A igreja e a missão

O Pai que nos criou também tomou a iniciativa de nossa salvação
O Pai que cria também toma a iniciativa de salvar

O que vem primeiro: a igreja ou a missão? É a igreja que tem uma missão ou é a missão que tem uma igreja?

Segundo as narrativas evangélicas, Jesus inicia sua atividade proclamando o Reino de Deus (Mc 1:14-15). E em função deste Reino, orienta e organiza todo seu ministério: conta parábolas para explicá-lo, realiza milagres para revelar que ele já começou a operar nas vidas das pessoas, e chama discípulos para plantar neles a esperança do Reino e o compromisso com sua construção.

Com exceção de duas passagens em Mateus – Mt 16:18 e Mt 18:17 – jamais vemos Jesus falando em igreja. Em contrapartida, a expressão “Reino de Deus” aparece mais de 250 vezes nos Evangelhos, a grande maioria das vezes nos lábios de nosso Senhor.

Teologicamente falando, a igreja nasce no dia de Pentecostes com a descida do Espírito Santo. Antes disto, porém, Jesus já havia entregue a missão a seus discípulos (Mt 28:19-20) que aguardavam reunidos o cumprimento da promessa pela qual seriam capacitados para realizá-la (At 1). Foi com esta finalidade que Jesus os chamou para seguí-lo.

A missão, portanto, é anterior à igreja. Logo, não é a igreja que tem uma missão, mas é a missão tem uma igreja. Esta existe como serva e instrumento daquela. A igreja não existe para enviar, mas existe como enviada.

É fundamental a compreensão acima. Ela, porém, nos coloca uma pergunta: se a missão não é da igreja, de quem é? Ora, a missão é de Deus (João 3:16). Ela foi confiada à igreja, mas ela é de Deus (Missio Dei). Deus é quem deseja salvar e quem, afinal, salva a humanidade. Ele enviou seu filho para realizar esta missão e incumbiu a igreja de continuá-la.

Mas ainda uma última pergunta fica sem resposta: quem é, afinal, este Deus da Missão? O Deus da missão é Abbá, o Pai de Jesus Cristo – um Deus amoroso e solidário que deseja o bem da humanidade. Abba é dinamismo de amor sem limites e fonte de toda ternura e graça. Ele é Trindade.

Segundo a tradição teológica latina, nos tempos eternos somente o Pai era. “Princípio sem princípio, origem sem origem”, dizia Agostinho. Mas por ser amor, o Pai não podia suportar “ser” sozinho. Ele então faz um movimento para fora de si e gera o Filho e, com o Filho, o Espírito. Ainda tomado por este amor que não cabe em si mesmo, Ele se  projeta para além de si mesmo e cria a humanidade para amá-la e ser amado por ela; para incluí-la neste círculo de amor e comunhão.

Abbá, o Deus do Reino é um Deus relacional. Ele nos ama e busca ser amado de volta por nós. Nisto consiste a Missio Dei. E para que este suspiro do coração divino se realize na sua vida e na minha, existe a igreja.

Anúncios

Leveza e moderação

Santidade não significa não-fazer, mas fazer diferente.
Santidade não é isolamento, mas proximidade

Incomoda-me, com freqüência, perceber que o Evangelho de Jesus Cristo vem sendo apresentado ao longo dos anos de forma desinteressante e vivido de forma triste e “pesada” por tantos cristãos, já que deveria seduzir as pessoas por tratar-se da boa-nova de salvação de Deus para homens e mulheres.

Infelizmente, tal realidade não é nova. Desde a chegada dos primeiros missionários norte-americanos no Brasil em meados do séc. XIX é assim. O protestantismo que recebemos daqueles irmãos queridos veio marcado por um forte moralismo típico do puritanismo inglês, matriz teológica do Evangelho que chegou e se instalou na América do Norte. Embora passível de críticas, a moralidade rígida daqueles missionários tinha por trás de si uma preocupação legítima: a santidade. Eles eram homens e mulheres que buscavam fazer a vontade do Senhor a todo custo. Não se discute o fato de que eram pessoas eticamente irrepreensíveis, de ilibada reputação na sociedade. Todavia, seu excesso de zelo moral trouxe conseqüências trágicas para o protestantismo que estava nascendo por aqui.

