A graça que reforma a vida e o mundo

No dia 31 de Outubro de 2017, a Reforma Protestante celebrou seu quingentésimo aniversário. No entanto, mesmo depois de todos esses anos, tudo continua como nos dias de Lutero, Calvino e cia. Os postulados dos reformadores nunca realmente se encarnaram nas vidas da vasta maioria daqueles que se dizem herdeiros do movimento. É fato que vários destes postulados alcançaram status de verdade de fé e são popularmente conhecidos e repetidos, tanto no jargão religioso quanto no ensino dos especialistas. Mas ao nível prático da experiência cotidiana da fé, não significam nada para a vasta maioria das pessoas, especialmente no Brasil. Não são mais que palavras de efeito. Talvez tenham verdadeiramente influenciado uma ou duas gerações de homens e mulheres. E certamente moldaram indivíduos, congregações e até denominações aqui e ali. Contudo, tais casos constituem as exceções. Mundo afora, a Reforma não se manteve protestante, tornou-se evangélica e assim traiu as afirmações que a originaram. Mas isso é assunto para um outro post.

Para os próximos 500 anos, as palavras de ordem seguem sendo PROTESTAR e REFORMAR. Quem sabe desta vez a Igreja não levará a sério o princípio que define sua identidade e, finalmente, viverá o que tem pregado ao longo de 5 séculos?

Não me esquivando da responsabilidade de contribuir nesse sentido, proponho aqui – no espírito de Lutero – doze teses que explicitam o que afirmo acima ao mesmo tempo em que servem de pauta e roteiro para a tarefa que nos compete: (1) pastores, bispos e apóstolos, etc. são ainda hoje verdadeiros mediadores entre Deus e as pessoas em lugar do Cristo; (2) o sacerdócio universal de todos os crentes não é universal, pois às mulheres e crianças é negada a plena cidadania eclesial e eclesiástica; (3) a Escritura está longe de ser a autoridade última da vida religiosa, pois a tradição hermenêutica denominacional fala em lugar do texto sagrado; (4) o livre exame da Escritura é uma piada, pois há verdadeiro estado de polícia pairando sobre as consciências e o Espírito Santo nem de longe tem lugar para exercer seu ministério de intérprete da Palavra de Deus; (5) a graça é quase sempre mal-compreendida e frequemente rejeitada, temida e hostilizada pelos mais diferentes legalismos que a sufocam e silenciam por completo – nunca se cobrou tanta indulgência e a salvação custou tão caro como em nossos dias; (6) o dualismo fé-obras ainda não foi superado – pelo contrário: o discurso sobre a fé em oposição as boas-obras segue firme espiritualizando e desencarnando o Evangelho, esvaziando a dimensão ética da experiência cristã e da obediência fazendo da igreja uma multidão omissa e desengajada em relação à sociedade, ao país e ao planeta; (8) em nome da glória de Deus, oprime-se o ser humano que é reduzido à nada – Deus, na retórica da igreja sofre de sérios problemas de autoestima e inveja o sucesso das pessoas exigindo que toda a glória seja dele e dele somente; (9) prega-se ainda hoje que fora da igreja (evangélica) não há salvação e demoniza-se os católicos, os adeptos de religiões não-cristãs, os ateus e todos os grupos militantes que não se conformam com o mundo tal qual se nos é dado – marxistas, feministas, artistas, ativistas de diferentes sortes, etc.; (10) a castidade e o celibato são ainda virtudes celebradas e frequentemente impostas sobre os corpos anestesiados e tristes de homens e mulheres que só sabem comer e malhar porque não tem permissão para dançar nem transar; (11) prega-se a eternidade a custa da história – a salvação é bem-aventurança post-mortem que livra do fogo eterno e quase nada diz respeito a vida de cada dia, ao aqui e agora; (12) o bordão Igreja Reformada sempre se reformando é tão somente isso: um bordão que serve apenas como instrumento ideológico para manipulação das consciências e das identidades.

Na raiz de toda essa problemática, reside um pecado capital: o abandono da experiência da Graça que é o que fundamenta e torna possível tudo o que a Reforma (e mais amplamente o cristianismo) se propôs a dizer e realizar. A Graça é o Evangelho de Jesus Cristo, a boa-nova de Deus para homens e mulheres de todas as épocas e localidades.

