? Não seria evidência de loucura o fato de caminharmos neste mundo de tanta beleza sem nos permitirmos parar por ao menos um instante para ouvir a voz do céu que tudo encobre e testemunha desde tempos imemoriais? Será que ele que nos ilumina e orienta desde antes de o tempo começar a ser contado nada mais tem a nos dizer? Não terá ele um caminho a nos apontar?

A famosa tela de 1889 tem a força de um sermão bem enunciado. Ela grita aos nossos aos nossos ouvidos as palavras do sábio pregador de Eclesiastes: “Que proveito tem o homem de todo o seu esforço e de toda a ansiedade com que trabalha debaixo do sol? […] mesmo à noite a sua mente não descansa. Isso é um absurdo!” (Ec 2:22).

Eis a minha confissão: tenho tanta dificuldade de parar quanto tenho de ouvir (será que não ouço porque não quero parar ou não paro porque não quero ouvir?). É como se tivesse amputado minhas próprias orelhas…

Ironia das ironias: do alto de sua “loucura”, o lunático Van Gogh exibia uma lucidez raramente encontrada entre nós. Foi capaz de notar o que nos passa despercebido e, mesmo faltando-lhe uma orelha, ouviu o sublime convite que parece estar além de nossa sensibilidade auditiva e espiritual. De outra parte, nós, corredores resolutos, apesar de nossa suposta sanidade, seguimos adiante, cada vez mais surdos e insensíveis, repetindo obsessivamente: “Mais rápido! Mais rápido!”.

Por que tanta correria? Para onde estamos indo? Corremos para um fim desejável ou de um fim inevitável? Para alguém ou de alguém? Corremos assim por convicção ou por desorientação? Por escolha livre e consciente ou por desespero? Daremos conta de chegar? Valerá a pena a corrida?

À maneira de um bom pastor, em Noite Estrelada, Van Gogh nos conduz à experiência do mistério que pode nos salvar. Ao apontar para o céu sobre nós, a famosa tela aponta assim para o mistério para além dele e para além de toda representação; com efeito, ela aponta para aquele que é pura graça e beleza, que nos ama incondicionalmente e continuamente nos convida para si, aquele em cujos braços Van Gogh atirou-se quando já não mais podia suportar a saudade de viver longe dele que jamais deixou de ser o seu grande amor: Deus.