Graça e desgraça

Como é possível que Temer, atual presidente da república, seus dois antecessores – Dilma e Lula – e os ex-candidatos que com eles disputaram o segundo turno nas últimas eleições presidenciais – Aécio Neves e José Serra –, todos eles, sem exceção, tenham seus nomes citados em esquemas bilionários de pagamento de propinas, caixa 2, tráfego de influência, formação de quadrilha, evasão de divisas e lavagem de dinheiro? Pior: como é possível que tudo isso venha acontecendo há décadas, bem debaixo do nosso nariz, e nós, que sempre soubemos que isso acontece desse jeito, assistamos apática e resignadamente a todo esse circo de horror e perversidade?

Gênesis 3, se não responde de maneira final essas perguntas, lança ao menos uma forte luz para a construção de um discernimento. Este é o texto por excelência usado, ao longo de séculos e séculos, para explicar o que deu errado com a humanidade. Ao criar todas as coisas e o ser humano entre elas, Deus possuía um projeto excepcional, mas parece que algo fugiu ao script resultando numa sucessão de equívocos cada vez mais desastrosos como os capítulos 4 a 11 de Gênesis irão relatar sem eufemismos. Nossa tragédia humana tem aí o seu início, o seu pecado original.

O que se diz, mormente, é que o pecado original é a desobediência: Deus criou o ser humano, homem e mulher, e o colocou num paraíso onde lhe era permitido fazer praticamente tudo o que desejasse, exceto comer o fruto de uma certa árvore no meio do jardim. Mas foi exatamente isso que ele fez colocando tudo a perder. Todo pecado, portanto, é, em última análise, uma forma de desobediência à Lei de Deus.

Não tenho qualquer dificuldade com esse entendimento. Acho apenas que a desobediência por si só não dá conta da problemática. Como a narrativa bíblica deixa claro, a desobediência de Adão e Eva não foi acidental ou não-consciente, mas foi fruto de uma decisão ética. Só houve desobediência porque houve uma motivação para desobedecer e uma decisão de fazê-lo. Adão e Eva queriam algo com o pecado. Mas o quê? Responder essa pergunta é importante porque isso que é querido e desejado é o que qualifica o pecado, que o revela em toda sua extensão. Mas qual seria a motivação por trás da desobediência de Adão e Eva? O desejo de ser como Deus; a ambição de, como Deus, conhecer o bem e o mal, possuí-los, deles dispor. Numa palavra: estar acima do bem e do mal, como Deus somente está.

Querer ser como Deus e estar acima do bem e do mal é querer viver sem sujeitar-se a qualquer limite, qualquer autoridade, qualquer lei, norma ou enquadramento. É um desejo de onipotência, uma vontade de poder ilimitado. O pecado original é também o mal de Lúcifer: querer o lugar que pertence a Deus exclusivamente.

A meu ver, esse é o problema na raiz dos problemas sócio-políticos do Brasil de hoje (e de sempre). Essa gente toda que está aí – Temer, Dilma, Lula, Aécio, Serra, Cunha, Renan Calheiros, a família Odebrecht, Moreira Franco, Joesley Batista, Sérgio Cabral, Rodrigo Maia, Eike Batista e literalmente centenas de outros se incluirmos as esferas municipais e estudais, a inciativa privada e os 3 poderes – toda essa gente que está aí acredita mesmo que é Deus, que está acima do bem e do mal e que pode, por isso, fazer o que quiser. Daí os mandos e desmandos que cometem em nosso país cuspindo no rosto da nossa democracia e zombando da noção de Estado de Direitos.

No fundo, o desejo de ser Deus esconde um outro aspecto presente no pecado original: a recusa de ser humano. Sim, a vontade de onipotência e a fantasiosa crença numa condição divina simultaneamente ocultam e revelam aquilo que talvez seja o ponto irredutível do pecado original: uma profunda rejeição do humano, um verdadeiro desprezo pela humanidade. Isso explica como é possível que boa parcela da classe polícia de nossa república seja capaz de, sem culpa, remorso ou constrangimento, usurpar, saquear, extorquir, oprimir, torturar, violentar, matar e deixar morrer milhões e milhões de pessoas que são direta e indiretamente afetadas pelos crimes por eles cometidos contra o nosso Estado e contra a população. Que importa se milhões são privados do acesso à saúde e educação de qualidade, se vivem em condições precárias e sub-humanas, se perderam seus empregos ou estão sem receber salário e aposentadoria? São apenas seres humanos e como tais, desprezíveis. Eis aqui nossa desgraça.

