Graça, liberdade e obediência

O exercício da liberdade decorrente da graça requer limites. Pois uma liberdade irrestrita inevitavelmente ferirá outras liberdades ou, mais precisamente, a liberdade de outras pessoas. A fim de marcar a fronteira entre a minha liberdade e a liberdade alheia – e desse modo preservar ambas as liberdades -, Deus nos concedeu a sua Lei.

Mas a experiência deste bendito limite pode ser vivida de duas maneiras: como autonomia ou como escravidão. Paulo discute essa questão no capítulo 6 da carta aos Romanos. O que ele diz, em outras palavras, é o seguinte:

“Deus ama vocês incondicionalmente! Não há nada que vocês possam fazer para Deus amar mais vocês; nem há nada que vocês possam fazer para Deus amar menos vocês. Logo, vocês são livres para fazerem ou deixarem de fazer o que quiserem. Como então vocês usarão toda essa liberdade? Sairão por aí barbarizando, dando vasão a todas as paixões e compulsões, a todos os desejos e impulsos sem qualquer limite? Claro que não! Viver sem limites não é viver livremente, mas é viver como escravo. Pois quem vive sem qualquer limite, no fundo, está abrindo mão da própria liberdade. Viver livremente implica viver responsavelmente, isto é, supõe escolher, decidir e abraçar ou não determinada possibilidade! Quem não escolhe, não é livre! Se vocês são governados por paixões e impulsos, e já não conseguem conter nem dominá-los, vocês já não são mais livres, mas tornaram-se escravos novamente”.

Para o apóstolo Paulo, a graça nos liberta para uma escolha fundamental: uma vida segundo Deus ou segundo nossas próprias inclinações. É autoevidente que isso não significa que gozar e sentir prazer na vida sejam coisas reprováveis, mas vivermos sujeitos a este único registro é insustentável. Faz-se necessário limitar essa liberdade, conter em alguma medida essas inclinações. E a obediência à lei de Deus nos possibilita isso. Mas para realmente atingir o objetivo de preservar a nossa liberdade respeitando a liberdade dos outros, a obediência à lei de Deus precisa ser uma escolha (autonomia). Porque se for uma imposição (ou mesmo uma autoimposição violenta), o tiro sai pela culatra e caímos na armadilha do legalismo.

O legalismo que Jesus tanto criticou e denunciou é a obediência à lei de Deus que ao invés de nascer do amor que escolhe a vontade de Deus, nasce do medo do castigo divino ou na ideia de recompensa (se eu obedecer a Deus, ele irá me premiar com seu amor e com as suas bênçãos; então eu vou me submeter a sua Lei mesmo não desejando fazê-lo). Quando cumprida desta forma, a Lei de Deus é experienciada de forma impessoal, como norma dura e fria, um fardo pesado, um jugo opressor que massacra, apequena, adoece e mata o ser humano e o amor dele por Deus. O legalismo não é um remédio contra o mal-uso da liberdade (libertinagem), mas é outra forma de mal-uso da liberdade, pois nada tem a ver com amor a Deus.

A fim de alertar os irmãos e irmãs de Roma contra o perigo do legalismo, Paulo fala em “obedecer de coração” (v.17) querendo dizer com isso que a verdadeira obediência nasce da autonomia, isto é, da decisão livre de se fazer servo, de se submeter a uma regra de vida, uma disciplina (que, como bem disse Renato Russo, é liberdade).

Paulo prossegue com seu raciocínio para dizer que o fruto de uma vida de livre e obediente é a santidade que é sinal da vida abundante, da vida eterna vivida aqui e agora. A santidade nasce de um coração obediente que escolheu disciplinar-se a partir da Lei de Deus a fim de preservar a própria liberdade e respeitar a liberdade do outro. E tudo isso faz por amor a Deus, ao próximo e a si mesmo. A obediência a Deus livremente assumida é a forma mais profunda e genuína de liberdade possível.

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Graça, liberdade e responsabilidade

Até 1997, no Brasil, a obrigatoriedade do uso do cinto de segurança restringia-se às estradas e rodovias. Nas demais vias públicas, tanto o motorista quanto os passageiros tinham a liberdade de usá-lo ou não! O motivo preponderante para a mudança da legislação foi a incrível disparidade dos índices de mortalidade entre as vítimas arremessadas para fora dos carros e aquelas que, de algum modo, permaneciam dentro dos veículos nos acidentes. Embora a lei tenha por objetivo proteger a vida e a liberdade de ir e vir das pessoas, muitos resistem a usar o cinto queixando-se que o mesmo limita a liberdade de movimentos no interior dos automóveis.