O erro que nossos irmãos cometeram é o mesmo que ainda hoje vemos presente na mentalidade evangélica brasileira: a associação da idéia de santidade à noção de privação. Por conta disto, cristalizou-se na mente das pessoas uma ética de tipo negativa e uma lógica do “não fazer”. O crente, então, passou a ser conhecido como o indivíduo que não fuma, não bebe, não vai ao cinema no domingo, não ouve música “do mundo”, não freqüenta ambientes culturais, não usa bermuda, não usa brincos, anéis, colares, não vai à praia, não joga futebol etc. Na verdade, o conceito bíblico de santidade é completamente outro, bem como é outra a ética que produz. Santidade não significa isolamento do mundo, mas proximidade de Deus para estar no mundo de modo distinto. Ser santo não significa não fazer, mas fazer diferente. Ser santo é ser “sal da terra e luz do mundo” (Mt 5.13).

Por falta desta clareza, muitos crentes têm vivido sufocados sob o jugo de tantas restrições, e muitas pessoas que vivem por aí sem Deus têm pavor de ouvir falar do Evangelho. Importa, por este motivo, lembrar as palavras de Jesus quando afirma que o seu fardo é “leve” (Mt 11.30), e acolher a recomendação do autor da epístola aos Hebreus no sentido de deixarmos para trás “todo peso e pecado” (Hb 12.1) que nos atrapalhem a corrida da vida cristã. Não se trata de pregar um Evangelho permissivo e libertino, mas de resgatar o ideal divino de uma vida plena e abundante, vivida com leveza e moderação. 

 

O segredo da alegria

O coração alegre aformoseia o rosto
O coração alegre aformoseia o rosto

Segundo o Evangelho de São João, Jesus certa feita foi a um casamento em Caná da Galiléia onde, lá pelas tantas, o vinho da festa acabou. Maria, sua mãe, talvez preocupada com o constrangimento que tal incidente provocaria, compartilhou com Jesus o problema e, àqueles que serviam os convidados, deu o seguinte conselho: “Fazei tudo o que ele vos disser”. O resto da história é conhecido: Jesus transforma água em vinho e o mestre-sala se admira do fato de que o melhor vinho tivesse sido servido apenas perto do fim da festa.

Não é incomum na Bíblia Sagrada a figura do vinho ser associada à alegria. Com efeito, no relato em questão, esta associação está presente. Acabar o vinho, neste caso, significa acabar a alegria, terminar a festa. Maria, que sabia do compromisso de Jesus com a alegria e com esta dimensão festiva da vida, se dirige a ele relatando-lhe tudo.

Embora antecipasse que de algum modo Jesus interviria na situação, o que nem Maria nem ninguém mais poderia imaginar, era que a água transformada em vinho viesse a ser melhor do que todo o vinho servido até então. Com efeito, é precisamente acerca disto que o episódio nos fala: a alegria que Jesus traz e constitui é melhor do que qualquer outra alegria que já possamos ter experimentado.

Muitas vezes em nossas vidas, a despeito das coisas que possuímos, das possibilidades que temos, ou das experiências que vivemos, a alegria que experimentamos parece não ser tão alegre assim. Pode até ser que num primeiro momento a gente não se dê conta da palidez ou da falta de vitalidade desta alegria sem Cristo. Mas uma vez que experimentamos a alegria que Jesus é e nos oferece, percebemos então que havíamos nos acostumado com algo muito aquém do que está a nossa disposição. E, perplexos, fazemos como o mestre-sala daquela festa que não entende como alguém que tem um vinho tão precioso a sua disposição não faz logo uso do mesmo.

Este episódio tem muito a nos ensinar. Aqui, no entanto, gostaria de sublinhar apenas duas coisas: Primeiro, que existe uma alegria mais alvissareira, mais plena, e que está acessível a qualquer um de nós. Segundo, que esta alegria, na realidade, não tem a ver com as coisas que compramos ou circunstâncias que vivemos, mas com uma pessoa que se a oferece a nós. Para experimentá-la, no entanto, é imperativo ouvir o conselho dado por Maria aos trabalhadores da festa: “Fazei tudo o que ele vos mandar”. A obediência a Cristo é o segredo da alegria.

Criados para viver eternamente

Queremos viver eternamente cada instante
O relógio marca apenas o tempo que já não temos

A vida é breve. Como declara o poeta sagrado – “Os dias de nossa vida sobem a setenta anos ou, em havendo vigor, a oitenta […] porque tudo passa rapidamente e nós voamos” (Salmo 90:10). Porém, para aqueles que creêm, há uma boa notícia: a vida não termina ao final deste número de anos.