Registro aqui minha firme convicção: fora de uma experiência profunda da Graça de Deus entendida como o amor incondicional, irrestrito e irrevogável de Deus por todos e todas, não haverá qualquer futuro para o protestantismo e, quiçá, para a humanidade.

 

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Consumismo religioso

 

Consumidor insatisfeito: "O culto não me acrescentou nada"

 

“Ele mostrou a você, ó homem, o que é bom e o que o Senhor exige: pratique a justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com o seu Deus” (Mq 6:8)

 

O consumismo é um fenômeno recente. Surgiu nas primeiras décadas do séc. XX. Antes disso, como bem apontou Max Weber, a lógica que regia a mentalidade das pessoas com relação ao dinheiro e aos hábitos de consumo era a lógica calvinista da poupança orientada pelo princípio da necessidade. Foi o advento da (1) produção em larga escala, da (2) propaganda e do (3) crédito, entre os anos de 1920 a 1940, que combinados levaram as pessoas a substituírem aquela lógica austera por uma outra de corte mais hedonista orientada pelo princípio do prazer, do bem-estar. Compra-se a partir de agora, não mais para suprir uma necessidade, mas pelo prazer de comprar, pelo bem-estar resultante da experiência da compra.

Em si, o ato de consumir não é negativo ou pecaminoso. Ao contrário: ele movimenta a economia, gera empregos, cria riqueza… Não há nada moralmente errado em consumir. O problema está no que hoje se tem chamado de hiperconsumo. É o comprar frenético, compulsivo, desconectado do princípio da necessidade e do bom senso. É o consumo como meio de obter satisfação e sentido para a vida. Eis aqui a diferença entre o consumidor e o indivíduo consumista: aquele consome visando suprir uma necessidade objetiva, este visando sanar uma demanda do ser, da subjetividade.

Esse ponto precisa estar claro: o consumista não está em busca do bem propriamente dito, mas da satisfação de adquirí-lo. A evidência disso é que ele compra inclusive o que não tem necessidade e, via de regra, o que sua condição financeira não lhe permitiria. Daí que viva sempre endividado. E entediado. Pois a satisfação advinda do consumo, embora real, é fugaz e passageira exigindo sempre novas e sucessivas doses.

O mais grave em tudo isso, porém, é o fato de o consumismo constituir uma lógica e, como tal,  transferir-se para outras esferas da vida das pessoas. Ninguém se engane: o indivíduo consumista não consome apenas bens materiais e mercadorias. Ele consome tudo: cultura, informação, relacionamentos, lazer, moradia, tecnologia, beleza, saúde, sexo, bem-estar e até religião.

Isso foi mais ou menos o que aconteceu com Israel nos dias do profeta Miquéias (Mq 6). O povo deixou de adorar e servir a Deus, para tornar-se consumidor de religião. Com efeito, o consumismo religioso o transformou num povo que se achava no direito de cobrar coisas de Deus enquanto viviam vidas tortas, cheias de pecado e impiedade. Mais que isso: os levou a acreditar que poderiam comprar o favor divino com sacrifícios e holocaustos (v.6-7). Em função de todo esse quadro, a espiritualidade daquela gente se desvirtuou perdendo sua força ética. Esse é o grande problema de nos tornarmos consumidores religiosos: perdemos de vista a exigência ética de transformação inerente a toda genuína experiência religiosa. E então passamos a consumir sermões, estudos bíblicos, louvores, reuniões de oração, livros evangélicos, retiros, etc., sem que essas coisas nos afetem, nos ajudem no processo de nos tornarmos pessoas melhores à semelhança de Cristo.

Não obstante a atitude do povo, Deus deixara muito claro o que esperava (v.8): que eles (1) praticassem a justiça, (2) amessem a fidelidade e (3) andessem humildemente com Deus. Como a lógica do consumismo religioso perverteu a compreensão dessas exigências na espiritualidade de Israel? Como ela perverte tais exigências em nossa espiritualidade hoje?

