Graça, igualdade e libertação da mulher

Se Deus criou homem e mulher a sua imagem e semelhança e ambos são alvos de sua graça, que não discrimina nem faz acepção de pessoas, por que, na igreja (exatamente como ocorre na sociedade), ao homem são garantidos todos os direitos e ainda são concedidos privilégios enquanto à mulher, direitos básicos são frequentemente negados? E por que isso não é um problema para a gente?

Há uma inconsistência aqui. Se a graça é amor incondicional, irrestrito e irrevogável de Deus em favor de todos e todas nós e a Lei de Deus é expressão dessa graça que é equânime e imparcial, então a interpretação bem como sua aplicação precisam garantir a homens e mulheres os mesmos direitos e a mesma liberdade. E por que isso não acontece? Porque, via de regra, nós lemos a Bíblia com outros óculos que não são o da graça. Eis o problema. A chave de leitura de qualquer texto bíblico – especialmente os mais difíceis – precisa ser a graça, porque a graça de Deus é o Evangelho, a boa-notícia de Deus para nós! Assim sendo, qualquer leitura da Bíblia que assegure o direito de A em detrimento do direito de B deve ser colocada em questão. Pois qualquer leitura da Bíblia feita a partir da graça irá marcar a justa fronteira entre o direito de A e de B garantindo ambos.

Dos livros bíblicos, nenhum tem a força do Cântico dos Cânticos no que diz respeito a isso. Pois ele coloca em questão a lógica patriarcal dominante nos tempos e escritos bíblicos e fala da relação homem-mulher em termos de uma equanimidade de liberdades e direitos. Um refrão perpassa e costura todo o livro e ilustra de forma emblemática essa realidade: “O meu amado é meu, e eu sou dele”.

Num mundo em que a mulher era propriedade do homem, esse refrão é um escândalo! Porque ele afirma o mútuo pertencimento. A via aqui é de mão dupla. O escritor sagrado eleva a mulher à altura onde o homem se encontra socialmente. Aliás, nesse poema, a voz predominante é a voz de uma mulher – a Amada. Esse simples fato já é em si uma retificação, além de uma transgressão. Pois nos textos bíblicos quem fala é sempre o homem. O Cântico dos Cânticos é o único livro da Bíblia onde encontramos um eu-lírico feminino. E essa é a voz ouvida com mais força – a da mulher.

É muito importante frisarmos aqui que essa mulher que fala no Cântico dos Cânticos não é mulher como as que os leitores do livro sagrado estavam acostumados a ver em casa ou nas páginas das escrituras! Essa uma mulher é rara, incomum, extraordinária. Uma mulher que se comporta a partir de uma liberdade tida como exclusivamente masculina.

Em Ct 1:2(a), vemos que essa mulher extraordinária deseja: Ah, se ele me beijasse, se a sua boca me cobrisse de beijos… Ela suspira pelo prazer, pelo encontro sexual, pelo corpo do seu amado! Ela não tem vergonha de confessar-se abrasada e nem de fantasiar o amor erótico. Sim, ela tem a coragem de admitir isso! A amada não apenas deseja, mas fala desse desejo livremente, o que, para nós, é um escândalo. Isso porque nossa educação cristã é pautada na negação e condenação do prazer, sobretudo, do prazer sexual! Ainda mais quando o sujeito que suspira por esse prazer é uma mulher!

Outra característica dessa mulher extraordinária relatada em Ct 1:(2) é o gosto pela bebida: Sim, as suas carícias são mais agradáveis que o vinho. Como essa mulher poderia comparar as delícias do amor sexual ao vinho se não o tivesse experimentado? É só porque bebe e aprecia o vinho que ela pode fazer essa comparação exaltando uma e outra experiência. Ao fazê-lo, ela manifesta seu anseio por embriagar-se de amor.

Finalmente, essa mulher extraordinária é alguém que vai a luta, conforme Ct 1:4 nos deixa saber: Leve-me com você! Vamos depressa! Leve-me o rei para os seus aposentos. Essa mulher não espera ser escolhida e resgatada de sua solidão por um príncipe encantado. Não! Em lugar disso, ela se oferece, pede para ser amada e sai em busca do seu amor! Essa mulher quer ser autora de sua própria estória e por isso toma a iniciativa na aventura do amor!

O Cântico dos Cânticos é um livro extraordinário porque fala de maneira extraordinária de uma realidade que deveria ser o ordinário das relações entre homens e mulheres: a equanimidade. O Cântico dos Cânticos, fala assim de uma mulher rara que deseja viver a plenitude de um amor igualmente raro e para isso se assume e assume todos os riscos que tal aspiração implica libertando-se dos receios e preconceitos que tantas vezes amarram as pessoas e empobrecem as relações sociais e interpessoais.

 

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Graça e desgraça

Como é possível que Temer, atual presidente da república, seus dois antecessores – Dilma e Lula – e os ex-candidatos que com eles disputaram o segundo turno nas últimas eleições presidenciais – Aécio Neves e José Serra –, todos eles, sem exceção, tenham seus nomes citados em esquemas bilionários de pagamento de propinas, caixa 2, tráfego de influência, formação de quadrilha, evasão de divisas e lavagem de dinheiro? Pior: como é possível que tudo isso venha acontecendo há décadas, bem debaixo do nosso nariz, e nós, que sempre soubemos que isso acontece desse jeito, assistamos apática e resignadamente a todo esse circo de horror e perversidade?

Gênesis 3, se não responde de maneira final essas perguntas, lança ao menos uma forte luz para a construção de um discernimento. Este é o texto por excelência usado, ao longo de séculos e séculos, para explicar o que deu errado com a humanidade. Ao criar todas as coisas e o ser humano entre elas, Deus possuía um projeto excepcional, mas parece que algo fugiu ao script resultando numa sucessão de equívocos cada vez mais desastrosos como os capítulos 4 a 11 de Gênesis irão relatar sem eufemismos. Nossa tragédia humana tem aí o seu início, o seu pecado original.

O que se diz, mormente, é que o pecado original é a desobediência: Deus criou o ser humano, homem e mulher, e o colocou num paraíso onde lhe era permitido fazer praticamente tudo o que desejasse, exceto comer o fruto de uma certa árvore no meio do jardim. Mas foi exatamente isso que ele fez colocando tudo a perder. Todo pecado, portanto, é, em última análise, uma forma de desobediência à Lei de Deus.

