O grande segredo

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“O vento sopra onde quer. Você o escuta, mas não pode dizer de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todos os nascidos do Espírito” (João 3:8)

A vida surpreende. Nós imaginamos que algo irá acontecer, esperamos que aconteça, chegamos a contar e dar como certo que acontecerá e, muitas vezes, ficamos frustrados. Outras vezes, quando menos esperamos, quando não nutrimos qualquer expectativa, quando sequer estamos pensando a respeito, vemos nascer, como um presente para nós, aquilo que desejávamos silenciosamente sem que sequer nos tivéssemos permitido admitir.

Quais eram as suas expectativas na virada de 2017 para 2018, se alguma? Elas se concretizaram? Do jeito que você esperava ou de um outro jeito? Além ou aquém do imaginado e desejado por você? E aí? Sua vida acabou? Foi o fim do mundo? Você chegou lá? Atingiu a felicidade?

Algumas culturas e tradições religiosas do Oriente afirmam que na raiz de todo sofrimento estão as nossas expectativas. Sofremos porque sonhamos, idealizamos, fazemos planos, enfim, desejamos e esperamos algo da vida. Sofremos porque vivemos mais no futuro que no presente, mais na fantasia que no mundo da vida de cada dia. O segredo então reside em não-desejar, não-sonhar, nada esperar. Ocupar-se do hoje, do aqui e agora somente.

O ocidente cristão ensina justamente o contrário: o sofrimento é consequência da ausência de desejo, da falta de expectativas. O segredo, neste caso, é olhar adiante, além, na direção do futuro que ainda não existe e, por meio da fé e do trabalho, se apropriar dele, cria-lo. É preciso sonhar, fazer planos e esforçar-se por realiza-los. O desejo é o que nos move na aventura de nos tornarmos o queremos e podemos ser. Se sofremos é por falta de futuro, de fantasia, enfim, de amanhã. Quem tem razão?

Os dois e nenhum dos dois. Porque não se permitir desejar e sonhar e fazer planos por medo de se frustrar e sofrer é, de certa maneira, furtar-se de viver. Pode facilmente ser também uma forma de covardia. O sofrimento é inerente à vida. Só os mortos não sofrem. Os vivos conhecem aflições: aspiram por mais, suspiram, lutam e… sofrem. A vida não se resolve de todo. O sofrimento é, grande medida, inevitável. A única forma de não sofrer é não viver. Mas qual é o ponto de estar vivo e não viver?

De outra parte, desejar e sonhar e fazer planos pode ser também uma forma de covardia, de fugir da vida ao invés de conquista-la. É bonito no discurso, mas ocupar-se do amanhã pode ser apenas um modo de se desvencilhar do cotidiano, do hoje, do aqui e agora. Encarar o presente de frente é duro. Há que se lidar com a dor de não sermos o que gostaríamos e de sermos o que preferiríamos não ser. É bem mais fácil escapar para o futuro, para a fantasia. É claro, neste caso, que não é propriamente o sonho, o desejo, o que queremos e esperamos da vida que faz com que nos ocupemos do futuro, mas o medo de viver – e sofrer – o presente. Negar o futuro e refugiar-se nele são assim duas formas eficazes de evitar o sofrimento. Mas também de não viver realmente. Vale a pena?

Em contrapartida, negar o futuro ou refugiar-se nele pode ser justamente o segredo para viver. É absolutamente paradoxal, sem dúvida. Mas negar o futuro nada desejando, sonhando e planejando pode ser também uma forma de apropriação da vida. Não porque assim erradicamos o sofrimento de nossa experiência, o que de todo é impossível, mas porque nos tornamos tão mais presentes no presente, que descobrimos o instante. E não-raro, a despeito de dores e lutas, o instante é belo, faz sentido, e se estende por um tempo que o cronômetro não mede e o dicionário não sabe explicar. Trata-se de renunciar ao lá-mais-adiante para conquistar o aqui-e-agora onde a vida está acontecendo.

Inversamente, refugiar-se no futuro ocupando-se de sonhos e planos pode também ser fonte de vida. Pois embora maravilhoso de muitas formas e potencialmente infinito num instante, o presente é também precário, posto que transitório e impermanente. Ele simultaneamente é e está deixando de ser. É impossível banhar-se duas vezes no mesmo rio, dizia Heráclito. Por que então não buscar hoje aquilo que pode fazer o presente de amanhã um pouco mais rico? Assim, ocupando-nos do futuro, podemos construir o presente de amanhã e desse modo aprofundar, ampliar, expandir a experiência do presente que conhecemos hoje.

