Graça, liberdade e responsabilidade

Até 1997, no Brasil, a obrigatoriedade do uso do cinto de segurança restringia-se às estradas e rodovias. Nas demais vias públicas, tanto o motorista quanto os passageiros tinham a liberdade de usá-lo ou não! O motivo preponderante para a mudança da legislação foi a incrível disparidade dos índices de mortalidade entre as vítimas arremessadas para fora dos carros e aquelas que, de algum modo, permaneciam dentro dos veículos nos acidentes. Embora a lei tenha por objetivo proteger a vida e a liberdade de ir e vir das pessoas, muitos resistem a usar o cinto queixando-se que o mesmo limita a liberdade de movimentos no interior dos automóveis.

A lei de Deus funciona como um cinto de segurança. Ela impõe limites à nossa liberdade, mas ao fazê-lo, a protege (e nos protege também). Gn 3 ilustra de maneira emblemática essa realidade: Deus criou o ser humano livre e o colocou num jardim maravilhoso onde homem e mulher poderiam viver como desejassem. Tudo lhes era permitido, exceto comer o fruto da árvore no meio do jardim porque, se assim eles fizessem, morreriam. É paradoxal realmente: a lei de Deus protege a nossa liberdade limitando-a! E por que esse limite se faz necessário? Porque o exercício irrestrito da liberdade é autodestrutivo! Liberdade sem limites é morte.

Nós somos livres para comer ou beber ou ficarmos sem dormir ilimitadamente, mas se o fizermos, iremos nos autodestruir. A liberdade precisa do limite, pois é o limite que a torna saudável, sustentável e mesmo possível. Mesmo Deus, que é absolutamente livre, livremente se impôs um limite ao nos criar. Pois ao nos criar livres como Ele próprio, Deus prescindiu de algo de sua própria liberdade. Por isso Deus não nos impede de exercer nossa liberdade mesmo quando contraria a vontade dele. Deus não impediu Adão e Eva de comerem do fruto proibido. Ele os advertiu, os exortou, os proibiu, mas não os impediu de ir lá na árvore no meio do jardim (mesmo contra sua vontade e ordem), pegar o fruto e comer!!! Tanto é assim que eles comeram…

Cabe aqui perguntar: por que Deus permite que nós descumpramos sua Lei, que façamos aquilo que contraria sua própria vontade para nós que, como afirma o apóstolo Paulo, é boa, perfeita e agradável? A resposta é simples: porque Deus leva muito à sério a liberdade humana. Deus não nos quer presos a ele, reféns de sua vontade. Ao contrário. Ele nos deseja livres porque somente se formos livres para caminharmos para longe Dele e de sua vontade, seremos também livres para escolhermos estar perto Dele e obedecermos aos seus mandamentos. Isso é graça: amor que não se impõe, mas se expõe ao risco de ser rejeitado!!!

Contudo, é importante frisar, a liberdade não é a única filha da graça; ela tem uma irmã gêmea que se chama responsabilidade. Toda ação produz uma reação. Toda escolha é uma fecundação: produzirá filhos que não poderão ser desamparados. O ser humano escolheu comer o fruto proibido! Ok, Deus respeita a liberdade humana. Mas ele agora terá de responsabilizar-se pelas consequências. O exercício da liberdade querer responsabilidade! Mais liberdade corresponde a mais responsabilidade! E vice-versa: Menos liberdade corresponde a menos responsabilidade!

Neste ponto residem muitos de nossos problemas. Pois em geral nós queremos ser livres, mas não queremos ser responsáveis!!! Adão comeu do fruto proibido, mas tentou isentar-se da responsabilidade lançando-a sobre Eva. Eva, por sua vez, lançou a responsabilidade sobre a serpente visando lavar as próprias mãos. Mas Deus leva à sério demais a liberdade humana para nos eximir da responsabilidade por nossas escolhas. Quem quer ser livre tem de estar pronto para ser responsável! Pois onde há verdadeira liberdade, não há vítimas! Se livremente eu escolhi o meu caminho, então sou o único responsável por ter chegado onde cheguei. Ou por não ter chegado a lugar nenhum… Não posso culpar os outros pela estado em que minha vida se encontra. Pois ninguém faz nada comigo que eu não permita. Se as coisas estão como estão é porque, em alguma medida, eu consenti!!! No mínimo, eu sou co-responsável.

Assumir a responsabilidade por nossas escolhas é o ônus da liberdade. Daí que muitos optem por agir como os gálatas que abdicaram de ser livres para não terem de se responsabilizar pelas próprias escolhas. Adão e Eva, no entanto, fizeram uso da liberdade concedida por Deus, logo, não poderiam ser eximidos por Deus de arcar com a responsabilidade. A graça nos concede ampla liberdade, mas requer de nós igual responsabilidade. Por isso o ser humano foi expulso do Paraíso (o que não significa que Deus o tenha abandonado, porque a graça segue com a gente até o fim, não recua jamais, e nos ajuda a lidar com as consequências de nossas escolhas equivocadas). O Evangelho da Graça é um convite à vida livre e responsável baseada no amor incondicional, irrestrito e irrevogável de Deus por nós que nos deu a sua Lei para nos proteger e orientar. Contudo, obedecer ou não a Lei, é algo que compete a cada um escolher assim como a cada motorista e cada passageiro compete também decidir se irá acatar ou não a Lei e viajar usando o cinto de segurança.