Não tenho qualquer dificuldade com esse entendimento. Acho apenas que a desobediência por si só não dá conta da problemática. Como a narrativa bíblica deixa claro, a desobediência de Adão e Eva não foi acidental ou não-consciente, mas foi fruto de uma decisão ética. Só houve desobediência porque houve uma motivação para desobedecer e uma decisão de fazê-lo. Adão e Eva queriam algo com o pecado. Mas o quê? Responder essa pergunta é importante porque isso que é querido e desejado é o que qualifica o pecado, que o revela em toda sua extensão. Mas qual seria a motivação por trás da desobediência de Adão e Eva? O desejo de ser como Deus; a ambição de, como Deus, conhecer o bem e o mal, possuí-los, deles dispor. Numa palavra: estar acima do bem e do mal, como Deus somente está.

Querer ser como Deus e estar acima do bem e do mal é querer viver sem sujeitar-se a qualquer limite, qualquer autoridade, qualquer lei, norma ou enquadramento. É um desejo de onipotência, uma vontade de poder ilimitado. O pecado original é também o mal de Lúcifer: querer o lugar que pertence a Deus exclusivamente.

A meu ver, esse é o problema na raiz dos problemas sócio-políticos do Brasil de hoje (e de sempre). Essa gente toda que está aí – Temer, Dilma, Lula, Aécio, Serra, Cunha, Renan Calheiros, a família Odebrecht, Moreira Franco, Joesley Batista, Sérgio Cabral, Rodrigo Maia, Eike Batista e literalmente centenas de outros se incluirmos as esferas municipais e estudais, a inciativa privada e os 3 poderes – toda essa gente que está aí acredita mesmo que é Deus, que está acima do bem e do mal e que pode, por isso, fazer o que quiser. Daí os mandos e desmandos que cometem em nosso país cuspindo no rosto da nossa democracia e zombando da noção de Estado de Direitos.

No fundo, o desejo de ser Deus esconde um outro aspecto presente no pecado original: a recusa de ser humano. Sim, a vontade de onipotência e a fantasiosa crença numa condição divina simultaneamente ocultam e revelam aquilo que talvez seja o ponto irredutível do pecado original: uma profunda rejeição do humano, um verdadeiro desprezo pela humanidade. Isso explica como é possível que boa parcela da classe polícia de nossa república seja capaz de, sem culpa, remorso ou constrangimento, usurpar, saquear, extorquir, oprimir, torturar, violentar, matar e deixar morrer milhões e milhões de pessoas que são direta e indiretamente afetadas pelos crimes por eles cometidos contra o nosso Estado e contra a população. Que importa se milhões são privados do acesso à saúde e educação de qualidade, se vivem em condições precárias e sub-humanas, se perderam seus empregos ou estão sem receber salário e aposentadoria? São apenas seres humanos e como tais, desprezíveis. Eis aqui nossa desgraça.

Mas essa é apenas uma face da moeda. A outra face é a seguinte: nós, o povo brasileiro, somos corresponsáveis pelo presente estado de coisas. Sim, pois nós permitimos tudo isso! Nossa omissão nos fez e faz solidários no pecado de nossos governantes. Eles só vivem esse devaneio de onipotência porque nós assumimos uma postura política de impotência. Assim como não existe um sádico se não houver um masoquista, não é possível haver um grupo de pessoas que se sentem onipotentes se não houver um outro grupo que se comporte como impotente. Esses dois polos se precisam e retroalimentam. Porque onipotência é plenitude de poder, poder total, absoluto. Ora, se há um grupo que reclama para si todo o poder, há necessariamente um outro grupo que aceita ficar sem poder algum. Bastaria, no entanto, o grupo impotente reclamar o poder que lhe pertence para interromper a fantasia onipotente dos que pensam ser Deus.

Se olharmos mais de perto, nosso pecado é também uma variação do pecado original, também uma recusa do humano, porém, às avessas em relação ao pecado de nossos governantes. Se estes rejeitam o humano porque o desprezam e desejam ser mais que humanos, nós o rejeitamos porque consentimos em ser tratados como menos que humanos, como massa informe, manobrável, descartável; pó e barro sem sangue nas veias e espírito de luta. Enquanto Temer, Lula, Cabral e cia. se apegam à ambição de uma vida além do bem e do mal, nós nos resignamos a uma vida que aquém do bem e do mal.

O mais trágico em tudo isso é pensarmos que, diferente de nós e dos governantes que nós elegemos, Deus não se envergonha do humano. Para Deus, o humano não é desprezível. Tanto que ele se fez humano em Jesus Cristo. Isso é o que a mensagem graça afirma sempre de novo: somos preciosos aos olhos de Deus e amados por ele de maneira incondicional, irrestrita e irrevogável. Para Deus, vergonhoso é o fato de rejeitarmos nossa humanidade, de renunciarmos ao sagrado direito a um viver ético também no campo político. Vergonhoso para Deus é saber que nossa ideia de Deus ganha expressão na maneira de ser e agir de nossos governantes. Pois o deus que eles fantasiar ter se tornado nada tem a ver com o Deus que se encarna e revela em Jesus Cristo. Diferente daqueles, este não faz a mínima questão de sua onipotência, mas se esvazia, se reveste de nossa fragilidade, se cinge com uma toalha e se ajoelha diante de nós para lavar os nossos pés cansados das lutas da vida.

Nosso problema é grave: rejeitamos nossa humanidade e pouco sabemos sobre Deus. Por isso também nós precisamos de Jesus Cristo. Sua pessoa e vida nos ensinam de uma só vez estas duas coisas.

O trauma da graça

Experiências positivas também podem ser traumáticas. Um amigo, certa vez, teve uma costela quebrada devido a um abraço apertado. Depois disso, passou a ter medo de ser abraçado. Cumprimentava as pessoas estendendo a mão ou acenando à distância. Tivesse ele poder nas mãos e quem sabe não criaria leis para que as pessoas não pudessem mais se abraçar… Isso é um trauma: uma ferida decorrente de uma experiência forte, intensa, impactante que produz um comportamento medroso, de fuga, esquiva e evitação. E, muitas vezes, até de beligerância e violência. Uma pessoa traumatizada é, portanto, uma pessoa tensa, enrijecida, cujo comportamento é incompreensível para quem não compartilha de seu medo ou desconhece sua experiência de dor. Pois quem temeria um abraço? Abraços são desejáveis, certo? Não para quem já teve uma costela quebrada e teme reviver essa dor…

Eis a razão porque fariseus, saduceus, escribas e mestres-­da-­lei tiveram tanta dificuldade com a graça de Deus encarnada no comportamento de Jesus e anunciada em suas palavras: eles eram pessoas traumatizadas. Talvez pareça estranho aos nossos ouvidos, mas a graça é um trauma para não poucas pessoas, sobretudo as mais religiosas. O trauma da graça consiste na ferida causada pela descoberta de que somos amados não porque conquistamos esse amor por mérito próprio, mas porque Deus é amor e gratuitamente nos ama. Ele simplesmente não pode evitar de nos amar. Isto é o que nos diz a graça: que Deus nos ama desde sempre e para sempre, a despeito de o amarmos de volta ou não. A graça afirma o amor incondicional de Deus que não exige nada em troca (embora nos convide a um caminho – “siga-­me” – que é também um convite de amor). Não há nada que se possa fazer para que esse amor aumente ou diminua. O amor de Deus por nós é, está posto; não recua, não volta atrás.