Primeiramente, a mentalidade consumista leva a pessoa de fé a identificar a exigência de praticar a justiça com o cumprir prescrições e ritos religiosos (v.3-5). Infelizmente, Israel conheceu isso. Nos dias do profeta Miquéias, o povo de Deus veio a acreditar que sacrificar carneiros e bezerrros era o mesmo que fazer o bem, que fazer valer o direito do orfão e da viúva, do pobre e da terra. Ele passou a crer que consumir rituais e freqüentar o templo equivalia a fazer a vontade de Deus, a ser justo diante de seus olhos. Esse é um grave desvio que a lógica do consumo provoca na experiência religiosa. Ele altera o quadro hermenêutico a partir do qual interpretamos a exigência ética de transformação social e política privatizando e espiritualizando a fé. Teria nossa clássica apatia e indiferença com relação a essas dimensões da vida algo a ver com isso? Cabe perguntar: não é assim que a maioria de nós evangélicos entende as célebres palavras de Jesus sobre a primordialidade do Reino: “Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas as coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6:33)? Não é verdade que compreendemos tal exigência em termos de leitura disciplinada da bíblia, vida de oração e freqüência assídua aos cultos? Não é assim que garantimos que “todas as coisas” nos sejam acrescentadas? Não estaríamos nós também contaminados por essa lógica consumista? Será que nos tornamos também consumidores de religião?

Em segundo lugar, a lógica do consumo distorce a vida de fé produzindo uma negligência em relação à exigência divina de fidelidade dando ensejo, por conseguinte, a idolatria (v.16). Ao contrário da religiosidade saudável que se compromete com Deus porque o ama, porque desejo contentá-lo e fazê-lo somente para ele, o consumismo religioso é volúvel e mesmo infiel. A causa disso é óbvia: o consumidor religioso não constrói uma relação de amor com Deus, mas de utilidade. Se, portanto, existe uma outra divindade que melhor me serve, então por que não me voltar para ela? Assim operava a espiritualidade de Israel que, a semelhança do que houve nos dias do profeta Elias, ainda vivia flertando com Baal, cocheando entre ele e Iavé, o Senhor. Em nosso caso hoje, a divindade que mais nos seduz é Mamon. E o problema não se restrige apenas aos tele-evangelistas que descaradamente mercadejam o Evangelho vendendo novas formas de indulgências, mas a toda a igreja no país que se vê às voltas com o seguinte dilema: “temos usado nossas riquezas para servir a Deus ou temos usado Deus para enriquecermos?”.  O Senhor tenha misericórdia de nós.

Finalmente, a lógica do consumo perverte a experiência religiosa provocando uma terrível inversão: ao invés de nos tornar mais humildes, nos torna arrogantes em relação a Deus (v.1-3). Lendo o oráculo proferido pelo profeta Miquéias, constamos que o povo estava reclamando de Deus pois acreditava ter direito a melhor sorte a despeito de seus maus caminhos. Sem sombra de dúvida, tal atitude nasce da crença, segundo a lógica consumista, de que o consumidor tem sempre razão, detém toda autoridade e, por isso, encontra-se em lugar de fazer exigências. Cumpria a Deus, reduzido ali a figura de um balconista obediente, atender-lhes os desejos. Deus então os confronta solenimente colocando as coisas em seus devidos lugares e pedindo do povo explicações: “Ouçam o que diz o Senhor: Fique em pé, defenda a sua causa; que as colinas ouçam o que você tem para dizer. Ouçam, ó montes, a acusação do Senhor; escutem, alicerces eternos da terra. Pois o Senhor tem uma acusação contra o seu povo; ele está entrando em juízo contra Israel”. O que o Senhor diria para nós se hoje nos chamasse a sua presença? Será que teria de nos recordar da verdade proferida pelo pregador de Eclesiastes: “Deus está nos céus, e você está na terra, por isso, fale pouco”? Ou, colocando a questão de outro modo: o que nós mereceríamos ouvir dos lábios do Senhor?

