Graça e Lei (I)

Quem nunca descumpriu uma norma, quebrou uma regra, infringiu alguma lei? Davi, certa vez, comeu os pães da Presença que eram consagrados a Deus e que, segundo Levíticos 24, somente poderiam ser comidos pelos sacerdotes. Quem evocou a memória deste episódio foi Jesus que fora interpelado pelos fariseus em razão de os seus discípulos estarem colhendo espigas no campo em dia de sábado – o que era proibido. O interessante no texto é que Jesus defende os discípulos citando a experiência de Davi. Ele justifica um erro com outro!

O raciocínio foi o seguinte: “Se, em essência, a transgressão dos discípulos foi a mesma de Davi, por que, no caso de Davi, isso não foi motivo de alarde, mas no caso dos discípulos sim?”. Os fariseus se calaram. Sabiam que, quando convinha, eles engoliam um camelo inteiro sem mastigar, mas quando não convinha, eles coavam o mais insignificantes dos mosquitos.

Jesus, no entanto, age diferente. Para ele o que está em jogo não é o interesse de A ou B, mas a finalidade da lei de Deus que é o bem-estar humano, a defesa e a promoção da vida. Daí que ele tenha ignorado tanto a letra da lei do sábado quanto sua interpretação dominante. Pois ambas refletiam a grave inversão que a lei sofrera tornando-se algo em si mesmo em detrimento do ser humano ao qual deveria servir e abençoar. Daí Jesus vaticinar: “O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado” (2:27). Para ele, o ser humano é maior que o sábado! A vida humana é mais importante que a lei e seu cumprimento ao pé da letra. Decorre daí que, quando deixa de beneficiá-lo e passa a oprimi-lo, a lei precisa ser reinterpretada ou abolida!

Alguém poderia objetar: mas o próprio Jesus disse que não veio abolir a lei, mas cumpri-la… Exato. Jesus cumpriu a lei mesmo a tendo desobedecido. Porque “o cumprimento da lei é o amor” (Rm 13:10). Não é a obediência cega que corresponde ao cumprimento da lei, mas a experiência do amor. Porque o espírito da lei é o amor. O espírito da lei de Deus é o cuidado, o respeito, a equidade, a compaixão, o bem comum. No episódio da mulher flagrada em adultério, Jesus descumpriu a letra da lei que mandava quem cometeu a falta, mas cumpriu o seu espírito defendendo a vida e o direito a uma nova oportunidade

Isso é graça: colocar o ser humano à frente da lei; amar o ser humano antes de julgá-lo; perdoá-lo antes de apedrejá-lo! A característica do legalismo é o amor à norma em detrimento do ser humano. A característica da graça é o amor ao ser humano em cumprimento ao verdadeiro espírito da norma. No momento em que perde o ser humano de vista e se torna um fim em si mesmo, a lei se torna também uma arma letal. A lei pela lei é morte! Ao invés de proteger, expõe; ao invés de curar, adoece; ao invés de ajuntar, espalha; ao invés de salvar, mata!!! Daí Paulo dizer: “a letra mata, mas o espírito vivifica” (2Co 3:6).

Talvez escandalize alguns, mas a graça é antropocêntrica – ela coloca o ser humano no centro da vida e da religião. A graça é o Evangelho centrado no ser humano. Jesus não morreu por um sistema doutrinário, por alguma confissão de fé ou código de moralidade; Jesus morreu por mim e por você. O ser humano e não a lei está no centro do Evangelho e da experiência da graça de Deus!!!

É exatamente isso que a segunda porção do texto afirma. Era sábado. Todos estavam reunidos na sinagoga em torno da Lei. Havia ali um homem doente, marginalizado por sua doença – porque naquele tempo os leprosos e aleijados eram tidos por malditos, por gente rejeitada por Deus. Jesus também está ali. Ele vê o homem e se compadece dele. As pessoas na sinagoga o observavam: será que ele irá novamente transgredir a lei do sábado e curar esse homem amaldiçoado? Sim, Jesus irá curar o homem. A primeira coisa que diz, virando-se para ele, é: “Levante-se e venha para o meio”!!! (3:3). Notem bem: todos ali estavam reunidos em torno da Lei. A lei ocupava o lugar central nas sinagogas. Mas Jesus diz: “vem para o meio” colocando a lei para escanteio. Ele faz isso porque a graça afirma a primazia do ser humano sobre a lei! Para algumas pessoas isso soa como blasfêmia ao invés de boa-notícia. Mas para quem tem se sentido quebrado, prostrado, cabisbaixo, culpado e rejeitado por Deus e o mundo, essa fala de Jesus é sim boa-notícia; é salvação!