Um tal amor é tão de outra ordem em relação ao que conhecemos que nos sentimos desconfortáveis diante dele, sobretudo, porque somos incapazes de amar assim. O amor de Deus desmascara a fragilidade, a prepotência e a falácia de nossa forma de amar. Em outras palavras: o trauma da graça consiste na dor de nos descobrirmos impotentes perante um amor que não podemos controlar nem imitar. O máximo que podemos fazer – e o fazemos frequentemente – é rejeitá-­lo. O trauma da graça explica, assim, a enorme diferença de atitude entre o grupo dos fariseus-­religiosos e o grupo formado por publicanos e demais “pecadores” com relação a Jesus. Enquanto estes se abriram para a experiência da graça, aqueles a rejeitaram e ficaram indignados por causa dela: “como pode Jesus dizer-­se profeta de Deus e se sentar- à mesa para comer e beber com pecadores? Se Jesus é quem diz ser, eles não merecem tamanho privilégio! São indignos!”. Com esta postura, os religiosos fariseus deixavam transparecer o que ocupava-­lhes o coração: somente eles, os justos, os retos, os piedosos, mereciam um lugar à mesa com Deus. É quando Jesus sentencia (para escândalo deles e nosso): “Os que tem saúde não precisam de médico, mas sim os doentes. Eu não vim para os justos, mas para chamar pecadores ao arrependimento”.

Enquanto os “indignos” publicanos se deliciavam com o abraço da graça, os religiosos fariseus levantavam suas defesas e criticavam Jesus, o “abraçador”, a fim de manter a graça o mais longe possível. Eles sabiam que o abraço da graça os quebraria e faria descer do salto-­alto. E isso eles não poderiam suportar. É certo que eles haviam experienciado algo da graça quando se aproximaram da Lei de Deus (porque a Lei é uma expressão da graça, é um cuidado de Deus para nos orientar e proteger). Ali, no trato com a Lei, eles entraram em contato com o escandaloso amor de Deus e algo dentro deles se quebrou. Como não trataram a ferida – o trauma – permaneceram doentes. Mas, certos que estavam de sua saúde, nunca admitiriam para si mesmos a própria enfermidade. Muito pelo contrário. Traumatizados, criaram mecanismos para se proteger, para manterem-­se distantes da graça e evitarem o contato com ela. Daí que quisessem manter Jesus afastado, longe, e que mantivessem longe também os “indignos pecadores”.

O trauma da graça era neles tão profundo que os levou a torcer a Lei de Deus para que nela não restasse mais nada da graça. Criaram uma interpretação dominante e uma teologia oficial onde a graça ficava de fora. Por isso, nos lábios e atitudes deles, a Lei de Deus carecia e anulava a graça ao invés de transmitir e manifestá-la. Na pregação e prática dos fariseus e demais religiosos, a Lei de Deus é sem graça. Em contrapartida, os indignos publicanos e “pecadores” deixavam-­se abraçar e festejavam. Como não eram tensos, enrijecidos pelo trauma, a graça não os quebrava, mas os acarinhava. De fato, o abraço da graça nem poderia quebra-­los, porque já se haviam sido quebrados. A vida se encarregara desta tarefa. Os “pecadores” conheciam sua condição de indignos. Como o filho pródigo, diziam para si mesmos: “pequei contra os céus e contra meu pai, não mereço sequer se tratado como filho ou ser recebido em casa”. Por esta razão, também se deixaram abraçar quando se viram diante do amor do pai manifestado em Jesus. Os fariseus, por sua vez, agiam como o filho mais velho da parábola, ícone máximo de prepotência e autossuficiência. Este, não apenas odiou ver seu irmão ser abraçado, mas negou-­ se a participar da festa. Sequer reconhecia-o como irmão. Por isso, abandona à casa e rejeita o abraço do pai quando este vai busca-­lo pedindo-­lhe que volte para a casa.

No fundo, o religioso traumatizado é um ressentido. Ele acredita que fez por merecer o amor de Deus e não aceita que Deus ame aqueles que nada fizeram para isso. No fundo, seu ódio aos pecadores é um ódio a Deus que não reconhece sua superioridade. Daí que ele odeie também a liberdade. Pois se fosse livre para fazer o que quisesse, não andaria com Deus (já que o odeia). O religioso fariseu não ama a Deus nem está ligado a ele por amor. Ele está, na verdade, preso a Deus como um cão feroz está encoleirado a seu dono. Ele não foge para longe por falta de opção (o castigo eterno).

Na raiz do trauma da graça reside, portanto, a rigidez de quem odeia e se recusa a perdoar os outros e a si mesmo. Daí que não aceite ser abraçado. Daí que tenha medo de ser quebrado e não seja capaz de admitir que necessita de uma experiência de cura que somente se dará por meio da experiência do perdão. Pois somente se perdoar o outro poderá perdoar-­se a si mesmo.

É fundo o poço do religioso traumatizado pelo abraço da graça. Haverá esperança? Sim, há. Basta que ele se deixe abraçar. Basta que se deixe quebrar. Basta que aceite se ver. Basta que se assuma igual àqueles a quem odeia. Basta que os perdoe. Basta que se perdoe. Basta que admita sua impotência diante de um amor que não se deixa controlar ou manipular. Basta que se renda e aceite que não é Deus. Basta, enfim, que se converta de justo em pecador, de digno em indigno, de puro em impuro, de perfeito em imperfeito, de merecedor em não-­merecedor.

Deus nos ama de graça e constantemente nos oferece o seu abraço gracioso. Recebê-­lo, contudo, pode ser custoso, traumático. Não para quem nada tem a perder, para quem já desistiu de si mesmo, mas para aqueles que acreditam ter “chegado lá”, pois, neste caso, receber o abraço da graça implica nascer de novo. E isso, é justamente o que o religioso fariseu não quer. Em sua visão, quem tem de nascer de novo é sempre o outro. Ele não precisa de médico.

Graça e esvaziamento

Nós somos salvos pela graça e de graça. Mas a salvação que nos foi concedida gratuitamente, para Deus, custou um preço altíssimo. Sim, pois a graça não é um conceito teológico sem qualquer correspondente na realidade concreta de nossas vidas; tampouco uma superestrutura retórica que afirma um amor perfeito e incondicional, porém abstrato e imaterial; a graça é o amor incondicional, irrestrito e irrevogável de Deus que se faz concreto em nosso favor na pessoa de Jesus Cristo! Ele é a expressão material da graça, a encarnação do amor incondicional de Deus por nós, a graça de Deus em pessoa! Deus tanto nos amou que se fez um de nós. O apóstolo Paulo reflete lindamente sobre essa maravilhosa metamorfose divina quando escreve aos filipenses no célebre hino registrado no capítulo 2.