Ora, Oriente e Ocidente estão equivocados e com a razão. O segredo de viver reside na insólita constatação que não há um segredo para viver; não há uma receita certa, uma fórmula mágica, um mapa do tesouro. A vida acontece. E surpreende. Às vezes nos alegra, outras vezes nos frustra. Algumas vezes nos presenteia generosamente, outras, nos aborrece terrivelmente. Nós rimos e choramos, erramos e acertamos. Desejar é totalmente necessário e não-desejar é também. O mesmo é verdade com respeito ao sonho e aos planos e aos esforços derivados deles.

Não fiz nenhuma resolução de ano novo. Apenas entreguei minha vida nas mãos de Deus. Não faço ideia do que 2019 reserva. Há profetas do caos e da redenção. A quem ouvir? Sinceramente, não quero ouvir profetas. Quero a voz de Deus soprando aos meus ouvidos o caminho a seguir.

O segredo da vida é viver. Viver de peito aberto e com coragem, com fé e ousadia. Não estamos sós. Deus é conosco. Seu espírito nos guiará se o permitirmos.

Vamos com tudo em 2019. Um ano de experimentações, de ensaios e erros e acertos, de alegrias e lutas, enfim, de vida, muita vida para você.

Feliz ano novo.

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A ressurreição e o ano novo

A ressurreição nos abre o futuro de Deus

É certo pensar que o conjunto de nossas experiências passadas nos diz muito acerca de quem somos e do porquê hoje nos encontramos neste ponto de nossas vidas. Importa esclarecer, todavia, que não é tanto o passado que determina o caminho de nosso existir no mundo, mas sim o futuro. Na realidade, o que queremos ser no futuro tem maior influência sobre nossas vidas do que aquilo que somos hoje ou já fomos um dia. Isto nos sugere as Escrituras quando afirmam “o justo viverá por fé”.

Viver por fé, com efeito, significa viver a partir de uma realidade que não possuímos, de algo que ainda não nos pertence, que nos foge ao tato, mas que nos convida a caminhar. Viver por fé significa, assim, viver seduzido por uma esperança, por uma promessa, por um desejo de chegar. A vida inteira projetada num único suspiro.

Segundo afirmação da teologia cristã, o suspiro profundo do coração humano é contemplar o rosto de Deus: vê-lo como somos vistos. Esta é nossa fome básica, nosso anseio fundamental. Vivemos, de fato, ainda que inconscientemente, em busca de sua face. Sim, vivemos em busca de Deus, fonte e destino da vida! Por trás de todos os nossos projetos, de todos os nossos amores, de todos os nossos desejos de consumo, de todas as nossas lágrimas, e mesmo por trás de toda nossa luta neste  mundo de contradições, subsiste um impulso incontrolável por  encontrá-lo. Fora  dele,  que  sentido  tem  a  vida? Fora dele, há vida? Por isto o queremos tanto: desejamos viver, viver para sempre. Desejamos viver de forma abundante, plena, como a ressurreição nos permitirá.

Infelizmente, falamos pouco sobre o tema da ressurreição. Isto porque quase não falamos sobre um outro tema de importância igualmente capital: a cruz. Esquecemo-nos, assim, sem mais, do clímax da história, do acontecimento único no tempo que nos abriu futuro e a eternidade: em um homem pobre e simples, Deus mesmo passou entre nós levando consigo a chave da morte vencida na cruz e na ressurreição. Com base nisto confessamos: não existe mais morte e vida, mas somente vida e ressurreição. Em Jesus, a vida não terá um fim, mas um futuro. Quando perdemos isto de vista, tudo a nossa volta cheira a mofo e perde a cor. Com efeito, a fé na cruz-ressurreição de Jesus nos permite, já agora em vida, ressurgir, nascer de novo, tentar outra vez. Pouco importam as frustrações e fracassos de outrora. Ele fez – e faz – novas todas as coisas. Crer em Jesus Cristo implica viver em constante renovação de vida.