Mas essa é apenas uma face da moeda. A outra face é a seguinte: nós, o povo brasileiro, somos corresponsáveis pelo presente estado de coisas. Sim, pois nós permitimos tudo isso! Nossa omissão nos fez e faz solidários no pecado de nossos governantes. Eles só vivem esse devaneio de onipotência porque nós assumimos uma postura política de impotência. Assim como não existe um sádico se não houver um masoquista, não é possível haver um grupo de pessoas que se sentem onipotentes se não houver um outro grupo que se comporte como impotente. Esses dois polos se precisam e retroalimentam. Porque onipotência é plenitude de poder, poder total, absoluto. Ora, se há um grupo que reclama para si todo o poder, há necessariamente um outro grupo que aceita ficar sem poder algum. Bastaria, no entanto, o grupo impotente reclamar o poder que lhe pertence para interromper a fantasia onipotente dos que pensam ser Deus.

Se olharmos mais de perto, nosso pecado é também uma variação do pecado original, também uma recusa do humano, porém, às avessas em relação ao pecado de nossos governantes. Se estes rejeitam o humano porque o desprezam e desejam ser mais que humanos, nós o rejeitamos porque consentimos em ser tratados como menos que humanos, como massa informe, manobrável, descartável; pó e barro sem sangue nas veias e espírito de luta. Enquanto Temer, Lula, Cabral e cia. se apegam à ambição de uma vida além do bem e do mal, nós nos resignamos a uma vida que aquém do bem e do mal.

O mais trágico em tudo isso é pensarmos que, diferente de nós e dos governantes que nós elegemos, Deus não se envergonha do humano. Para Deus, o humano não é desprezível. Tanto que ele se fez humano em Jesus Cristo. Isso é o que a mensagem graça afirma sempre de novo: somos preciosos aos olhos de Deus e amados por ele de maneira incondicional, irrestrita e irrevogável. Para Deus, vergonhoso é o fato de rejeitarmos nossa humanidade, de renunciarmos ao sagrado direito a um viver ético também no campo político. Vergonhoso para Deus é saber que nossa ideia de Deus ganha expressão na maneira de ser e agir de nossos governantes. Pois o deus que eles fantasiar ter se tornado nada tem a ver com o Deus que se encarna e revela em Jesus Cristo. Diferente daqueles, este não faz a mínima questão de sua onipotência, mas se esvazia, se reveste de nossa fragilidade, se cinge com uma toalha e se ajoelha diante de nós para lavar os nossos pés cansados das lutas da vida.

Nosso problema é grave: rejeitamos nossa humanidade e pouco sabemos sobre Deus. Por isso também nós precisamos de Jesus Cristo. Sua pessoa e vida nos ensinam de uma só vez estas duas coisas.

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Deus e o terremoto no Haiti

 

Onde estava Deus na tragédia do Haiti?

“Meu Deus, meu Deus! Por que me abandonastes? (Mc 15:34) 

 

Os números são assustadores. As imagens, chocantes. Diante do caos absoluto instaurado no Haiti, encontramo-nos perplexos. Alguns chegam até a titubear na fé: por que um Deus bom e todo-poderoso permite que algo assim aconteça?

A conclusão apressada – e, no fundo, simplista – a que muitos chegam é resultante do seguinte raciocínio: se Deus é bom, mas não evita a trágedia e o sofrimento humano, só pode ser porque não tem poder para fazê-lo. Logo, ele é impotente. Outros, seguindo a mesma lógica, concluirão que Deus não é bom, pois se ele é todo-poderoso para evitar a tragédia e o sofrimento, mas não o faz, é porque, na realidade, é indiferente a tudo que nos sucede.

A despeito de tragédias e da presença do sem-sentido no mundo, da realidade do sofrimento lancinante e do desespero da morte, a revelação bíblica nos assegura: Deus é sim BOM e TODO-PODEROSO. Ora, diante de tal afirmação, a questão passa então a ser: como articular a realidade do sofrimento humano com a bondade e o poder soberano de Deus?

A ídeia aqui não é responder esta questão milenar. Tampouco tentar, de alguma forma, esgotar o assunto. A intenção, na verdade, é bem mais modesta: trata-se tão-somente de tecer algumas considerações que nos sirvam de marcos de referência fundamentais para pensarmos a questão na perspectiva de quem crê (e deseja seguir crendo). São 3, portanto, as considerações que quero fazer:

 1.     Se cremos que Deus é bom e todo-poderoso, temos de crer também que existe uma resposta para o problema do sofrimento ainda que nós não a conheçamos.