Um problema, no entanto, emerge aqui: como o infinito poderia caber na finitude? Como a perfeição poderia caber na imperfeição? Como o eterno poderia caber no tempo? Como Deus poderia caber num homem? Para se fazer humano, Deus precisaria reduzir de tamanho, se apequenar, se autolimitar. E foi exatamente isso que Deus fez. De novo. Pois para nos dar à luz na criação, Deus se impôs uma espécie de cruz, Deus se restringiu e se autolimitou renunciando em parte à sua onipotência. Como assinalamos noutro lugar, uma vez que o ser humano foi criado livre, a vontade de Deus expressa em seus mandamentos sempre correrá o risco de não se realizar (pois o ser humano pode desobedecer com fez no Jardim do Éden e faz frequente).

Segundo o apóstolo Paulo, na encarnação, Deus se impõe um novo golpe. Deus agora vai ainda mais longe ainda. Ele não apenas renuncia a algo de sua onipotência, ele deixa de lado muito de sua divindade. Nas palavras do apóstolo: Deus se esvaziou. Sim, ele murchou, minguou; Deus abriu mão de algo de si mesmo, abdicou momentaneamente de sua condição divina e se fez gente, pessoa humana, como qualquer um de nós. Esse foi o preço que Deus pagou para que a salvação nos fosse oferecida gratuita e concretamente.

Jesus nasceu em Belém da Judeia, na palestina do século I, na família de José, do ventre do Maria. Deus agora tem um rosto, um corpo, um sotaque, um timbre de voz, um tom de pele, uma coloração de olhos e cabelos. Ele sente fome, sede, sono, cansaço, fraqueza, medo. Como todo mundo, o Deus esvaziado precisa aprender a falar, a engatinhar, a sustentar-se de pé e andar… Ele se sujeita ao tempo e ao espaço. Para chegar aos lugares, precisa caminhar ou pegar carona num jumentinho. Um dia para Deus agora tem 24h ao invés de 1000 anos.

Não costumamos pensar sobre isso, mas na encarnação, Deus se fez absolutamente vulnerável e dependente dos seres humanos. Ele dependia do seio de Maria para se alimentar e dos braços de José para o embalar e proteger. Mais que isso ainda: esse Deus que se esvazia por amor a nós se sujeita ao risco de amar sem ser correspondido, o que tristemente acabou por acontecer. O Evangelho de João registra: “veio para os que eram seus, mas os seus não o receberam”.

Jesus foi rejeitado do nascimento à cruz. Nasceu numa estrebaria porque ninguém da família de José o quis receber em casa. Quando iniciou seu ministério, sofreu desconfiança, calúnia e perseguição. Foi acusado de glutão e beberrão, de expulsar demônios pelo poder do Diabo, de profanar o sábado, de relativizar a Lei e blasfemar contra Deus!!! Por fim, foi morto na cruz entre dois ladrões como se fosse um criminoso!!! Esse foi o preço que Deus pagou por nos amar incondicionalmente. Em Cristo, Deus se impôs muitos limites e se fez um de nós; contudo, nós o rejeitamos. E o matamos. Não queríamos um Deus fraco, humano, tão parecido com a gente. Por nos rejeitarmos, rejeitamos também o Deus que veio até nós como um espelho (porque na encarnação, não são os homens que se assemelham a Deus como na criação, mas Deus que se mostra a semelhança dos homens). Ao olharmos para Deus em Cristo-nosso-espelho, não gostamos do que vi e o matamos.

Todavia, a morte não pôde contê-lo e ao terceiro dia ele ressuscitou!!! O amor venceu! Isso é a páscoa que nós cristãs celebramos anualmente: Jesus Cristo é o Senhor da vida e da morte! Porque tendo vivido como qualquer um de nós, morreu como qualquer um de nós e tendo morrido, ressuscitou como nós também ressuscitaremos!!!

A páscoa é a festa da identificação radical de Deus com o ser humano! Deus se fez um de nós! Deus viveu a nossa vida e a nossa morte! E nos abriu o caminho da ressurreição! Por isso ele pode nos salvar. Ele conhece o caminho para fora do labirinto da culpa, do medo, do ressentimento e da vingança. E nos convida a fazer esse caminho com ele. Daí Paulo dizer aos Filipenses: “Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo”.

Como responder a um amor como o amor de Deus por nós? Como responder à graça? Sendo graciosos como Jesus – nos ensina o apóstolo Paulo! Porque ser gracioso tem a ver com amar radicalmente, tem a ver com autoesvaziamento para o outro ter vez também, pois, como sabemos, nós não estamos sozinhos no mundo! Não somos o centro do mundo! O outro existe também e o exercício da minha liberdade não pode anular a liberdade dele! E vice-versa. Para nós dois coexistirmos no mundo, nós precisaremos nos esvaziar cada um um pouco. Como o outro viverá a própria liberdade se eu imponho sobre ele que seja como eu gostaria que ele fosse? Como ele poderá ser ele mesmo diante de Deus e da vida se eu o constranjo a ser igual a mim?

Nós somos tão cheios de nós mesmos que não deixamos espaço para o outro ser quem ele é. E vice-versa. A páscoa nos convida a nos esvaziarmos e nos tornarmos graciosos como Deus que, por amor, assumiu um alto preço em nosso benefício.

Graça, liberdade e obediência

O exercício da liberdade decorrente da graça requer limites. Pois uma liberdade irrestrita inevitavelmente ferirá outras liberdades ou, mais precisamente, a liberdade de outras pessoas. A fim de marcar a fronteira entre a minha liberdade e a liberdade alheia – e desse modo preservar ambas as liberdades -, Deus nos concedeu a sua Lei.

Mas a experiência deste bendito limite pode ser vivida de duas maneiras: como autonomia ou como escravidão. Paulo discute essa questão no capítulo 6 da carta aos Romanos. O que ele diz, em outras palavras, é o seguinte:

“Deus ama vocês incondicionalmente! Não há nada que vocês possam fazer para Deus amar mais vocês; nem há nada que vocês possam fazer para Deus amar menos vocês. Logo, vocês são livres para fazerem ou deixarem de fazer o que quiserem. Como então vocês usarão toda essa liberdade? Sairão por aí barbarizando, dando vasão a todas as paixões e compulsões, a todos os desejos e impulsos sem qualquer limite? Claro que não! Viver sem limites não é viver livremente, mas é viver como escravo. Pois quem vive sem qualquer limite, no fundo, está abrindo mão da própria liberdade. Viver livremente implica viver responsavelmente, isto é, supõe escolher, decidir e abraçar ou não determinada possibilidade! Quem não escolhe, não é livre! Se vocês são governados por paixões e impulsos, e já não conseguem conter nem dominá-los, vocês já não são mais livres, mas tornaram-se escravos novamente”.