Frequentemente, a verdadeira obediência a Deus implica colocar de lado a interpretação que os homens dão à lei, seja esta lei humana ou divina. Seguir a Jesus, em muitos momentos, corresponde a transgredir, desobedecer e se rebelar.

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Consumismo religioso

Consumidor insatisfeito: “O culto não me acrescentou nada”

“Ele mostrou a você, ó homem, o que é bom e o que o Senhor exige: pratique a justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com o seu Deus” (Mq 6:8)

O consumismo é um fenômeno recente. Surgiu nas primeiras décadas do séc. XX. Antes disso, como bem apontou Max Weber, a lógica que regia a mentalidade das pessoas com relação ao dinheiro e aos hábitos de consumo era a lógica calvinista da poupança orientada pelo princípio da necessidade. Foi o advento da (1) produção em larga escala, da (2) propaganda e do (3) crédito, entre os anos de 1920 a 1940, que combinados levaram as pessoas a substituírem aquela lógica austera por uma outra de corte mais hedonista orientada pelo princípio do prazer, do bem-estar. Compra-se a partir de agora, não mais para suprir uma necessidade, mas pelo prazer de comprar, pelo bem-estar resultante da experiência da compra.

Consumir é uma necessidade. Não é algo ruim em si ou pecaminoso. Ao contrário: movimenta a economia, gera empregos, cria riqueza… Não há nada moralmente condenável em consumir. O perigo está no que hoje se tem chamado de hiperconsumo. É o comprar frenético, compulsivo, desconectado do princípio da necessidade e do bom senso. É o consumo como meio de obter satisfação e sentido para a vida. Eis aqui a diferença entre o consumidor e o consumista: aquele consome visando suprir uma necessidade objetiva, este visando resolver uma demanda subjetiva.

Este ponto precisa estar claro: o consumista não está em busca de adquirir um bem que lhe falta e faz falta, mas da satisfação de adquirí-lo. A evidência disso é que ele compra inclusive o que não precisa e, via de regra, também o que sua condição financeira não lhe permitiria. Daí que viva sempre endividado. E entediado. Pois a satisfação advinda do consumo, embora real, é fugaz e passageira exigindo sempre novas e sucessivas doses. O consumismo é um vício.

O mais grave em tudo isto, porém, é o fato de o consumismo constituir uma lógica e, como tal,  transferir-se para outras esferas da vida. Ninguém se engane: o indivíduo consumista não consome apenas bens materiais e mercadorias. Ele consome tudo: cultura, informação, relacionamentos, lazer, moradia, tecnologia, saúde, beleza, sexo, bem-estar e até religião.

O Israel dos dias do profeta Miquéias (Mq 6) é um belo exemplo disto. Ele cria poder comprar o favor divino com sacrifícios e holocaustos (v.6-7) enquanto vivia de maneira leviana, distante de qualquer compromisso de ordem moral e ética. Este é o grande problema de nos tornarmos consumidores religiosos: perdemos de vista a exigência de transformação inerente a toda genuína experiência religiosa. E passamos a consumir sermões, estudos bíblicos, louvores, reuniões de oração, doutrinas, retiros, etc., sem que essas coisas nos afetem, nos ajudem no processo de nos tornarmos pessoas diferentes, mais humanas.

Não obstante a atitude do povo, Deus deixara muito claro o que dele esperava (v.8): que (1) praticassem a justiça, (2) amessem a fidelidade e (3) andessem humildemente com Deus. Como a lógica do consumismo religioso perverteu a compreensão dessas exigências na espiritualidade de Israel? Como ela perverte tais exigências em nossa espiritualidade ainda hoje?

