Graça e Lei (II)

A Lei divina nos foi dada como instrumento para proteger, orientar, e abençoar. Daí se conclui que o ser humano é a razão de ser da Lei e não o contrário. Como Jesus bem disse: “O Sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do Sábado” (Mc 2:27). Sempre, no entanto, que a Lei perde de vista essa finalidade e, ao invés de proteger, orientar e abençoar o ser humano, ela o oprime, acharca, mutila, diminui e aprisiona, faz-se necessário coloca-la em questão, revisa-la e até mesmo aboli-la. Não raro, para se cumprir o espírito da Lei de Deus é preciso transgredir sua letra ou romper com sua tradição interpretativa como Jesus fez tantas vezes.

Para Jesus estava claro, a lei de Deus é graça, é uma expressão do amor de Deus pelo ser humano. De outra parte, também estava claro para ele que a Lei pode tornar-se desgraça dependendo de como é entendida e aplicada. É isso que Paulo diz a Timóteo: Sabemos que a Lei é boa, se alguém a usa de maneira adequada. O problema é que, frequentemente, ela é usada de maneira inadequada (como vimos anteriormente). Daí que ela seja experienciada como maldição, muitas vezes, e não como bênção. Tal tem mais a ver com aqueles que a interpretam e aplicam do que com a lei em si mesma. Pois, como Paulo afirma de maneira assertiva: “a Lei é boa”. Alguém, no entanto, poderá perguntar a partir de nossa contemporânea antipatia por normas, regras e interdições: “Mas como a Lei pode ser boa se ela restringe a minha liberdade?”. A resposta é simples, apesar de paradoxal: é justamente porque limita a nossa liberdade que a Lei a protege e garante. Segundo a narrativa de Gênesis 2, quando criou todas as coisas, Deus deixou o ser humano livre no paraíso para viver como bem entendesse, mas colocou uma árvore no meio do Jardim e lhe disse: “desta árvore vocês não comerão, porque no dia em que dela comerem, vocês morrerão”. Em outras palavras, Deus lhe diz o seguinte: “Você é livre; tão livre que, se quiser, irá comer inclusive o fruto dessa árvore aqui. Eu não irei te impedir. Mas eu estabeleci uma lei para te demover dessa ideia, porque se fizer isso, você irá se destruir”. A Lei que Deus entregou ao ser humano não é de forma alguma arbitrária, autoritária nem castradora! Ela é, na realidade, cuidado, proteção, amor! Deus concedeu a Lei ao ser humano a fim de orientá-lo e protege-lo e assim tentar evitar que ele se autodestrua. Porque a liberdade ilimitada é autodestrutiva.

Imagine uma pessoa que resolva exercer a liberdade de comer ilimitadamente, sem jamais parar! Ou alguém que resolva exercer a liberdade de inspirar ilimitadamente, sem jamais expirar! O que acontecerá com ela? A vida pulsa. Ela expande e se contrai. O sol nasce e se põe. A inspiração precisa da expiração. A vigília precisa do sono. A comida precisa do jejum. A corrida precisa da linha de chegada. A liberdade precisa da lei. A lei não é fim da liberdade é a sua fronteira! Há uma lei natural, fisiológica, que me impede de inspirar sem jamais expirar. Essa mesma lei natural me impede também de fazer o contrário: expirar sem jamais inspirar. A Lei é a fronteira entre duas liberdades. Ninguém pode exercer a própria liberdade ilimitadamente porque, se assim fizer, irá ferir ou mesmo anular a liberdade de alguma outra pessoa. Para que a sua liberdade seja preservada, é preciso que a minha seja limitada! E vice-versa. Ou seja: a experiência da lei é inerente à experiência da liberdade. Ao contrário do que talvez pareça à primeira vista, a lei não ameaça a liberdade, ela a sustenta. É como as rodinhas auxiliares de uma bicicleta. Ela certamente limita as possibilidades que a criancinha (em tese) possui de fazer manobras e acrobacias; todavia, mantém a criancinha sobre a bicicleta exercendo a liberdade de pedalar. Sem as rodinhas, a criança é mais livre, sem dúvidas, porém o risco de queda é acentuadamente maior. E dependendo da maturidade da criança, fatalmente maior.