Para o apóstolo Paulo, a graça nos liberta para uma escolha fundamental: uma vida segundo Deus ou segundo nossas próprias inclinações. É autoevidente que isso não significa que gozar e sentir prazer na vida sejam coisas reprováveis, mas vivermos sujeitos a este único registro é insustentável. Faz-se necessário limitar essa liberdade, conter em alguma medida essas inclinações. E a obediência à lei de Deus nos possibilita isso. Mas para realmente atingir o objetivo de preservar a nossa liberdade respeitando a liberdade dos outros, a obediência à lei de Deus precisa ser uma escolha (autonomia). Porque se for uma imposição (ou mesmo uma autoimposição violenta), o tiro sai pela culatra e caímos na armadilha do legalismo.

O legalismo que Jesus tanto criticou e denunciou é a obediência à lei de Deus que ao invés de nascer do amor que escolhe a vontade de Deus, nasce do medo do castigo divino ou na ideia de recompensa (se eu obedecer a Deus, ele irá me premiar com seu amor e com as suas bênçãos; então eu vou me submeter a sua Lei mesmo não desejando fazê-lo). Quando cumprida desta forma, a Lei de Deus é experienciada de forma impessoal, como norma dura e fria, um fardo pesado, um jugo opressor que massacra, apequena, adoece e mata o ser humano e o amor dele por Deus. O legalismo não é um remédio contra o mal-uso da liberdade (libertinagem), mas é outra forma de mal-uso da liberdade, pois nada tem a ver com amor a Deus.

A fim de alertar os irmãos e irmãs de Roma contra o perigo do legalismo, Paulo fala em “obedecer de coração” (v.17) querendo dizer com isso que a verdadeira obediência nasce da autonomia, isto é, da decisão livre de se fazer servo, de se submeter a uma regra de vida, uma disciplina (que, como bem disse Renato Russo, é liberdade).

Paulo prossegue com seu raciocínio para dizer que o fruto de uma vida de livre e obediente é a santidade que é sinal da vida abundante, da vida eterna vivida aqui e agora. A santidade nasce de um coração obediente que escolheu disciplinar-se a partir da Lei de Deus a fim de preservar a própria liberdade e respeitar a liberdade do outro. E tudo isso faz por amor a Deus, ao próximo e a si mesmo. A obediência a Deus livremente assumida é a forma mais profunda e genuína de liberdade possível.

Graça, liberdade e responsabilidade

Até 1997, no Brasil, a obrigatoriedade do uso do cinto de segurança restringia-se às estradas e rodovias. Nas demais vias públicas, tanto o motorista quanto os passageiros tinham a liberdade de usá-lo ou não! O motivo preponderante para a mudança da legislação foi a incrível disparidade dos índices de mortalidade entre as vítimas arremessadas para fora dos carros e aquelas que, de algum modo, permaneciam dentro dos veículos nos acidentes. Embora a lei tenha por objetivo proteger a vida e a liberdade de ir e vir das pessoas, muitos resistem a usar o cinto queixando-se que o mesmo limita a liberdade de movimentos no interior dos automóveis.

A lei de Deus funciona como um cinto de segurança. Ela impõe limites à nossa liberdade, mas ao fazê-lo, a protege (e nos protege também). Gn 3 ilustra de maneira emblemática essa realidade: Deus criou o ser humano livre e o colocou num jardim maravilhoso onde homem e mulher poderiam viver como desejassem. Tudo lhes era permitido, exceto comer o fruto da árvore no meio do jardim porque, se assim eles fizessem, morreriam. É paradoxal realmente: a lei de Deus protege a nossa liberdade limitando-a! E por que esse limite se faz necessário? Porque o exercício irrestrito da liberdade é autodestrutivo! Liberdade sem limites é morte.

Nós somos livres para comer ou beber ou ficarmos sem dormir ilimitadamente, mas se o fizermos, iremos nos autodestruir. A liberdade precisa do limite, pois é o limite que a torna saudável, sustentável e mesmo possível. Mesmo Deus, que é absolutamente livre, livremente se impôs um limite ao nos criar. Pois ao nos criar livres como Ele próprio, Deus prescindiu de algo de sua própria liberdade. Por isso Deus não nos impede de exercer nossa liberdade mesmo quando contraria a vontade dele. Deus não impediu Adão e Eva de comerem do fruto proibido. Ele os advertiu, os exortou, os proibiu, mas não os impediu de ir lá na árvore no meio do jardim (mesmo contra sua vontade e ordem), pegar o fruto e comer!!! Tanto é assim que eles comeram…

Cabe aqui perguntar: por que Deus permite que nós descumpramos sua Lei, que façamos aquilo que contraria sua própria vontade para nós que, como afirma o apóstolo Paulo, é boa, perfeita e agradável? A resposta é simples: porque Deus leva muito à sério a liberdade humana. Deus não nos quer presos a ele, reféns de sua vontade. Ao contrário. Ele nos deseja livres porque somente se formos livres para caminharmos para longe Dele e de sua vontade, seremos também livres para escolhermos estar perto Dele e obedecermos aos seus mandamentos. Isso é graça: amor que não se impõe, mas se expõe ao risco de ser rejeitado!!!

Contudo, é importante frisar, a liberdade não é a única filha da graça; ela tem uma irmã gêmea que se chama responsabilidade. Toda ação produz uma reação. Toda escolha é uma fecundação: produzirá filhos que não poderão ser desamparados. O ser humano escolheu comer o fruto proibido! Ok, Deus respeita a liberdade humana. Mas ele agora terá de responsabilizar-se pelas consequências. O exercício da liberdade querer responsabilidade! Mais liberdade corresponde a mais responsabilidade! E vice-versa: Menos liberdade corresponde a menos responsabilidade!

Neste ponto residem muitos de nossos problemas. Pois em geral nós queremos ser livres, mas não queremos ser responsáveis!!! Adão comeu do fruto proibido, mas tentou isentar-se da responsabilidade lançando-a sobre Eva. Eva, por sua vez, lançou a responsabilidade sobre a serpente visando lavar as próprias mãos. Mas Deus leva à sério demais a liberdade humana para nos eximir da responsabilidade por nossas escolhas. Quem quer ser livre tem de estar pronto para ser responsável! Pois onde há verdadeira liberdade, não há vítimas! Se livremente eu escolhi o meu caminho, então sou o único responsável por ter chegado onde cheguei. Ou por não ter chegado a lugar nenhum… Não posso culpar os outros pela estado em que minha vida se encontra. Pois ninguém faz nada comigo que eu não permita. Se as coisas estão como estão é porque, em alguma medida, eu consenti!!! No mínimo, eu sou co-responsável.