A lei de Deus funciona como um cinto de segurança. Ela impõe limites à nossa liberdade, mas ao fazê-lo, a protege (e nos protege também). Gn 3 ilustra de maneira emblemática essa realidade: Deus criou o ser humano livre e o colocou num jardim maravilhoso onde homem e mulher poderiam viver como desejassem. Tudo lhes era permitido, exceto comer o fruto da árvore no meio do jardim porque, se assim eles fizessem, morreriam. É paradoxal realmente: a lei de Deus protege a nossa liberdade limitando-a! E por que esse limite se faz necessário? Porque o exercício irrestrito da liberdade é autodestrutivo! Liberdade sem limites é morte.

Nós somos livres para comer ou beber ou ficarmos sem dormir ilimitadamente, mas se o fizermos, iremos nos autodestruir. A liberdade precisa do limite, pois é o limite que a torna saudável, sustentável e mesmo possível. Mesmo Deus, que é absolutamente livre, livremente se impôs um limite ao nos criar. Pois ao nos criar livres como Ele próprio, Deus prescindiu de algo de sua própria liberdade. Por isso Deus não nos impede de exercer nossa liberdade mesmo quando contraria a vontade dele. Deus não impediu Adão e Eva de comerem do fruto proibido. Ele os advertiu, os exortou, os proibiu, mas não os impediu de ir lá na árvore no meio do jardim (mesmo contra sua vontade e ordem), pegar o fruto e comer!!! Tanto é assim que eles comeram…

Cabe aqui perguntar: por que Deus permite que nós descumpramos sua Lei, que façamos aquilo que contraria sua própria vontade para nós que, como afirma o apóstolo Paulo, é boa, perfeita e agradável? A resposta é simples: porque Deus leva muito à sério a liberdade humana. Deus não nos quer presos a ele, reféns de sua vontade. Ao contrário. Ele nos deseja livres porque somente se formos livres para caminharmos para longe Dele e de sua vontade, seremos também livres para escolhermos estar perto Dele e obedecermos aos seus mandamentos. Isso é graça: amor que não se impõe, mas se expõe ao risco de ser rejeitado!!!

Contudo, é importante frisar, a liberdade não é a única filha da graça; ela tem uma irmã gêmea que se chama responsabilidade. Toda ação produz uma reação. Toda escolha é uma fecundação: produzirá filhos que não poderão ser desamparados. O ser humano escolheu comer o fruto proibido! Ok, Deus respeita a liberdade humana. Mas ele agora terá de responsabilizar-se pelas consequências. O exercício da liberdade querer responsabilidade! Mais liberdade corresponde a mais responsabilidade! E vice-versa: Menos liberdade corresponde a menos responsabilidade!

Neste ponto residem muitos de nossos problemas. Pois em geral nós queremos ser livres, mas não queremos ser responsáveis!!! Adão comeu do fruto proibido, mas tentou isentar-se da responsabilidade lançando-a sobre Eva. Eva, por sua vez, lançou a responsabilidade sobre a serpente visando lavar as próprias mãos. Mas Deus leva à sério demais a liberdade humana para nos eximir da responsabilidade por nossas escolhas. Quem quer ser livre tem de estar pronto para ser responsável! Pois onde há verdadeira liberdade, não há vítimas! Se livremente eu escolhi o meu caminho, então sou o único responsável por ter chegado onde cheguei. Ou por não ter chegado a lugar nenhum… Não posso culpar os outros pela estado em que minha vida se encontra. Pois ninguém faz nada comigo que eu não permita. Se as coisas estão como estão é porque, em alguma medida, eu consenti!!! No mínimo, eu sou co-responsável.

