Graça e esvaziamento

Nós somos salvos pela graça e de graça. Mas a salvação que nos foi concedida gratuitamente, para Deus, custou um preço altíssimo. Sim, pois a graça não é um conceito teológico sem qualquer correspondente na realidade concreta de nossas vidas; tampouco uma superestrutura retórica que afirma um amor perfeito e incondicional, porém abstrato e imaterial; a graça é o amor incondicional, irrestrito e irrevogável de Deus que se faz concreto em nosso favor na pessoa de Jesus Cristo! Ele é a expressão material da graça, a encarnação do amor incondicional de Deus por nós, a graça de Deus em pessoa! Deus tanto nos amou que se fez um de nós. O apóstolo Paulo reflete lindamente sobre essa maravilhosa metamorfose divina quando escreve aos filipenses no célebre hino registrado no capítulo 2.

Um problema, no entanto, emerge aqui: como o infinito poderia caber na finitude? Como a perfeição poderia caber na imperfeição? Como o eterno poderia caber no tempo? Como Deus poderia caber num homem? Para se fazer humano, Deus precisaria reduzir de tamanho, se apequenar, se autolimitar. E foi exatamente isso que Deus fez. De novo. Pois para nos dar à luz na criação, Deus se impôs uma espécie de cruz, Deus se restringiu e se autolimitou renunciando em parte à sua onipotência. Como assinalamos noutro lugar, uma vez que o ser humano foi criado livre, a vontade de Deus expressa em seus mandamentos sempre correrá o risco de não se realizar (pois o ser humano pode desobedecer com fez no Jardim do Éden e faz frequente).

Segundo o apóstolo Paulo, na encarnação, Deus se impõe um novo golpe. Deus agora vai ainda mais longe ainda. Ele não apenas renuncia a algo de sua onipotência, ele deixa de lado muito de sua divindade. Nas palavras do apóstolo: Deus se esvaziou. Sim, ele murchou, minguou; Deus abriu mão de algo de si mesmo, abdicou momentaneamente de sua condição divina e se fez gente, pessoa humana, como qualquer um de nós. Esse foi o preço que Deus pagou para que a salvação nos fosse oferecida gratuita e concretamente.

Jesus nasceu em Belém da Judeia, na palestina do século I, na família de José, do ventre do Maria. Deus agora tem um rosto, um corpo, um sotaque, um timbre de voz, um tom de pele, uma coloração de olhos e cabelos. Ele sente fome, sede, sono, cansaço, fraqueza, medo. Como todo mundo, o Deus esvaziado precisa aprender a falar, a engatinhar, a sustentar-se de pé e andar… Ele se sujeita ao tempo e ao espaço. Para chegar aos lugares, precisa caminhar ou pegar carona num jumentinho. Um dia para Deus agora tem 24h ao invés de 1000 anos.

Não costumamos pensar sobre isso, mas na encarnação, Deus se fez absolutamente vulnerável e dependente dos seres humanos. Ele dependia do seio de Maria para se alimentar e dos braços de José para o embalar e proteger. Mais que isso ainda: esse Deus que se esvazia por amor a nós se sujeita ao risco de amar sem ser correspondido, o que tristemente acabou por acontecer. O Evangelho de João registra: “veio para os que eram seus, mas os seus não o receberam”.

Jesus foi rejeitado do nascimento à cruz. Nasceu numa estrebaria porque ninguém da família de José o quis receber em casa. Quando iniciou seu ministério, sofreu desconfiança, calúnia e perseguição. Foi acusado de glutão e beberrão, de expulsar demônios pelo poder do Diabo, de profanar o sábado, de relativizar a Lei e blasfemar contra Deus!!! Por fim, foi morto na cruz entre dois ladrões como se fosse um criminoso!!! Esse foi o preço que Deus pagou por nos amar incondicionalmente. Em Cristo, Deus se impôs muitos limites e se fez um de nós; contudo, nós o rejeitamos. E o matamos. Não queríamos um Deus fraco, humano, tão parecido com a gente. Por nos rejeitarmos, rejeitamos também o Deus que veio até nós como um espelho (porque na encarnação, não são os homens que se assemelham a Deus como na criação, mas Deus que se mostra a semelhança dos homens). Ao olharmos para Deus em Cristo-nosso-espelho, não gostamos do que vi e o matamos.

Todavia, a morte não pôde contê-lo e ao terceiro dia ele ressuscitou!!! O amor venceu! Isso é a páscoa que nós cristãs celebramos anualmente: Jesus Cristo é o Senhor da vida e da morte! Porque tendo vivido como qualquer um de nós, morreu como qualquer um de nós e tendo morrido, ressuscitou como nós também ressuscitaremos!!!