Assumir a responsabilidade por nossas escolhas é o ônus da liberdade. Daí que muitos optem por agir como os gálatas que abdicaram de ser livres para não terem de se responsabilizar pelas próprias escolhas. Adão e Eva, no entanto, fizeram uso da liberdade concedida por Deus, logo, não poderiam ser eximidos por Deus de arcar com a responsabilidade. A graça nos concede ampla liberdade, mas requer de nós igual responsabilidade. Por isso o ser humano foi expulso do Paraíso (o que não significa que Deus o tenha abandonado, porque a graça segue com a gente até o fim, não recua jamais, e nos ajuda a lidar com as consequências de nossas escolhas equivocadas). O Evangelho da Graça é um convite à vida livre e responsável baseada no amor incondicional, irrestrito e irrevogável de Deus por nós que nos deu a sua Lei para nos proteger e orientar. Contudo, obedecer ou não a Lei, é algo que compete a cada um escolher assim como a cada motorista e cada passageiro compete também decidir se irá acatar ou não a Lei e viajar usando o cinto de segurança.

 

 

Graça, Lei e Liberdade

Não se deixem enganar: de Deus não se zomba. O que o homem semear, isso também colherá” (Gálatas 6:7)

Um amigo certa vez me contou que havia plantado sementes de maçã em seu quintal onde, tempos depois, crescera uma pereira. Naturalmente, eu não acreditei na estória, apesar da insistência dele. Todos sabemos que não há como alguém plantar sementes de um tipo de árvore e obter como resultado uma árvore de tipo diferente. Assim acontece também com nossas escolhas, diz-nos o apóstolo Paulo. Escolher é dar à luz um futuro e os filhos sempre carregam o DNA de seus pais. Todas as nossas escolhas se desdobram em consequências que lhe são correspondentes. Daí que aquele que plantar maçãs, colherá maçãs. Quem quiser colher peras, terá de plantar peras. Segundo o apóstolo, afirmar qualquer coisa diferente disso é zombar de Deus.

É importante observarmos que Paulo faz essa afirmação numa carta cuja finalidade era instruir os irmãos e irmãs da Galácia sobre a relação entre a liberdade cristã e a Lei de Deus no horizonte da graça. Pois aquela comunidade estava perdendo de vista a experiência da graça e, por essa razão, usando a liberdade cristã de maneira equivocada. Para nossa surpresa, no entanto, eles não estavam usando a liberdade para levarem uma vida de frouxidão moral e libertinagem como nós frequentemente tememos. Não. Eles estavam usando a liberdade decorrente da graça de Deus para anularem a própria liberdade e se aprisionarem em cadeias autoimpostas feitas de legalismos, moralismos, dogmatismos e tradicionalismos. Por isso Paulo escreve no capítulo 5:

Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão. Ouçam bem o que eu, Paulo, lhes digo: Caso se deixem circuncidar, Cristo de nada lhes servirá. De novo declaro a todo homem que se deixa circuncidar, que está obrigado a cumprir toda a Lei. Vocês, que procuram ser justificados pela Lei, separaram-se de Cristo; caíram da graça. 

A citação não poderia ser mais clara: abrir mão da liberdade cristã em prol de uma vida regida pela lei, é uma desgraça; é dar as costas para Cristo. Pois, como vimos duas semanas atrás, a lei de Deus existe para proteger e garantir nossa liberdade e não para ocupar o lugar dela! Deus não nos criou – e Jesus não nos libertou – para normas e regras e prescrições e costumes. Todas essas coisas existem para nos servir e abençoar. Quando deixam de cumprir essa finalidade e tornam-se fim em si mesmas, tornam-se também desimportantes, deixam de ser graça, e por isso podem e precisam ser questionadas, revistas e até abandonadas. Um Evangelho legalista, enrijecido por tradicionalismos e dogmatismos, não é, a rigor, Evangelho, porque já não é boa-notícia. O Evangelho de Jesus Cristo é a boa-nova do amor incondicional, irrestrito e irrevogável de Deus que nos permite viver com leveza, liberdade e responsabilidade, porque o jugo de Jesus é suave e o seu fardo é leve. Não há nada que possamos fazer para Deus nos amar mais, nem nada que possamos fazer para Deus nos amar menos. Daí que, para Paulo, nem circuncisão, nem dieta judaica, nem calendário religioso, nem lugares sagrados ou tantas outras coisas constituem condição para obtermos o amor de Deus que nos é dado de antemão. Somos amados por Deus e, portanto, livres para vivermos sem medo as nossas vidas.

Infelizmente, contudo, nós tememos a liberdade. Nós fomos ensinados e acabamos por acreditar que a liberdade é perigosa pois é uma porta para a libertinagem. Então nós a mantemos fechada. Se não sabemos usar a liberdade, a coisa a fazer então é abdicar dela. Exatamente como os gálatas estavam fazendo. Só que Paulo não pensa nem age assim. Ao invés de prescindirmos da liberdade, ele entende que é preciso aprender a usá-la: Por isso digo: Vivam pelo Espírito, e de modo nenhum satisfarão os desejos da carne” (Gl 5:16). Quem vive no Espírito não tem medo da liberdade! Porque sabe que será conduzido por Deus por caminhos de retidão.

O ensino de Paulo é uma denuncias: ela revela que nosso medo da liberdade funda-se no fato de estarmos vazios (ou esvaziados) do Espírito Santo. É para quem vive essa experiência que Paulo diz: “Não se deixem enganar: de Deus não se zomba. O que o homem semear, isso também colherá”. É como se dissesse em outras palavras: “Pela graça de Deus vocês são livres! Vocês são livres até mesmo para abrirem mão da liberdade que a graça concede a vocês. Mas lembrem-se: tudo o que vocês plantarem, vocês colherão! Vocês querem viver segundo a Lei? Não reclamem depois se a vida de vocês se tornar um fardo insuportável!”.

Toda ação produz uma consequência correspondente: ninguém planta maçãs e colhe peras! Se alguém quiser colher peras, terá de plantar peras! A vida abundante não está destinada àqueles que temem a liberdade. Mas aos que, no Espírito, a exercem corajosamente! Todos estamos diante de uma escolha fundamental: ou viveremos livre e corajosamente pela graça no poder do Espírito Santo ou viveremos tímida e receosamente sob o peso da Lei que nos rouba a alegria da vida e da salvação. A escolha é nossa. A responsabilidade também.