Assumir a responsabilidade por nossas escolhas é o ônus da liberdade. Daí que muitos optem por agir como os gálatas que abdicaram de ser livres para não terem de se responsabilizar pelas próprias escolhas. Adão e Eva, no entanto, fizeram uso da liberdade concedida por Deus, logo, não poderiam ser eximidos por Deus de arcar com a responsabilidade. A graça nos concede ampla liberdade, mas requer de nós igual responsabilidade. Por isso o ser humano foi expulso do Paraíso (o que não significa que Deus o tenha abandonado, porque a graça segue com a gente até o fim, não recua jamais, e nos ajuda a lidar com as consequências de nossas escolhas equivocadas). O Evangelho da Graça é um convite à vida livre e responsável baseada no amor incondicional, irrestrito e irrevogável de Deus por nós que nos deu a sua Lei para nos proteger e orientar. Contudo, obedecer ou não a Lei, é algo que compete a cada um escolher assim como a cada motorista e cada passageiro compete também decidir se irá acatar ou não a Lei e viajar usando o cinto de segurança.

 

 

Graça, Lei e Liberdade

Não se deixem enganar: de Deus não se zomba. O que o homem semear, isso também colherá” (Gálatas 6:7)

Um amigo certa vez me contou que havia plantado sementes de maçã em seu quintal onde, tempos depois, crescera uma pereira. Naturalmente, eu não acreditei na estória, apesar da insistência dele. Todos sabemos que não há como alguém plantar sementes de um tipo de árvore e obter como resultado uma árvore de tipo diferente. Assim acontece também com nossas escolhas, diz-nos o apóstolo Paulo. Escolher é dar à luz um futuro e os filhos sempre carregam o DNA de seus pais. Todas as nossas escolhas se desdobram em consequências que lhe são correspondentes. Daí que aquele que plantar maçãs, colherá maçãs. Quem quiser colher peras, terá de plantar peras. Segundo o apóstolo, afirmar qualquer coisa diferente disso é zombar de Deus.

É importante observarmos que Paulo faz essa afirmação numa carta cuja finalidade era instruir os irmãos e irmãs da Galácia sobre a relação entre a liberdade cristã e a Lei de Deus no horizonte da graça. Pois aquela comunidade estava perdendo de vista a experiência da graça e, por essa razão, usando a liberdade cristã de maneira equivocada. Para nossa surpresa, no entanto, eles não estavam usando a liberdade para levarem uma vida de frouxidão moral e libertinagem como nós frequentemente tememos. Não. Eles estavam usando a liberdade decorrente da graça de Deus para anularem a própria liberdade e se aprisionarem em cadeias autoimpostas feitas de legalismos, moralismos, dogmatismos e tradicionalismos. Por isso Paulo escreve no capítulo 5:

Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão. Ouçam bem o que eu, Paulo, lhes digo: Caso se deixem circuncidar, Cristo de nada lhes servirá. De novo declaro a todo homem que se deixa circuncidar, que está obrigado a cumprir toda a Lei. Vocês, que procuram ser justificados pela Lei, separaram-se de Cristo; caíram da graça. 

A citação não poderia ser mais clara: abrir mão da liberdade cristã em prol de uma vida regida pela lei, é uma desgraça; é dar as costas para Cristo. Pois, como vimos duas semanas atrás, a lei de Deus existe para proteger e garantir nossa liberdade e não para ocupar o lugar dela! Deus não nos criou – e Jesus não nos libertou – para normas e regras e prescrições e costumes. Todas essas coisas existem para nos servir e abençoar. Quando deixam de cumprir essa finalidade e tornam-se fim em si mesmas, tornam-se também desimportantes, deixam de ser graça, e por isso podem e precisam ser questionadas, revistas e até abandonadas. Um Evangelho legalista, enrijecido por tradicionalismos e dogmatismos, não é, a rigor, Evangelho, porque já não é boa-notícia. O Evangelho de Jesus Cristo é a boa-nova do amor incondicional, irrestrito e irrevogável de Deus que nos permite viver com leveza, liberdade e responsabilidade, porque o jugo de Jesus é suave e o seu fardo é leve. Não há nada que possamos fazer para Deus nos amar mais, nem nada que possamos fazer para Deus nos amar menos. Daí que, para Paulo, nem circuncisão, nem dieta judaica, nem calendário religioso, nem lugares sagrados ou tantas outras coisas constituem condição para obtermos o amor de Deus que nos é dado de antemão. Somos amados por Deus e, portanto, livres para vivermos sem medo as nossas vidas.

