Graça, liberdade e obediência

O exercício da liberdade decorrente da graça requer limites. Pois uma liberdade irrestrita inevitavelmente ferirá outras liberdades ou, mais precisamente, a liberdade de outras pessoas. A fim de marcar a fronteira entre a minha liberdade e a liberdade alheia – e desse modo preservar ambas as liberdades -, Deus nos concedeu a sua Lei.

Mas a experiência deste bendito limite pode ser vivida de duas maneiras: como autonomia ou como escravidão. Paulo discute essa questão no capítulo 6 da carta aos Romanos. O que ele diz, em outras palavras, é o seguinte:

“Deus ama vocês incondicionalmente! Não há nada que vocês possam fazer para Deus amar mais vocês; nem há nada que vocês possam fazer para Deus amar menos vocês. Logo, vocês são livres para fazerem ou deixarem de fazer o que quiserem. Como então vocês usarão toda essa liberdade? Sairão por aí barbarizando, dando vasão a todas as paixões e compulsões, a todos os desejos e impulsos sem qualquer limite? Claro que não! Viver sem limites não é viver livremente, mas é viver como escravo. Pois quem vive sem qualquer limite, no fundo, está abrindo mão da própria liberdade. Viver livremente implica viver responsavelmente, isto é, supõe escolher, decidir e abraçar ou não determinada possibilidade! Quem não escolhe, não é livre! Se vocês são governados por paixões e impulsos, e já não conseguem conter nem dominá-los, vocês já não são mais livres, mas tornaram-se escravos novamente”.

Para o apóstolo Paulo, a graça nos liberta para uma escolha fundamental: uma vida segundo Deus ou segundo nossas próprias inclinações. É autoevidente que isso não significa que gozar e sentir prazer na vida sejam coisas reprováveis, mas vivermos sujeitos a este único registro é insustentável. Faz-se necessário limitar essa liberdade, conter em alguma medida essas inclinações. E a obediência à lei de Deus nos possibilita isso. Mas para realmente atingir o objetivo de preservar a nossa liberdade respeitando a liberdade dos outros, a obediência à lei de Deus precisa ser uma escolha (autonomia). Porque se for uma imposição (ou mesmo uma autoimposição violenta), o tiro sai pela culatra e caímos na armadilha do legalismo.

O legalismo que Jesus tanto criticou e denunciou é a obediência à lei de Deus que ao invés de nascer do amor que escolhe a vontade de Deus, nasce do medo do castigo divino ou na ideia de recompensa (se eu obedecer a Deus, ele irá me premiar com seu amor e com as suas bênçãos; então eu vou me submeter a sua Lei mesmo não desejando fazê-lo). Quando cumprida desta forma, a Lei de Deus é experienciada de forma impessoal, como norma dura e fria, um fardo pesado, um jugo opressor que massacra, apequena, adoece e mata o ser humano e o amor dele por Deus. O legalismo não é um remédio contra o mal-uso da liberdade (libertinagem), mas é outra forma de mal-uso da liberdade, pois nada tem a ver com amor a Deus.

A fim de alertar os irmãos e irmãs de Roma contra o perigo do legalismo, Paulo fala em “obedecer de coração” (v.17) querendo dizer com isso que a verdadeira obediência nasce da autonomia, isto é, da decisão livre de se fazer servo, de se submeter a uma regra de vida, uma disciplina (que, como bem disse Renato Russo, é liberdade).

Paulo prossegue com seu raciocínio para dizer que o fruto de uma vida de livre e obediente é a santidade que é sinal da vida abundante, da vida eterna vivida aqui e agora. A santidade nasce de um coração obediente que escolheu disciplinar-se a partir da Lei de Deus a fim de preservar a própria liberdade e respeitar a liberdade do outro. E tudo isso faz por amor a Deus, ao próximo e a si mesmo. A obediência a Deus livremente assumida é a forma mais profunda e genuína de liberdade possível.

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Graça e Lei (II)

A Lei divina nos foi dada como instrumento para proteger, orientar, e abençoar. Daí se conclui que o ser humano é a razão de ser da Lei e não o contrário. Como Jesus bem disse: “O Sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do Sábado” (Mc 2:27). Sempre, no entanto, que a Lei perde de vista essa finalidade e, ao invés de proteger, orientar e abençoar o ser humano, ela o oprime, acharca, mutila, diminui e aprisiona, faz-se necessário coloca-la em questão, revisa-la e até mesmo aboli-la. Não raro, para se cumprir o espírito da Lei de Deus é preciso transgredir sua letra ou romper com sua tradição interpretativa como Jesus fez tantas vezes.