Concretamente, isto quer dizer que a pessoa que eu hoje sou não é simplesmente o resultado dos passos de um tempo que ficou para trás, mas é, sobretudo, misericórdia e graça do senhor que me permitiu chegar até aqui e agora me convida a fazer diferente. Hoje é, portanto, oportunidade e kairós de Deus para mim. A fé na cruz-ressurreição me convida a sonhar, a caminhar em uma nova direção. Agora sei onde posso chegar, e por isso saberei escolher o caminho. Não é o passado, afinal, que me dirá para onde estou indo, mas o futuro aberto e garantido pela cruz-ressurreição de Cristo.

Que neste novo ano nós possamos ressuscitar muitas vezes e nascer sempre outra vez para vida que Deus tem para nós. Que, ao lado disto, nos sejam concedidos novos sonhos que nos animem a seguir em frente. E, finalmente, que nossa alma transborde de alegria. Feliz ano novo!

Vida nova, ano novo

 

“Se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Coríntios 5:17)

Assim reza o ditado popular: ano novo, vida nova. Há, sem dúvida, enorme sabedoria nestas palavras. Afinal, simbolicamente, a virada do calendário representa para todos nós a sempre bem-vinda oportunidade de nos redimirmos das faltas cometidas ao longo do ano que se foi. Mas é isso que acontece mesmo?

Ano novo não é garantia de vida nova. Se no nível simbólico a virada de um ano para outro representa a possibilidade de reinventarmos nossas vidas, no nível concreto da experiência cotidiana, é a novidade de vida que nos abre a possibilidade de um ano de fato novo. Sim, é a transformação da vida interior que enseja o ano realmente novo, diferente, outro em relação ao ano que ficou para trás. Pois quando a vida não muda, quando não há novidade na atitude diante dela, na forma de se relacionar com ela, o novo ano que se desdobra diante de nós acaba não passando de um decepcionante deja-vú. Ora, a virada do calendário não pode fazer muito mais do que recordar-nos da urgente necessidade de buscarmos esta mudança primeira, anterior, interior, esta novidade de vida sem a qual a melancólica sentença do pregador de Eclesiastes se impõe sobre nós de modo inexorável: “O que tem sido, isso é o que há de ser; e o que se tem feito, isso se tornará a fazer; nada há que seja novo debaixo do sol” (Ec 1:9). 

Escrevendo aos crentes da cidade de Corinto, o apóstolo Paulo revela o segredo bendito que realiza tal transformação interior: “se alguém está em Cristo”, ele diz, “é nova criatura”. Note que ele não diz “se Cristo está em alguém”, pois esta realidade está dada. Cristo, por meio de seu Espírito que foi derramado no dia de Pentecostes, habita em todos nós, suas criaturas e filhos por adoção. Sim, ele vive nos corações de todos os homens e todas as mulheres. A pergunta – e realidade a qual o apóstolo se refere – é: estamos nós em Cristo? Pois é quando estamos nele, assim como ele está em nós, que a transubstanciação da vida se dá. É quando acolhemos sua presença em nós assim como a terra recebe e absorve as águas das chuvas, que o milagre acontece: a vida muda de dentro para fora e floresce distinta e bela; numa palavra: nova.

Com efeito, Cristo está em nós, somos santuário e morada de seu Espírito e sua presença misteriosa e sublime em nossas vidas torna-nos aptos ao amor, ao trabalho, à oração, à comunhão, à solidariedade, ao arrependimento e às demais experiências desta singular aventura que é a vida. Mas é nossa presença nele, nossa abertura e sujeição ao agir de seu Espírito, nossa imersão no mistério de sua pessoa que nos permite experienciar o conhecido, o ordinário, o corriqueiro da vida como algo revestido de novidade. Quanto mais nossa vida está contida na vida de Cristo, quanto mais habitamos e existimos nele e por ele, tanto mais novidade há em nosso viver, pois em Cristo e por meio dele tudo se transfigura e se faz novo. Mesmo a velha rotina se reveste de uma renovada beleza, de uma transcendência inédita e surpreendente.

Enfim, não é a chegada do ano novo que garante a vida nova, mas a vida nova em Cristo que nos assegura um ano de fato novo. Pois a novidade não reside na substituição de certas experiências por outras, mas na maneira como cada experiência é vivida e significada. Para quem está em Cristo – e é nova criatura nele –, tudo é, de alguma maneira, sempre novo. Feliz 2016!