 

Graça e Lei (I)

Quem nunca descumpriu uma norma, quebrou uma regra, infringiu alguma lei? Davi, certa vez, comeu os pães da Presença que eram consagrados a Deus e que, segundo Levíticos 24, somente poderiam ser comidos pelos sacerdotes. Quem evocou a memória deste episódio foi Jesus que fora interpelado pelos fariseus em razão de os seus discípulos estarem colhendo espigas no campo em dia de sábado – o que era proibido. O interessante no texto é que Jesus defende os discípulos citando a experiência de Davi. Ele justifica um erro com outro!

O raciocínio foi o seguinte: “Se, em essência, a transgressão dos discípulos foi a mesma de Davi, por que, no caso de Davi, isso não foi motivo de alarde, mas no caso dos discípulos sim?”. Os fariseus se calaram. Sabiam que, quando convinha, eles engoliam um camelo inteiro sem mastigar, mas quando não convinha, eles coavam o mais insignificantes dos mosquitos.

Jesus, no entanto, age diferente. Para ele o que está em jogo não é o interesse de A ou B, mas a finalidade da lei de Deus que é o bem-estar humano, a defesa e a promoção da vida. Daí que ele tenha ignorado tanto a letra da lei do sábado quanto sua interpretação dominante. Pois ambas refletiam a grave inversão que a lei sofrera tornando-se algo em si mesmo em detrimento do ser humano ao qual deveria servir e abençoar. Daí Jesus vaticinar: “O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado” (2:27). Para ele, o ser humano é maior que o sábado! A vida humana é mais importante que a lei e seu cumprimento ao pé da letra. Decorre daí que, quando deixa de beneficiá-lo e passa a oprimi-lo, a lei precisa ser reinterpretada ou abolida!

Alguém poderia objetar: mas o próprio Jesus disse que não veio abolir a lei, mas cumpri-la… Exato. Jesus cumpriu a lei mesmo a tendo desobedecido. Porque “o cumprimento da lei é o amor” (Rm 13:10). Não é a obediência cega que corresponde ao cumprimento da lei, mas a experiência do amor. Porque o espírito da lei é o amor. O espírito da lei de Deus é o cuidado, o respeito, a equidade, a compaixão, o bem comum. No episódio da mulher flagrada em adultério, Jesus descumpriu a letra da lei que mandava quem cometeu a falta, mas cumpriu o seu espírito defendendo a vida e o direito a uma nova oportunidade

Isso é graça: colocar o ser humano à frente da lei; amar o ser humano antes de julgá-lo; perdoá-lo antes de apedrejá-lo! A característica do legalismo é o amor à norma em detrimento do ser humano. A característica da graça é o amor ao ser humano em cumprimento ao verdadeiro espírito da norma. No momento em que perde o ser humano de vista e se torna um fim em si mesmo, a lei se torna também uma arma letal. A lei pela lei é morte! Ao invés de proteger, expõe; ao invés de curar, adoece; ao invés de ajuntar, espalha; ao invés de salvar, mata!!! Daí Paulo dizer: “a letra mata, mas o espírito vivifica” (2Co 3:6).

Talvez escandalize alguns, mas a graça é antropocêntrica – ela coloca o ser humano no centro da vida e da religião. A graça é o Evangelho centrado no ser humano. Jesus não morreu por um sistema doutrinário, por alguma confissão de fé ou código de moralidade; Jesus morreu por mim e por você. O ser humano e não a lei está no centro do Evangelho e da experiência da graça de Deus!!!

É exatamente isso que a segunda porção do texto afirma. Era sábado. Todos estavam reunidos na sinagoga em torno da Lei. Havia ali um homem doente, marginalizado por sua doença – porque naquele tempo os leprosos e aleijados eram tidos por malditos, por gente rejeitada por Deus. Jesus também está ali. Ele vê o homem e se compadece dele. As pessoas na sinagoga o observavam: será que ele irá novamente transgredir a lei do sábado e curar esse homem amaldiçoado? Sim, Jesus irá curar o homem. A primeira coisa que diz, virando-se para ele, é: “Levante-se e venha para o meio”!!! (3:3). Notem bem: todos ali estavam reunidos em torno da Lei. A lei ocupava o lugar central nas sinagogas. Mas Jesus diz: “vem para o meio” colocando a lei para escanteio. Ele faz isso porque a graça afirma a primazia do ser humano sobre a lei! Para algumas pessoas isso soa como blasfêmia ao invés de boa-notícia. Mas para quem tem se sentido quebrado, prostrado, cabisbaixo, culpado e rejeitado por Deus e o mundo, essa fala de Jesus é sim boa-notícia; é salvação!

Frequentemente, a verdadeira obediência a Deus implica colocar de lado a interpretação que os homens dão à lei, seja esta lei humana ou divina. Seguir a Jesus, em muitos momentos, corresponde a transgredir, desobedecer e se rebelar.

Medo da Graça

Se Deus nos ama incondicionalmente e, portanto, não há nada que possamos fazer para que ele nos ame mais; nem há nada que possamos fazer para que ele nos ame menos, qual é então o ponto da vida cristã? Por que viver uma vida de obediência a Deus se a graça me assegura que sou e serei amado por Deus a despeito de qualquer coisa que eu faça ou deixe de fazer? Por que me esforçar para ser uma pessoa melhor, se a graça me assegura que Deus me ama do jeito que eu sou e não do jeito que eu deveria ser? Por que ser cristão se Deus me ama tanto quanto ama o pior dos ímpios?

Essas são algumas das perguntas mais recorrentes que nós cristãos nos fazemos quando ouvimos ou pensamos a respeito da graça de Deus. Todas elas são, no fundo, derivações de uma única e mesma pergunta: toda essa segurança acerca do amor de Deus não nos coloca numa posição de muita liberdade? Em outras palavras: saber que sou amado por Deus de maneira incondicional, irrestrita e irrevogável, não aumenta as chances de eu me perder? Pois quem me garante que, diante de tanto amor e tanta liberdade, eu vou desejar viver segundo a vontade de Deus e não segundo a minha própria vontade?

Eis a raiz do problema: em geral, nós temos medo da graça! E temos medo da graça porque morremos de medo de nós mesmos! Nós não confiamos em nós mesmos! E isso é bom, até certo ponto, porque nós somos realmente capazes de fazer muitas bobagens. Mas isso é péssimo, num outro aspecto, porque nem sempre nós fazemos bobagens; nem sempre nossas escolhas são errôneas, equivocadas e nos distanciam de Deus!!!

