O que é jejum?

Nos esvaziamos para nos enchermos de Deus
Jejuar é auto-esvaziar-se para ficar cheio de Deus

Jejum é disciplina. É uma forma de domínio próprio, de auto-controle, de temperança. Jejuar é vacinar-se ou medicar-se contra a gula. É domar espiritualmente os nossos apetites pecaminosos e caminhar na direção do contentamento e da generosidade.

Embora seja óbvia a identificação do jejum com a abstinência de comida, não é óbvia a realidade de que jejuar não tem a ver apenas com os nossos hábitos alimentares. Afinal, assim como a gula diz respeito a vida como um todo, também o jejum.

Teologicamente falando, a gula é aquela insatisfação crônica que nos faz querer sempre mais. Não importa do que se trate: comida, dinheiro, sexo, poder, sucesso, admiração, prazer, conhecimento, autonomia, notoriedade… O guloso é aquela pessoa insaciável, que não consegue dizer “não” a concupiscência dos olhos, e que por este motivo é refém do próprio desejo desenfreado.

O jejum, então, é um recurso espiritual através do qual lutamos contra a gula, mortificamos a nossa carne e dominamos o nosso desejo. Jejuar é pregar na cruz de Jesus os nossos apetites doentios oferecendo nossas vidas a Deus como oferta agradável. Jejuamos para nos esvaziarmos de nós mesmos e nos enchermos de Deus.

Em Mateus 6:16-18, vemos Jesus ensinando os seus discípulos sobre o jejum. Logo na seqüência (Mt 6:19-21), ele os orienta quanto ao alto risco de acumularem para si “tesouros na terra” (bens materiais e simbólicos) aconselhando-os a ajuntarem “tesouros nos céus” (bens espirituais).

Há quem diga que estas duas passagens não se relacionam, que a ligação entre elas é artificial. Eu discordo. Segundo entendo, elas estão intrinsecamente relacionadas. São parte de um todo monolítico e orgânico que não pode ser separado. Pois ao relacionar jejum com acumulação de bens materiais e simbólicos, Jesus revela o sentido básico e o dinamismo fundamental desta prática espiritual tão mal-compreendida entre nós: a abstinência (em oração) é o único antídoto eficaz contra a voracidade de nosso desejo. Com efeito, quanto mais jejuamos, mais nos damos conta do quanto estamos supridos (Dt 8:3), e assim aprendemos a nos contentar com o que possuímos e já alcançamos ao longo na vida. Por conseguinte, nosso desejo compulsivo é enfraquecido ficando cada vez mais fácil mantê-lo controlado de forma que não nos cause dano, mas seja saudável.

Porém este é apenas um lado da moeda do jejum. Pois jejuar é mais do que somente aplacar o nosso apetite de bens materiais e simbólicos. Jejuar é, ao mesmo tempo, agir pro-ativamente na acumulação de bens espirituais. Ora, acumulamos bens espirituais na medida em que, por amor a Deus e em oração, nos abstemos de acumular bens materiais e simbólicos para compartilhá-los com outras pessoas menos favorecidas. Este é o critério definitivo do jejum que agrada a Deus (Is 58:3-8). E é também o instrumento aferidor que nos possibilita saber onde está o nosso coração – se nos céus (nos valores do Reino de Deus) ou nas coisas desimportantes deste mundo.

Esta era a questão envolvendo o jejum praticado pelo povo de Israel nos dias do profeta Isaías. Embora tentassem dar a entender o contrário, na verdade, eles não jejuavam para dominar o gula e encontrar satisfação em Deus, mas o faziam buscando justamente o oposto: acumular “tesouros na terra” onde, de fato, se encontrava o coração deles. “Por que jejuamos nós, e tu não atentas para isso? Por que afligimos a nossa alma, e tu não o levas em conta?” – perguntava o povo. “Eis que, no dia em que jejuais, cuidais dos vossos próprios interesses e exigis que se faça todo o vosso trabalho” – respondeu-lhes o Senhor (Is 58:3). Ao que ainda acrescentou:

Porventura, não é este o jejum que escolhi: que soltes as ligaduras da impiedade, desfaças as ataduras da servidão, deixes livres os oprimidos e despedaces todo jugo? Porventura, não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desabrigados, e, se vires o nu, o cubras, e não te escondas do teu semelhante? (Is 58:6-7)

Diferentemente do que o povo de Israel acreditava, para Deus, o jejum não se restringia a uma experiência de renúncia e abstinência, mas, muito para além disto, constituia também uma experiência de generosidade e abertura para o outro. Pois quem aprende a dominar a gula e encontrar satisfação em Deus, passa a viver de forma simples e altruísta, uma vez que já não vive escravizado pela preocupação com o que haverá de comer, beber ou se vestir (Mt 6:30-33).