Para Jesus estava claro, a lei de Deus é graça, é uma expressão do amor de Deus pelo ser humano. De outra parte, também estava claro para ele que a Lei pode tornar-se desgraça dependendo de como é entendida e aplicada. É isso que Paulo diz a Timóteo: Sabemos que a Lei é boa, se alguém a usa de maneira adequada. O problema é que, frequentemente, ela é usada de maneira inadequada (como vimos anteriormente). Daí que ela seja experienciada como maldição, muitas vezes, e não como bênção. Tal tem mais a ver com aqueles que a interpretam e aplicam do que com a lei em si mesma. Pois, como Paulo afirma de maneira assertiva: “a Lei é boa”. Alguém, no entanto, poderá perguntar a partir de nossa contemporânea antipatia por normas, regras e interdições: “Mas como a Lei pode ser boa se ela restringe a minha liberdade?”. A resposta é simples, apesar de paradoxal: é justamente porque limita a nossa liberdade que a Lei a protege e garante. Segundo a narrativa de Gênesis 2, quando criou todas as coisas, Deus deixou o ser humano livre no paraíso para viver como bem entendesse, mas colocou uma árvore no meio do Jardim e lhe disse: “desta árvore vocês não comerão, porque no dia em que dela comerem, vocês morrerão”. Em outras palavras, Deus lhe diz o seguinte: “Você é livre; tão livre que, se quiser, irá comer inclusive o fruto dessa árvore aqui. Eu não irei te impedir. Mas eu estabeleci uma lei para te demover dessa ideia, porque se fizer isso, você irá se destruir”. A Lei que Deus entregou ao ser humano não é de forma alguma arbitrária, autoritária nem castradora! Ela é, na realidade, cuidado, proteção, amor! Deus concedeu a Lei ao ser humano a fim de orientá-lo e protege-lo e assim tentar evitar que ele se autodestrua. Porque a liberdade ilimitada é autodestrutiva.

Imagine uma pessoa que resolva exercer a liberdade de comer ilimitadamente, sem jamais parar! Ou alguém que resolva exercer a liberdade de inspirar ilimitadamente, sem jamais expirar! O que acontecerá com ela? A vida pulsa. Ela expande e se contrai. O sol nasce e se põe. A inspiração precisa da expiração. A vigília precisa do sono. A comida precisa do jejum. A corrida precisa da linha de chegada. A liberdade precisa da lei. A lei não é fim da liberdade é a sua fronteira! Há uma lei natural, fisiológica, que me impede de inspirar sem jamais expirar. Essa mesma lei natural me impede também de fazer o contrário: expirar sem jamais inspirar. A Lei é a fronteira entre duas liberdades. Ninguém pode exercer a própria liberdade ilimitadamente porque, se assim fizer, irá ferir ou mesmo anular a liberdade de alguma outra pessoa. Para que a sua liberdade seja preservada, é preciso que a minha seja limitada! E vice-versa. Ou seja: a experiência da lei é inerente à experiência da liberdade. Ao contrário do que talvez pareça à primeira vista, a lei não ameaça a liberdade, ela a sustenta. É como as rodinhas auxiliares de uma bicicleta. Ela certamente limita as possibilidades que a criancinha (em tese) possui de fazer manobras e acrobacias; todavia, mantém a criancinha sobre a bicicleta exercendo a liberdade de pedalar. Sem as rodinhas, a criança é mais livre, sem dúvidas, porém o risco de queda é acentuadamente maior. E dependendo da maturidade da criança, fatalmente maior.

A questão, portanto, não se a lei é boa ou ruim! Ela é boa porque sustenta a liberdade. Ela nos mantém em pé. De outra parte, ela o faz colocando-nos certos limites – o que é inevitável. Em termos práticos, porém, a questão é outra, a saber: o quão flexíveis ou rígidos são os limites que a lei fixa e quem os determina. A lei é tão boa quanto mais justo é limite que ela estabelece entre duas ou mais liberdades. A Lei de Deus faz isso. Por isso ela é boa, é graça. De outra parte, se não faz isso, não é graça nem é de Deus. Uma lei unilateral, que garanta apenas a minha liberdade em detrimento da sua, não pode ser uma lei divina ainda que reivindique tal autoridade. Daí que precise urgentemente ser revista ou abandonada. A Lei de Deus estabelece o justo limite entre as liberdades. Porque o seu fundamento é a graça e a graça é o amor incondicional, irrestrito e irrevogável de Deus por todos e todas nós indiscriminadamente.