O grave nesta história é que o medo de nós mesmos nos impede de arriscar! Então nós nos retraímos. Nosso raciocínio funciona (estejamos conscientes ou não) segundo a seguinte lógica: se a graça me dá liberdade, mas eu sei de antemão que usarei mal essa liberdade, é melhor então eu não usá-la! É melhor então eu fingir que ela não existe e negá-la, ignorá-la, restringí-la, omití-la, minimizá-la! Pois quanto menos liberdade eu tiver, mais seguro eu me sentirei de que não farei nada errado!!!Acontece então que criamos para nós prisões que não existem para que elas nos contenham como uma coleira contém um cão bravo!

Na estória de Jó, nós encontramos uma afirmação escandalosa: Deus aposta na gente! Deus confia em nós!!!

Jó era um homem temente a Deus. Isso não é o mesmo que dizer que ele era alguém que tinha pavor de Deus; mas amor por Deus. Jó era um homem que amava a Deus. Porém, Satanás, que não acredita no amor, se aproximou de Deus, certa vez, e o desafiou: “Você acha mesmo que Jó te ama? Você acha mesmo que ele te serve gratuitamente, a troco de nada? Sei. Experimenta tirar tudo que você tem dado a ele e vê se ele vai continuar te amando e te servindo?”. Deus topou a aposta. Ele confiava em Jó, cria no amor de Jó por ele (essa desconfiança que tantas vezes nutrimos em relação a nós mesmos não é divina, é maligna. Não é por acaso que o cristianismo vivido fora da liberdade da graça seja tão triste, tão sem graça. No fundo, é uma prisão autoimposta. Por não confiarmos em nós mesmos, nós deixamos de viver!!!).

Paulo escreveu aos Gálatas: “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão” (Gl 5:1).

Deus aposta na gente! Deus confia em nosso amor por ele! Deus confiou em Jó, mas não apenas nele. Confiou em José e Maria, em Pedro e nos doze, e confia em nós hoje. Parece loucura, mas é a sabedoria de Deus. A graça é a sabedoria de Deus que é loucura para o mundo (e, às vezes – como dissemos na semana passada – para a própria igreja). A graça é o amor que aposta no amor, que lança fora o medo. Não é o amor que é refém do medo, mas o amor que liberta do medo para a vida!!! Não é o medo que nos livra do pecado! É o amor!

Mas confiar no amor é seguro? A outra alternativa é confiar no medo. A escolha é de cada um.

A graça que reforma a vida e o mundo

No dia 31 de Outubro de 2017, a Reforma Protestante celebrou seu quingentésimo aniversário. No entanto, mesmo depois de todos esses anos, tudo continua como nos dias de Lutero, Calvino e cia. Os postulados dos reformadores nunca realmente se encarnaram nas vidas da vasta maioria daqueles que se dizem herdeiros do movimento. É fato que vários destes postulados alcançaram status de verdade de fé e são popularmente conhecidos e repetidos, tanto no jargão religioso quanto no ensino dos especialistas. Mas ao nível prático da experiência cotidiana da fé, não significam nada para a vasta maioria das pessoas, especialmente no Brasil. Não são mais que palavras de efeito. Talvez tenham verdadeiramente influenciado uma ou duas gerações de homens e mulheres. E certamente moldaram indivíduos, congregações e até denominações aqui e ali. Contudo, tais casos constituem as exceções. Mundo afora, a Reforma não se manteve protestante, tornou-se evangélica e assim traiu as afirmações que a originaram. Mas isso é assunto para um outro post.

Para os próximos 500 anos, as palavras de ordem seguem sendo PROTESTAR e REFORMAR. Quem sabe desta vez a Igreja não levará a sério o princípio que define sua identidade e, finalmente, viverá o que tem pregado ao longo de 5 séculos?

Não me esquivando da responsabilidade de contribuir nesse sentido, proponho aqui – no espírito de Lutero – doze teses que explicitam o que afirmo acima ao mesmo tempo em que servem de pauta e roteiro para a tarefa que nos compete: (1) pastores, bispos e apóstolos, etc. são ainda hoje verdadeiros mediadores entre Deus e as pessoas em lugar do Cristo; (2) o sacerdócio universal de todos os crentes não é universal, pois às mulheres e crianças é negada a plena cidadania eclesial e eclesiástica; (3) a Escritura está longe de ser a autoridade última da vida religiosa, pois a tradição hermenêutica denominacional fala em lugar do texto sagrado; (4) o livre exame da Escritura é uma piada, pois há verdadeiro estado de polícia pairando sobre as consciências e o Espírito Santo nem de longe tem lugar para exercer seu ministério de intérprete da Palavra de Deus; (5) a graça é quase sempre mal-compreendida e frequemente rejeitada, temida e hostilizada pelos mais diferentes legalismos que a sufocam e silenciam por completo – nunca se cobrou tanta indulgência e a salvação custou tão caro como em nossos dias; (6) o dualismo fé-obras ainda não foi superado – pelo contrário: o discurso sobre a fé em oposição as boas-obras segue firme espiritualizando e desencarnando o Evangelho, esvaziando a dimensão ética da experiência cristã e da obediência fazendo da igreja uma multidão omissa e desengajada em relação à sociedade, ao país e ao planeta; (8) em nome da glória de Deus, oprime-se o ser humano que é reduzido à nada – Deus, na retórica da igreja sofre de sérios problemas de autoestima e inveja o sucesso das pessoas exigindo que toda a glória seja dele e dele somente; (9) prega-se ainda hoje que fora da igreja (evangélica) não há salvação e demoniza-se os católicos, os adeptos de religiões não-cristãs, os ateus e todos os grupos militantes que não se conformam com o mundo tal qual se nos é dado – marxistas, feministas, artistas, ativistas de diferentes sortes, etc.; (10) a castidade e o celibato são ainda virtudes celebradas e frequentemente impostas sobre os corpos anestesiados e tristes de homens e mulheres que só sabem comer e malhar porque não tem permissão para dançar nem transar; (11) prega-se a eternidade a custa da história – a salvação é bem-aventurança post-mortem que livra do fogo eterno e quase nada diz respeito a vida de cada dia, ao aqui e agora; (12) o bordão Igreja Reformada sempre se reformando é tão somente isso: um bordão que serve apenas como instrumento ideológico para manipulação das consciências e das identidades.

Na raiz de toda essa problemática, reside um pecado capital: o abandono da experiência da Graça que é o que fundamenta e torna possível tudo o que a Reforma (e mais amplamente o cristianismo) se propôs a dizer e realizar. A Graça é o Evangelho de Jesus Cristo, a boa-nova de Deus para homens e mulheres de todas as épocas e localidades.

Registro aqui minha firme convicção: fora de uma experiência profunda da Graça de Deus entendida como o amor incondicional, irrestrito e irrevogável de Deus por todos e todas, não haverá qualquer futuro para o protestantismo e, quiçá, para a humanidade.