A páscoa é a festa da identificação radical de Deus com o ser humano! Deus se fez um de nós! Deus viveu a nossa vida e a nossa morte! E nos abriu o caminho da ressurreição! Por isso ele pode nos salvar. Ele conhece o caminho para fora do labirinto da culpa, do medo, do ressentimento e da vingança. E nos convida a fazer esse caminho com ele. Daí Paulo dizer aos Filipenses: “Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo”.

Como responder a um amor como o amor de Deus por nós? Como responder à graça? Sendo graciosos como Jesus – nos ensina o apóstolo Paulo! Porque ser gracioso tem a ver com amar radicalmente, tem a ver com autoesvaziamento para o outro ter vez também, pois, como sabemos, nós não estamos sozinhos no mundo! Não somos o centro do mundo! O outro existe também e o exercício da minha liberdade não pode anular a liberdade dele! E vice-versa. Para nós dois coexistirmos no mundo, nós precisaremos nos esvaziar cada um um pouco. Como o outro viverá a própria liberdade se eu imponho sobre ele que seja como eu gostaria que ele fosse? Como ele poderá ser ele mesmo diante de Deus e da vida se eu o constranjo a ser igual a mim?

Nós somos tão cheios de nós mesmos que não deixamos espaço para o outro ser quem ele é. E vice-versa. A páscoa nos convida a nos esvaziarmos e nos tornarmos graciosos como Deus que, por amor, assumiu um alto preço em nosso benefício.

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Nossos demônios

Piores que os demônios de Satanás são os da nossa própria alma.

“Perguntou-lhe Jesus: Qual é o teu nome? Respondeu ele: Legião é o meu nome, porque somos muitos” (Mc 5:9)

 

Todos temos demônios. Não necessariamente aqueles de Satanás. Refiro-me aqui a um outro tipo, os daimons (como Sócrates chamaria em grego): forças autônomas que habitam o nosso mundo interior.

Os daimons são anteriores aos demônios. É claro que não numa perpectiva cronológica. Afinal, segundo as Escrituras, Satanás e suas hostes infernais existem desde antes da criação. Mas etimologicamente, sim. Pois foi a partir da noção – e da resignificação – de daimons que o Novo Testamento desenvolveu o conceito de “demônios” como nós hoje conhecemos, inclusive incorporando o termo. Prova disso é que o Antigo Testamente jamais fala em demônios, mas somente em espíritos malignos. Os demônios do NT são os espíritos malígnos do AT rebatizados com o termo oriundo da língua grega.

Pois bem. Diferente dos demônios de Satanás que habitam as esferas espirituais e podem eventualmente se apropriar de corpos e mentes, os daimons pertencem ao mundo de nossa subjetividade. São demônios da psiquê humana e, assim sendo, são universais. Todos os possuímos. Mas à semelhança do que acontece com os demônios de Satanás, também podemos ser possuídos por eles. Com efeito, eles buscam todo tempo se apropriar de nossa alma, de nosso ser interior levando-nos a fazer o mal que não queremos e nos afastando do bem que desejamos fazer.

O grande distintivo entre essas duas qualidades de demônios é que aqueles – os demônios de Satanás – são repreendidos e exorcizados com a mera menção do nome de Jesus. Já esses outros que atuam em nossa subjetividade, não. Eles dificilmente saem de uma vez por todas. Tampouco saem todos de uma vez. Temos de enfrentá-los um a um, sempre de novo, um dia depois do outro. De fato, lutamos com esses demônios durante toda extenção de nossas vidas. E embora nunca nos livremos deles, é possível aprender a subjugá-los. E assim, finalmente, vivermos libertos de sua ação.

Mas como essa libertação ocorre? Como subjugamos essas forças autônomas que, como intrusas, povoam nosso mundo interior sabotando nossas escolhas, atitudes, e autocompreensão? Como neutralizamos sua ação em nossas vidas?

Antes de mais nada é importante nomeá-los. “Qual é o teu nome?” – perguntou Jesus. Aqui, uma boa terapia pode ajudar. Também a leitura bíblica. Mas em geral uma boa dose de honestidade e autocrítica bastam. Quais os nomes dos demônios que agem em nosso interior? Quais os nomes dessas forças independentes que habitam nossa alma assolando nossa mente e pervertendo nossa identidade? Culpa? Ódio? Teimosia? Inveja? Orgulho? Vaidade? Resignação? Avareza? Discórdia? Rancor? Mágoa? Amargura? Ansiedade? Preguiça? Gula? Egoísmo? Pressa? Hipocrisia ?Mentira? Promiscuidade?