A questão, portanto, não se a lei é boa ou ruim! Ela é boa porque sustenta a liberdade. Ela nos mantém em pé. De outra parte, ela o faz colocando-nos certos limites – o que é inevitável. Em termos práticos, porém, a questão é outra, a saber: o quão flexíveis ou rígidos são os limites que a lei fixa e quem os determina. A lei é tão boa quanto mais justo é limite que ela estabelece entre duas ou mais liberdades. A Lei de Deus faz isso. Por isso ela é boa, é graça. De outra parte, se não faz isso, não é graça nem é de Deus. Uma lei unilateral, que garanta apenas a minha liberdade em detrimento da sua, não pode ser uma lei divina ainda que reivindique tal autoridade. Daí que precise urgentemente ser revista ou abandonada. A Lei de Deus estabelece o justo limite entre as liberdades. Porque o seu fundamento é a graça e a graça é o amor incondicional, irrestrito e irrevogável de Deus por todos e todas nós indiscriminadamente.

 

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O nascimento da alegria

 
 
Igor

 

“Ele será motivo de prazer e de alegria para você, e muitos se alegrarão por causa do nascimento dele” (Lc 1:14)

 

Não achei graça nenhuma quando 9 meses atrás Karine me contou meio entre os dentes que talvez estivesse grávida de novo; vale dizer: pela terceira vez. Nem foi tanto pela questão financeira, pois não considero realmente que dinheiro seja o fator determinante quando o assunto é planejamento familiar. No meu entender, ninguém jamais deveria condicionar o sonho da família a dinheiro, mas sim rever a forma como pensa, ganha e administra o dinheiro a fim de construir sua família.

Mesmo assim, conquanto no íntimo desejasse mais um rebento correndo pela casa, quase morri do coração com a notícia da possível gravidez, pois temia aquela ciranda incontrolável de noites em claro, fraldas sujas, esposa cheirando a leite e visitas freqüentes ao pediatra como é próprio do ritual de chegada de uma nova criança no pedaço.

Sinceramente, para mim, essa era a questão: o medo da mudança de ritmo que o nascimento de um filho impõe sobre a dinâmica cotidiana e familiar. Afinal, ter um bebêzinho em casa implica, dentre outras coisas, abandonar qualquer pretensão de se manter uma rotina ordenada onde as atividades obedecem uma lógica simples do tipo fazer-o-que-se-tem-de-fazer durante o dia e dormir durante a noite para, em lugar disso, abraçar um outro tipo de lógica: não dormir de noite, nem fazer-direito-o-que-se-tem-de-fazer durante o dia.

Foi temendo essa aceleração de minha já frenética rotina que havia decidido fazer uma vasectomia. Só que não deu tempo: Karine já estava mesmo grávida… graças a Deus! Pois ainda no quarto do hospital, ao pegar Igor nos braços pela primeira vez, experimentei pela terceira vez na vida a alegreia indizível de ter um bebezinho para amar e cuidar. É claro que esse gozo extraordinário não elimina o trabalho brutal que vem com ele e lhe é proporcional. Mas, o faz valer a pena. Com efeito, não há nada a que se possa comparar a alegria de carregar junto ao peito um pequenino que chega na vida da gente como um presente-surpresa de Deus.

Hoje, pouco mais de duas semanas após o nascimento de Igor, não consigo nem imaginar mais a vida sem sua meiga e frágil presença. Não sei se saberia dormir novamente sem o calor de seu pequenino corpo amarrado sobre o meu pelo edredon. Não sei como seria levar os meninos para o futebol sem antes nos despedirmos dele beijando-lhe a cabecinha. Não sei como seria não ter sua cadeirinha espremida entre as outras no banco de trás do carro. Enfim, Igor é metáfora e concretização do milagre do amor que lança fora o medo e enche nossa vida de regozijo e alvissareira alegria.