Dito de outra forma: o jejum que Deus esperava que seu povo praticasse não consistia em uma experiência ritual de sacrifício e auto-flagelação. De outra parte, também não se resumia em um esforço espiritual para aplacar a voracidade de nossa gula por bens materiais e simbólicos, mas requeria também um componente ético indispensável: a acumulação de bens espirituais através da generosidade para com o semelhante.

É possível concluir pelo exposto acima que o jejum é uma disciplina espiritual (abstinênia) que, aliada à oração, nos ajuda a subjugar o nosso desejo insaciável tornando-nos conscientes de nossa abundância e nos permitindo experimentar satisfação e contentamento em Deus. Através dele, Deus nos livra da frenética corrida da acumulação egoísta abrindo-nos para as necessidades de nossos semelhantes. Aqui já não importa o que falta ao outro: paz, comida, dinheiro, alegria, liberdade, afeto, salvação… Se eu tenho em abundância, posso repartir para que meu irmão tenha, ao menos, o mínimo necessário.

É este amor concreto enraizado em Deus que confere à abstinência de comida – ou de qualquer outra coisa – um sentido religioso. Se faltar este elemento, o jejum não será nada mais do que meramente uma experiência de privação.

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A Importância da Igreja

A igreja é uma referência imprescindível
A igreja é uma referência vital para a sociedade

As profecias pessimistas dos mestres da suspeita – Marx, Freud e Nietzsche – estavam erradas: apesar dos duros golpes que sofreu durante a modernidade, Deus não morreu, a religião não desapareceu do mapa e nem tampouco a igreja fechou em definitivo as suas portas. Muito pelo contrário. A religião hoje está de volta e com força total. E, alimentadas por este retorno do sagrado, as igrejas estão multiplicando-se por toda parte, experimentando um crescimento como há muito não se via.

Não obstante este novo momento cultural, muitas pessoas seguem se perguntando pela importância da igreja, sobre que tipo de diferença ela faz na sociedade. Aponto aqui duas razões pelas quais entendo ser a igreja importante para a sociedade contemporânea.

Primeiramente, a igreja é importante porque ela é um raro contraponto ao individualismo reinante em nossos dias. Nestes tempos altamente competitivos onde o outro cada vez mais é percebido como alguém que concorre comigo por um lugar ao sol, valores como o altruísmo, a generosidade e a gratuidade tendem a desaparecer. A sociedade, no entanto, não pode prescindir deles, pois constituem importante contrapeso para a manutenção do equilíbrio da relação eu-tu sobre a qual a vida social se edifica. Ao cultivar e encorajar a vivência cotidiana de tais valores, a igreja contribui significativamente para a saúde social impedindo-nos de tomar o caminho sem volta do egocentrismo absoluto.

Uma segunda razão pela qual julgo ser importante a presença da igreja na sociedade tem a ver com a esperança que ela encarna e proclama. Neste nosso contexto brasileiro de tantas más-notícias, a igreja insiste rebeldemente em ser um foco irradiador da boa-notícia de salvação e esperança do reino de Deus. Contra todas as evidências contrárias, a igreja teimosamente anuncia o triunfo do bem sobre o mal, a vitória da vida sobre a morte, o êxito da saúde sobre a doença, etc. E este anuncio é imprescindível, pois livra-nos do fatalismo e da depressão.

Enfim, a igreja é importante pois contribui fundamentalmente para a saúde social através do incentivo à gratuidade e ao altruísmo bem como por meio do anúncio insistente de uma esperança rebelde a todo enquadramento melancólico e fatalista. Ademais, a igreja constitui sinal e metáfora da nova humanidade redimida que tanto necessitamos ver emergir.