Nós bem o sabemos: o ser humano não foi criado para a finitude e limitação desta vida mundana. Fomos criados para viver para sempre – e em plenitude. Daí que a morte nos cause tanta perplexidade. E a vida terrena, tanta ansiedade. Queremos viver plenamente cada minuto desta nossa vida debaixo do sol. Queremos viver eternamente cada dia.

Este desejo humano é inevitável e universal. Segundo a fé cristã, ele existe em nossos corações porque somos Imago Dei, porque fomos criados à imagem divina para vivermos precisamente desta maneira. Como revela o texto de Eclesiastes 3:1: Deus “pôs no coração humano o anseio pela eternidade”.

Isto que o escritor de Eclesiastes chamou de “anseio pela eternidade” é aquilo que, na teologia, se denomina “necessidade de salvação”. O ser humano sente, intui, que sua vida não é como deveria ser. A partir de sua experiência cotidiana, conclui: a vida deveria ser diferente – mais justa, mais cheia de graça, generosidade, congraçamento e alegria. Enfim, deveria ser melhor.

Esta perene insatisfação com a precariedade de sua vida, leva o ser humano a buscar plenitude (isto é: salvação, eternidade). O problema é que, influenciado pela cultura, ele interpreta e implementa esta busca em termos materialistas imaginando ser possível alcançar a vida plena através da aquisição de certos bens materiais, da assimilação de determinados estilos de vida, e da experiência inebriante do prazer, do sucesso, da admiração e da liberdade auto-centrada. O ser humano, deste modo, perde sua vida tentando salvá-la (Mateus 16:25).

A vida plena pela qual todos ansiamos somente é possível em Deus. Pois a eternidade consiste em “conhecer ao único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo” (João 17:3). Quanto mais o ser humano conhece a Cristo e se relaciona com Ele, mas sua vida se reveste de eternidade. Então o outro lado irrompe em nossa história enchendo-a de sentido e plenitude. Como diz o salmista: “um dia na presença do Senhor vale mais que mil” (Salmo 84:10). Vivemos eternamente quando vivemos com Deus.

Contudo, por ainda fazermos parte de uma realidade marcada pela ambigüidade, esta experiência da vida plenificada, somente nos é possível de forma incipiente, limitada e parcial. Apenas quando fecharmos finalmente os nossos olhos é que experimentaremos a eternidade em toda sua plenitude. Morreremos para ressuscitar. Esta certeza, de um lado, ilumina nossa vida e, de outro, dá sentido a nossa morte. Quem nesta mundo vive com Cristo e com ele vem a morrer, sabe de antemão que também com ele ressuscitará para a eternidade. Quanto a isto, ninguém se engane: decidimos nosso destino eterno hoje, no aqui e agora desta nossa vida terrena.

Jesus disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (João 14:6). Quem hoje decide abrir-se para a experiência de conhecê-lo, já não morre, mas passa da morte para a vida. Pois para quem vive com Cristo, a vida já não consiste num dinamismo de vida e morte, mas de vida e ressurreição. Toda morte é princípio de algo novo. Assim sendo, a morte em si já não representa um fim, mas o início de um futuro de plenitude e abundância de vida. De outra parte, quem se fecha para Cristo e vive para si mesmo, começa hoje a morrer eternamente…

A lucidez do lunático Van Gogh

starry-night-de-vincent-van-gogh-1889-replicas
Noite estrelada, de 1889.

“Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos. Um dia fala disso a outro dia; uma noite o revela a outra noite. Sem discurso nem palavras, não se ouve a sua voz. Mas ela ressoa por toda a terra até os confins do mundo” (Salmo 19:1-4)

Pouco sei sobre arte, especialmente pintura. Mesmo assim, ouso dizer: curto Van Gogh. Fascinam-me suas telas e a história de sua vida.

Vincent Van Gogh foi um artista genial. Quis ser pastor, inicialmente. Chegou a estudar teologia e atuar no ministério pastoral. Mas logo trocou o púlpito pelo ateliê e os livros de teologia pela palheta de tintas, sua verdadeira vocação. Melhor assim. Acabou revolucionando para sempre a arte dos traços, das cores e texturas. Seu estilo inconfundível permite que mesmo um leigo como eu seja capaz de reconhecer suas obras. Elas são vibrantes e poderosas como poucas homilias. Em vida, porém, Van Gogh vendeu apenas um único quadro. Talvez pelo estigma da loucura.