 

 

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Graça e Lei (I)

Quem nunca descumpriu uma norma, quebrou uma regra, infringiu alguma lei? Davi, certa vez, comeu os pães da Presença que eram consagrados a Deus e que, segundo Levíticos 24, somente poderiam ser comidos pelos sacerdotes. Quem evocou a memória deste episódio foi Jesus que fora interpelado pelos fariseus em razão de os seus discípulos estarem colhendo espigas no campo em dia de sábado – o que era proibido. O interessante no texto é que Jesus defende os discípulos citando a experiência de Davi. Ele justifica um erro com outro!

O raciocínio foi o seguinte: “Se, em essência, a transgressão dos discípulos foi a mesma de Davi, por que, no caso de Davi, isso não foi motivo de alarde, mas no caso dos discípulos sim?”. Os fariseus se calaram. Sabiam que, quando convinha, eles engoliam um camelo inteiro sem mastigar, mas quando não convinha, eles coavam o mais insignificantes dos mosquitos.

Jesus, no entanto, age diferente. Para ele o que está em jogo não é o interesse de A ou B, mas a finalidade da lei de Deus que é o bem-estar humano, a defesa e a promoção da vida. Daí que ele tenha ignorado tanto a letra da lei do sábado quanto sua interpretação dominante. Pois ambas refletiam a grave inversão que a lei sofrera tornando-se algo em si mesmo em detrimento do ser humano ao qual deveria servir e abençoar. Daí Jesus vaticinar: “O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado” (2:27). Para ele, o ser humano é maior que o sábado! A vida humana é mais importante que a lei e seu cumprimento ao pé da letra. Decorre daí que, quando deixa de beneficiá-lo e passa a oprimi-lo, a lei precisa ser reinterpretada ou abolida!

Alguém poderia objetar: mas o próprio Jesus disse que não veio abolir a lei, mas cumpri-la… Exato. Jesus cumpriu a lei mesmo a tendo desobedecido. Porque “o cumprimento da lei é o amor” (Rm 13:10). Não é a obediência cega que corresponde ao cumprimento da lei, mas a experiência do amor. Porque o espírito da lei é o amor. O espírito da lei de Deus é o cuidado, o respeito, a equidade, a compaixão, o bem comum. No episódio da mulher flagrada em adultério, Jesus descumpriu a letra da lei que mandava quem cometeu a falta, mas cumpriu o seu espírito defendendo a vida e o direito a uma nova oportunidade

Isso é graça: colocar o ser humano à frente da lei; amar o ser humano antes de julgá-lo; perdoá-lo antes de apedrejá-lo! A característica do legalismo é o amor à norma em detrimento do ser humano. A característica da graça é o amor ao ser humano em cumprimento ao verdadeiro espírito da norma. No momento em que perde o ser humano de vista e se torna um fim em si mesmo, a lei se torna também uma arma letal. A lei pela lei é morte! Ao invés de proteger, expõe; ao invés de curar, adoece; ao invés de ajuntar, espalha; ao invés de salvar, mata!!! Daí Paulo dizer: “a letra mata, mas o espírito vivifica” (2Co 3:6).

Talvez escandalize alguns, mas a graça é antropocêntrica – ela coloca o ser humano no centro da vida e da religião. A graça é o Evangelho centrado no ser humano. Jesus não morreu por um sistema doutrinário, por alguma confissão de fé ou código de moralidade; Jesus morreu por mim e por você. O ser humano e não a lei está no centro do Evangelho e da experiência da graça de Deus!!!

É exatamente isso que a segunda porção do texto afirma. Era sábado. Todos estavam reunidos na sinagoga em torno da Lei. Havia ali um homem doente, marginalizado por sua doença – porque naquele tempo os leprosos e aleijados eram tidos por malditos, por gente rejeitada por Deus. Jesus também está ali. Ele vê o homem e se compadece dele. As pessoas na sinagoga o observavam: será que ele irá novamente transgredir a lei do sábado e curar esse homem amaldiçoado? Sim, Jesus irá curar o homem. A primeira coisa que diz, virando-se para ele, é: “Levante-se e venha para o meio”!!! (3:3). Notem bem: todos ali estavam reunidos em torno da Lei. A lei ocupava o lugar central nas sinagogas. Mas Jesus diz: “vem para o meio” colocando a lei para escanteio. Ele faz isso porque a graça afirma a primazia do ser humano sobre a lei! Para algumas pessoas isso soa como blasfêmia ao invés de boa-notícia. Mas para quem tem se sentido quebrado, prostrado, cabisbaixo, culpado e rejeitado por Deus e o mundo, essa fala de Jesus é sim boa-notícia; é salvação!

Frequentemente, a verdadeira obediência a Deus implica colocar de lado a interpretação que os homens dão à lei, seja esta lei humana ou divina. Seguir a Jesus, em muitos momentos, corresponde a transgredir, desobedecer e se rebelar.