O critério definitivo para responder essa pergunta é o mesmo que nos ajudará a discernir se nos mantemos ligados a Deus através de uma relação de adoração e serviço ou se em virtude de uma relação de consumo religioso. Toda essa movimentação, esse ir e vir a igreja, esse monte de retiros e encontros e seminários, as muitas vígilias e reuniões, os livros lidos e os sermões ouvidos tem nos transformado em gente cheia de Deus? Tem efetivamente contribuído para nos fazer pessoas mais parecidas com Cristo? Gente mais cheia de amor, de compaixão, de indignação perante a injustiça e solidariedade para com o necessitado? Ou nos tornamos apenas consumidores de religião?

Essa pergunta, cabe a cada um responder.

Sobre Satanás

Versão Hollywoodiana do Diabo
Versão Hollywoodiana do Diabo

A figura bíblica do Diabo sempre esteve presente no universo da fé cristã. Receio, todavia, que nem mesmo durante os sombrios anos da Idade Média tenha-lhe sido dada tanta ênfase quanto atualmente. Disto ninguém duvide: Satanás é pop e está na boca do povo.

Por todo o Brasil multiplicam-se os “cultos do descarrego” e as “vigílias do desencapetamento” onde, dos púlpitos, berra-se o nome de Belzebu, anuncia-se os seus feitos, discute-se suas estratégias. Há mesmo quem afirme conhecer a hierarquia de seus demônios com suas respectivas áreas de atuação geográfica e setores de influência na sociedade. Existem, inclusive, aqueles que alegam já ter visitado o inferno e encontrado o Diabo em pessoa.

Algo paradoxal, porém, está acontecendo. Como bem notou o Bispo Robinson Cavalcanti, atualmente, Satanás, o pai da mentira, tem sido vergonhosamente caluniado no seio da igreja evangélica brasileira. Isso mesmo: na esteira de Adão e Eva, os cristãos hodiernos também lançam sobre a serpente a culpa de seus próprios pecados. Prova disto é o fato de boa parte das igrejas terem excluído de suas liturgias o momento da confissão. Afinal, ninguém mais faz nada de errado! Tudo, antes, é culpa do Diabo.

O irônico de toda esta falação contra Satanás é que ela não apenas o coloca em evidência, mas faz dele o “salvador” da condição humana. Explico-me. Dentro do esquema teológico da expiação, salvador é aquele que leva a culpa pelo pecado do outro. Daí que o Novo Testamento se aproprie da imagem do cordeiro pascal do AT como ícone de nossa salvação. Ora, desenvolvida a partir de um tal quadro interpretativo, a análise do atual cenário evangélico brasileiro guia-nos a paradoxal conclusão: no fim das contas, Satanás é quem nos salva, pois sobre ele recai o peso de nossos pecados. Ele é quem leva a nossa culpa. Conquanto no nível retórico a igreja continue proclamando que Jesus Cristo é o único salvador, no nível prático, ela afirma o inimaginável: somos salvos pelo Diabo.

É triste, mas é verdade. Em muitos dos arraiais evangélicos brasileiros, Satanás roubou a cena e tornou-se o centro do espetáculo. Jesus, por sua vez, foi reduzido à figura sorridente de um balconista bem treinado sempre pronto a nos atender às solicitações.

Com estas considerações não nos propomos a negar a existência do mau, do adversário de Deus e pai da mentira. Antes desejamos denunciar aqui mais um de seus ardilosos esquemas que visa confundir a igreja de Cristo. Ora, ao invés de caluniar o Diabo, nós – povo de Deus – deveríamos nos esforçar por remover a trave no olho que nos impede de enxergarmos os próprios pecados. Deveriamos também jejuar e orar e nos convertermos sempre de novo de nossos maus caminhos. Pois derrotar o Diabo é problema de Deus que, aliás, já esmagou, na cruz do Calvário, a cabeça da Serpente. Portanto, é outra a tarefa que nos cumpre, a saber: levar adiante a obra evangelizadora impulsionada pelo exercício cotidiano de nossa santificação.

Lutemos, então, por fazer morrer a cada dia o velho homem que habita em nós a fim de melhor podermos encarnar o Evangelho do Reino de Abbá e, no Espírito, dar testemunho do amor de Cristo, único e verdadeiro salvador da condição humana.