Se formos honestos, teremos de admitir que tais forças estão presentes em nossas vidas influenciando nosso sentir, nosso pensar e agir. E até certo ponto isso é normal. O problema é quando esses demônios se movem com tamanha liberdade em nosso mundo interior que chegam transtornar por completo nosso comportamento e identidade. É quando ocorre a “possessão”. Aí já não somos mais nós mesmos. Não sabemos mais nosso próprio nome. Fomos desfigurados. “Legião” – respondeu o jovem quando indagado por Jesus. Perdera-se dentro de si mesmo. Tornara-se refém e escravo.

Precisamente para que isso não aconteça é importante nomearmos os demônios. Assim, protegemos nossa identidade. E temos plena clareza do inimigo contra o qual lutamos. Pois freqüentemente confundimos quem somos com o que fazemos e pode ser que estajamos lutando contra nós mesmos, digo, nosso eu verdadeiro, imagem e semelhança de Deus.

Porém não basta apenas identificar os demônios que atuam no profundo de nosso ser. Se de fato desejamos exorcizá-los – ou, pelo menos, subjugá-los – faz-se mister dispormos de dois recursos espirituais: o jejum e a oração. Pois “essa casta não se expele se não com jejum e oração”.

O jejum (como escrevi em outro post) é uma disciplina espiritual de auto-esvaziamento. Através dele, enfraquecemos nossos apetites carnais, dominamos nossos desejos desenfreados e também subjugamos nossos demônios. Pois quando jejuamos, fechamos as portas que permitem o trânsito livre dessas forças pelos labirintos de nossa alma. Desse modo, restringimos e limitamos sua ação. Contudo, cumpre ressaltar aqui,  que jejuar não é meramente deixar de se alimentar, mas cultivar uma atitude de desprendimento, de renúncia e abnegação do qual o ficar sem comer é expressão. Jejuar é tomar sobre si a cruz de Jesus. Esse movimento exterior de renúncia – quando movido pelas corretas motivações – projeta para dentro de nosso ser uma censura que obstacula a ação dos demônios criando liberdade. Libertação, com efeito é isso, é a ação que gera liberdade.

Pode parecer estranho para muitos que uma disciplina tão “carnal”, que se acontece na dimensão do nosso corpo como é o caso do jejum, possa influenciar nosso mundo interior e gerar libertação. É que freqüentemente nos esquecemos que o ser humano não é um ser dicotomizado, fragmentado, mas um ser integral. Com efeito, todas as suas múltiplas dimensões estão interligadas entre si, conectadas umas as outras. E assim, o que comemos ou deixamos de comer afeta diretamente nosso humor, nossa saúde, e mesmo nossa vida espiritual. O contrário também é verdade ou não é fato que as variações de nosso estado de humor e saúde interferem em nosso apetite? Jesus mesmo disse a seus discípulos que não fazia sentido eles jejuarem enquanto estivessem alegres pela presença do noivo, mas quando o noivo lhes fosse tirado, aí sim deveriam jejuar, pois a tristeza do coração inibe o apetite e enseja a prática do jejum.

Mas agora cumpre perguntar: para que serve a oração nesse processo? A oração serve para nos encher de Deus. Por meio do jejum nos esvaziamos e, através da oração, somos preenchidos pela presença poderosa do Espírito de Deus em nossa vida. E, dessa forma, somos revestidos de sua força extraordinária. Mediante o jejum e a oração enfraquecemos nosso “eu” refém da ação demoníaca – o velho homem, como diria o apóstolo Paulo – e fortalecemos nosso “eu” espiritual ligado à pessoa divina – o novo homem que somos em Cristo Jesus. Assim, experimentamos finalmente verdadeira libertação.

Em resumo: demônios existem e exercem grande influência em nossas vidas. Contudo, ela pode ser maior ou menor segundo a consciência que temos da mesma e a postura que assumimos no tocante ao seu enfrentamento. Ninguém se engane: precisamos enfrentar nossos próprios demônios sob pena de nos perdermos se não o fizermos. Nesse sentido, o melhor caminho que conheço é o ensinado por Jesus: nomear cada demônio, depois cultivar o jejum e a oração. Esse caminho de libertação serve também para vencer, inclusive, os demônios de Satanás. E nesse processo, vai emergindo, paulatinamente, nosso eu cada vez mais liberto e fortalecido. Sem isso, dificilmente temos condições de pronunciar nosso verdadeiro nome.