Paternidade e sacerdócio

 

Com a paternidade vem o privilégio do pastoreio dos filhos.

Quando hoje penso sobre a minha infância, lembro-me do meu pai como a principal referência espiritual que tinha. A imagem dele ajoelhado à beira da cama orando no início do dia me acompanha até hoje. Lembro-me com carinho e saudade dos cultos domésticos que ele conduzia e dos dias de jejum. Lembro-me também (como esquecer?) do bordão que ele repetia incansável ao longo dos rebeldes e turbulentos anos de minha adolescência: “A Bíblia ensina que os pais devem inculcar nos filhos a Palavra de Deus (Dt 6,7). Inculcar. Sabe o que isto significa? Significa repetir até entrar na cabeça”. Posso ainda ouví-lo com clareza. Meu pai era – e continua sendo – um homem temente a Deus. De tudo que me deu na vida, nada foi ou será mais precioso do que este exemplo.

Alguém talvez pudesse alegar que estou escrevendo estas coisas apenas porque hoje celebramos o dia dos pais. Ora, num certo sentido, isto é verdade. Mas, no fundo, estou escrevendo estas linhas porque não posso evitar de fazê-lo. Não posso me eximir de falar sobre um exemplo que marcou tão decisivamente a minha vida quando a minha volta cresce o número de homens cujo compromisso espiritual com seus filhos se resume em levá-los à igreja. São homens crentes que por necessidade ou conveniência “tercerizaram” a formação espiritual de seu filhos delegando-a à igreja ou deixando-a inteiramente a cargo das mães.  

Há um relato belíssimo no livro de Jó que revela o compromisso que este homem possuia com a vida espiritual de seus filhos: “[…] chamava Jó a seus filhos e os santificava; levantava-se de madrugada e oferecia holocaustos segundo o número de todos eles. Assim fazia Jó continuamente” (Jó 1,5). Como fica claro por esta passagem, na antigüidade, era dever do homem cuidar da vida espiritual de sua esposa e seus filhos ensinando-lhes as tradições familiares e a vida piedosa. O pai era assim a referência e a autoridade espiritual de toda a família. Ele era o sacerdote, o pastor de seus filhos e de toda sua casa. Portanto, esta compreensão atual da figura do pastor da igreja como o primeiro responsável pela formação espiritual das crianças e adolescentes da comunidade de fé é equivocada.

Não creio que estas noções sejam desconhecidas da maioria. Todavia, com freqüência, não as vemos em exercício nos lares cristãos por aí. É uma pena. Pois o exercício da paternidade constitui a principal oportunidade que Deus nos dá de nos transformarmos em pessoas melhores. Todos sabemos: educar consiste em encarnar o ensino que se busca transmitir a fim de que nossas palavras ganhem textura e longevidade nas vidas de nossos filhinhos. Como diz o famoso provérbio: “Ensina a criança no caminho em que deve andar e ainda quando for velho não se desviará dele”. Não se trata de mostrar o caminho, de indicá-lo, mas de trilhá-lo ao lado do seu filho. Ser a educação que se quer passar.

Aqui reside a oportunidade de transformação que a paternidade representa. Pois para ser exemplo para o meu filho, preciso primeiro mudar. E se a saúde espiritual do meu filho não for motivação suficiente para que eu busque em Deus esta transformação, o que será?

Que neste dia dos pais cada homem a quem foi dado o privilégio e a bênção da paternidade possa se voltar para o exemplo do meu pai – José Marques – e de tantos outros como ele para se inspirar e encontrar um norte para o qual possa seguir alegre e cheio de esperança.

Feliz Dia dos Pais.