Primeiramente, a mentalidade consumista leva a pessoa de fé a identificar a exigência de praticar a justiça com o cumprir prescrições e ritos religiosos (v.3-5). Infelizmente, Israel conheceu isso. Nos dias do profeta Miquéias, o povo de Deus veio a acreditar que sacrificar carneiros e bezerrros era o mesmo que fazer o bem, que fazer valer o direito do orfão e da viúva, do pobre e da terra. Ele passou a crer que consumir rituais e freqüentar o templo equivalia a fazer a vontade de Deus, a ser justo diante de seus olhos. Esse é um grave desvio que a lógica do consumo provoca na experiência religiosa. Ele altera o quadro hermenêutico a partir do qual interpretamos a exigência ética de transformação social e política privatizando e espiritualizando a fé. Teria nossa clássica apatia e indiferença com relação a essas dimensões da vida algo a ver com isso? Cabe perguntar: não é assim que a maioria de nós evangélicos entende as célebres palavras de Jesus sobre a primordialidade do Reino: “Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas as coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6:33)? Não é verdade que compreendemos tal exigência em termos de leitura disciplinada da bíblia, vida de oração e freqüência assídua aos cultos? Não é assim que garantimos que “todas as coisas” nos sejam acrescentadas? Não estaríamos nós também contaminados por essa lógica consumista? Será que nos tornamos também consumidores de religião?

Em segundo lugar, a lógica do consumo distorce a vida de fé produzindo uma negligência em relação à exigência divina de fidelidade dando ensejo, por conseguinte, a idolatria (v.16). Ao contrário da religiosidade saudável que se compromete com Deus porque o ama, porque desejo contentá-lo e fazê-lo somente para ele, o consumismo religioso é volúvel e mesmo infiel. A causa disso é óbvia: o consumidor religioso não constrói uma relação de amor com Deus, mas de utilidade. Se, portanto, existe uma outra divindade que melhor me serve, então por que não me voltar para ela? Assim operava a espiritualidade de Israel que, a semelhança do que houve nos dias do profeta Elias, ainda vivia flertando com Baal, cocheando entre ele e Iavé, o Senhor. Em nosso caso hoje, a divindade que mais nos seduz é Mamon. E o problema não se restrige apenas aos tele-evangelistas que descaradamente mercadejam o Evangelho vendendo novas formas de indulgências, mas a toda a igreja no país que se vê às voltas com o seguinte dilema: “temos usado nossas riquezas para servir a Deus ou temos usado Deus para enriquecermos?”.  O Senhor tenha misericórdia de nós.

Finalmente, a lógica do consumo perverte a experiência religiosa provocando uma terrível inversão: ao invés de nos tornar mais humildes, nos torna arrogantes em relação a Deus (v.1-3). Lendo o oráculo proferido pelo profeta Miquéias, constamos que o povo estava reclamando de Deus pois acreditava ter direito a melhor sorte a despeito de seus maus caminhos. Sem sombra de dúvida, tal atitude nasce da crença, segundo a lógica consumista, de que o consumidor tem sempre razão, detém toda autoridade e, por isso, encontra-se em lugar de fazer exigências. Cumpria a Deus, reduzido ali a figura de um balconista obediente, atender-lhes os desejos. Deus então os confronta solenimente colocando as coisas em seus devidos lugares e pedindo do povo explicações: “Ouçam o que diz o Senhor: Fique em pé, defenda a sua causa; que as colinas ouçam o que você tem para dizer. Ouçam, ó montes, a acusação do Senhor; escutem, alicerces eternos da terra. Pois o Senhor tem uma acusação contra o seu povo; ele está entrando em juízo contra Israel”. O que o Senhor diria para nós se hoje nos chamasse a sua presença? Será que teria de nos recordar da verdade proferida pelo pregador de Eclesiastes: “Deus está nos céus, e você está na terra, por isso, fale pouco”? Ou, colocando a questão de outro modo: o que nós mereceríamos ouvir dos lábios do Senhor?

O critério definitivo para responder essa pergunta é o mesmo que nos ajudará a discernir se nos mantemos ligados a Deus através de uma relação de adoração e serviço ou se em virtude de uma relação de consumo. Toda essa movimentação, esse ir e vir a igreja, esse monte de retiros e encontros e seminários, as muitas vígilias e reuniões, os livros lidos e os sermões ouvidos tem nos transformado em gente cheia de Deus? Tem efetivamente contribuído para nos fazer pessoas mais humanas? Gente mais cheia de amor, de compaixão, de indignação perante a injustiça e solidariedade para com o necessitado? Ou nos tornamos apenas consumidores de religião?

Essa pergunta, cabe a cada um responder.