Não há consenso quanto à enfermidade que o assolava. Epilepsia? Esquizofrenia? Transtorno bipolar? Ainda hoje se discute o diagnóstico. Sabe-se apenas o seguinte: era um homem perturbado. Suas crises, intensas e frequentes, estendiam-se por semanas inteiras. Numa delas, mutilou-se amputando parte da orelha esquerda. Depois pintou um autorretrato com a cabeça enfaixada cobrindo o ferimento. O episódio aconteceu na noite do dia 23 de Dezembro de 1888. Vang Gogh vivia em Paris à época. Após presentear uma prostituta com a orelha cortada, foi internado na clínica psiquiátrica Saint-Rémy-de-Provence onde permaneceu até o dia 7 de Janeiro do ano seguinte. Em carta ao seu irmão Theo, escreveu o seguinte sobre a experiência: “Conheci o abominável!”.

A fim de livrar-se das alucinações e da angústia lancinante que experienciava durante os surtos, ceifou a própria vida no ano de 1890. A tela “Campo de trigo com corvos” retrata a nuvem sombria que encobrira sua alma e pressagiara sua morte, ainda jovem, aos 37 anos de idade.

Uma de suas obras mais celebradas, Noite estrelada, é para mim a mais extraordinária de todas. Foi pintada no ano de 1889 num momento de lucidez durante uma das muitas vezes em que ficou internado na clínica Saint-Rémy. Através da janela de seu quarto, Van Gogh experienciou a beleza hipnotizante do céu estrelado do lado de fora do edifício e transformou em arte a paisagem viva e indizível. Porém, mais que registrar o firmamento memorável, a famosa tela dá testemunho da rara sensibilidade de alguém que, em meio à ruidosa agitação da própria alma, foi capaz de ouvir o silencioso convite das estrelas para contemplar o mundo além de si e acima de sua cabeça. Como homem religioso que era, não ficou indiferente – sabia que há na vida um mistério que os céus a um só tempo ocultam e revelam.

Sempre que vejo uma reprodução deste quadro, me pergunto: onde está o louco? Escondido atrás da tela ou mirando-a de frente? Indago-me desta maneira porque não me convenço de que o louco em questão seja mesmo o pintor flamengo. Não, o louco sou eu. O louco sou eu que vivo correndo de um lado para o outro, sempre apressado, sem jamais parar para contemplar o céu infinito sobre mim. Quem sabe não somos loucos todos nós que vivemos deste modo? Não seria evidência de loucura o fato de caminharmos neste mundo de tanta beleza sem nos permitirmos parar por ao menos um instante para ouvir a voz do céu que tudo encobre e testemunha desde tempos imemoriais? Será que ele que nos ilumina e orienta desde antes de o tempo começar a ser contado nada mais tem a nos dizer? Não terá ele um caminho a nos apontar?

A famosa tela de 1889 tem a força de um sermão bem enunciado. Ela grita aos nossos aos nossos ouvidos as palavras do sábio pregador de Eclesiastes: “Que proveito tem o homem de todo o seu esforço e de toda a ansiedade com que trabalha debaixo do sol? […] mesmo à noite a sua mente não descansa. Isso é um absurdo!” (Ec 2:22).

Eis a minha confissão: tenho tanta dificuldade de parar quanto tenho de ouvir (será que não ouço porque não quero parar ou não paro porque não quero ouvir?). É como se tivesse amputado minhas próprias orelhas…

Ironia das ironias: do alto de sua “loucura”, o lunático Van Gogh exibia uma lucidez raramente encontrada entre nós. Foi capaz de notar o que nos passa despercebido e, mesmo faltando-lhe uma orelha, ouviu o sublime convite que parece estar além de nossa sensibilidade auditiva e espiritual. De outra parte, nós, corredores resolutos, apesar de nossa suposta sanidade, seguimos adiante, cada vez mais surdos e insensíveis, repetindo obsessivamente: “Mais rápido! Mais rápido!”.

Por que tanta correria? Para onde estamos indo? Corremos para um fim desejável ou de um fim inevitável? Para alguém ou de alguém? Corremos assim por convicção ou por desorientação? Por escolha livre e consciente ou por desespero? Daremos conta de chegar? Valerá a pena a corrida?

À maneira de um bom pastor, em Noite Estrelada, Van Gogh nos conduz à experiência do mistério que pode nos salvar. Ao apontar para o céu sobre nós, a famosa tela aponta assim para o mistério para além dele e para além de toda representação; com efeito, ela aponta para aquele que é pura graça e beleza, que nos ama incondicionalmente e continuamente nos convida para si, aquele em cujos braços Van Gogh atirou-se quando já não mais podia suportar a saudade de viver longe dele que jamais deixou de ser o seu grande amor: Deus.