O fato de não possuirmos uma resposta definitiva para o questão do sofrimento não significa que tal resposta não exista. Deus é diferente de nós. Ele é, como se diz no jargão teológico, o Totalmente Outro. Nós, de outra parte, somos seres ambíguos e limitados. Sabemos que existem coisas que nos escapam, nos transcendem, que estão além de nossa compreensão. Deus, porém, conhece o que desconhecemos e vê o que não vemos. Não temos uma resposta para o dilema do sofrimento humano, mas cremos que Deus a tem. Portanto, dizer que Deus não é bom, nem todo-poderoso apenas porque não temos uma resposta satisfatória para a questão em jogo aqui é como concluir que o ar não existe apenas porque não o podemos ver. Como pessoas de fé, assumimos nossa limitação: não sabemos. Contudo, cremos que Deus sabe. E assim aguardamos com esperança o dia em tudo nos será revelado. Afinal, a fé é a certeza de que existe uma resposta sobretudo onde não existe uma resposta aparente. 

2.     Se cremos que Deus é bom e todo-poderoso, temos de crer também que ele não é o causador destes males que nos sucedem e fazem sofrer.

No Novo Testamento, o Deus revelado em Jesus Cristo nem de longe é um Deus iracundo, punitivo, sádico, que ordena sobre nós o mal e é indiferente ao nosso sofrimento. Muito pelo contrário. Ele é um Deus que se faz um de nós, que se coloca ao nosso lado, sofre nossas dores, conhece nossa limitação, chora diante do nosso luto. É um Deus que experimenta o medo, a angústia, a perplexidade. Ele é Emanuel, Deus conosco, Deus como a gente. Como podemos constatar pelo texto de Mc 15:34, o sofrimento da cruz escandaliza o próprio Cristo. Mesmo assim, ele exclama: “Meu Deus, Meu Deus”. Jesus sabia que apesar de tudo, Deus era com ele e por ele. Sabia que Deus não poderia ser o seu algoz posto que era Abbá, paizinho de amor perfeito e infinito. Da mesma forma, Abbá não poderia estar na origem do que aconteceu no Haiti. Daí que se alguém nos perguntasse: “onde estava Deus na tragédia do Haiti?”, responderíamos sem hesitar: ele estava ao lado daqueles que ficaram orfãos, daqueles que perderam seus filhos, daqueles que viram seus queridos morrerem soterrados. Ele estava entre os escrombros chorando a dor dos enlutados, consolando os desesperados, e levando nos braços, de volta para casa celestial, seus filhos e filhas amados cujas vidas foram ceifadas. Deus não é o causador de todo este sofrimento, mas ele é vítima como qualquer um de nós. E isto não porque seja um Deus impotente, mas porque é um Deus solidário.

3.     Se cremos que Deus é bom e todo-poderoso e nós somos sua imagem e semelhança, temos de crer também que é possível conferirmos um sentido à realidade absurda do sofrimento.

Embora a primeira vista o sofrimento seja uma realidade sem-sentido, é possível atribuir-lhe um sentido na medida em que sofremos para erradicar o sofrimento dos outros ou minimizá-lo de alguma forma. Sempre que alguém sofre para que outra pessoa deixe de sofrer ou sofra menos um pouco, o sofrimento passa a ter um sentido. Pois este é o sentido do sofrimento vicário de Cristo. Ele sofreu na cruz para que nós tivéssemos uma esperança, um futuro, uma liberdade verdadeira, a vida abundante e a eternidade. Quando sofro para que alguém deixe de sofrer, me torno participante dos sofrimentos de Cristo o que confere não apenas sentido ao meu sofrimento, mas virtude, beleza e transcendência. Isto, obviamente, nada tem a ver com o fato de algumas pessoas – e mesmo nações inteiras – sofrerem sob a exploração capitalista para que outros enriqueçam e vivam nababescamente. O ponto aqui é precisamente a antítese deste quadro. Trata-se do sofrimento daqueles que lutam por um mundo mais justo, mais fraterno, mais aberto ao mistério do divino e mais cheio de compaixão pelo próximo. É na busca desta nova humanidade transfigurada e liberta do egoísmo, da injustiça, da exploração, e do pecado que o sofrimento ganha sentido.

Em suma. Não temos uma resposta crente plenamente satisfatória para a questão da coexistência do sofrimento humano com a realidade de Deus. Mas, na fé, confiamos que tal resposta existe. E reafirmamos com convicção a bondade e onipotência de nosso Senhor. Com base nisto, também afirmamos que Deus não pode estar na origem de calamidades como esta que assola o Haiti, mas está, na verdade, do outro lado, do nosso lado, do lado daqueles que sofrem e choram tal desgraça. Finalmente, sublinhamos que a realidade absurda do sofrimento pode sim ser revestida de um sentido quando nos tornamos participantes dos sofrimentos de Cristo, isto é, quando sofremos para que outros deixem de sofrer. Que esta verdade esteja clara para todos nós: o brado de Jesus na cruz – “por que me abandonastes?” – é mesmo grito de milhares de crucificados mundo afora que aguardam que alguém sofra com eles o preço de sua libertação.

Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.