Infelizmente, contudo, nós tememos a liberdade. Nós fomos ensinados e acabamos por acreditar que a liberdade é perigosa pois é uma porta para a libertinagem. Então nós a mantemos fechada. Se não sabemos usar a liberdade, a coisa a fazer então é abdicar dela. Exatamente como os gálatas estavam fazendo. Só que Paulo não pensa nem age assim. Ao invés de prescindirmos da liberdade, ele entende que é preciso aprender a usá-la: Por isso digo: Vivam pelo Espírito, e de modo nenhum satisfarão os desejos da carne” (Gl 5:16). Quem vive no Espírito não tem medo da liberdade! Porque sabe que será conduzido por Deus por caminhos de retidão.

O ensino de Paulo é uma denuncias: ela revela que nosso medo da liberdade funda-se no fato de estarmos vazios (ou esvaziados) do Espírito Santo. É para quem vive essa experiência que Paulo diz: “Não se deixem enganar: de Deus não se zomba. O que o homem semear, isso também colherá”. É como se dissesse em outras palavras: “Pela graça de Deus vocês são livres! Vocês são livres até mesmo para abrirem mão da liberdade que a graça concede a vocês. Mas lembrem-se: tudo o que vocês plantarem, vocês colherão! Vocês querem viver segundo a Lei? Não reclamem depois se a vida de vocês se tornar um fardo insuportável!”.

Toda ação produz uma consequência correspondente: ninguém planta maçãs e colhe peras! Se alguém quiser colher peras, terá de plantar peras! A vida abundante não está destinada àqueles que temem a liberdade. Mas aos que, no Espírito, a exercem corajosamente! Todos estamos diante de uma escolha fundamental: ou viveremos livre e corajosamente pela graça no poder do Espírito Santo ou viveremos tímida e receosamente sob o peso da Lei que nos rouba a alegria da vida e da salvação. A escolha é nossa. A responsabilidade também.

 

Graça e Lei (II)

A Lei divina nos foi dada como instrumento para proteger, orientar, e abençoar. Daí se conclui que o ser humano é a razão de ser da Lei e não o contrário. Como Jesus bem disse: “O Sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do Sábado” (Mc 2:27). Sempre, no entanto, que a Lei perde de vista essa finalidade e, ao invés de proteger, orientar e abençoar o ser humano, ela o oprime, acharca, mutila, diminui e aprisiona, faz-se necessário coloca-la em questão, revisa-la e até mesmo aboli-la. Não raro, para se cumprir o espírito da Lei de Deus é preciso transgredir sua letra ou romper com sua tradição interpretativa como Jesus fez tantas vezes.

Para Jesus estava claro, a lei de Deus é graça, é uma expressão do amor de Deus pelo ser humano. De outra parte, também estava claro para ele que a Lei pode tornar-se desgraça dependendo de como é entendida e aplicada. É isso que Paulo diz a Timóteo: Sabemos que a Lei é boa, se alguém a usa de maneira adequada. O problema é que, frequentemente, ela é usada de maneira inadequada (como vimos anteriormente). Daí que ela seja experienciada como maldição, muitas vezes, e não como bênção. Tal tem mais a ver com aqueles que a interpretam e aplicam do que com a lei em si mesma. Pois, como Paulo afirma de maneira assertiva: “a Lei é boa”. Alguém, no entanto, poderá perguntar a partir de nossa contemporânea antipatia por normas, regras e interdições: “Mas como a Lei pode ser boa se ela restringe a minha liberdade?”. A resposta é simples, apesar de paradoxal: é justamente porque limita a nossa liberdade que a Lei a protege e garante. Segundo a narrativa de Gênesis 2, quando criou todas as coisas, Deus deixou o ser humano livre no paraíso para viver como bem entendesse, mas colocou uma árvore no meio do Jardim e lhe disse: “desta árvore vocês não comerão, porque no dia em que dela comerem, vocês morrerão”. Em outras palavras, Deus lhe diz o seguinte: “Você é livre; tão livre que, se quiser, irá comer inclusive o fruto dessa árvore aqui. Eu não irei te impedir. Mas eu estabeleci uma lei para te demover dessa ideia, porque se fizer isso, você irá se destruir”. A Lei que Deus entregou ao ser humano não é de forma alguma arbitrária, autoritária nem castradora! Ela é, na realidade, cuidado, proteção, amor! Deus concedeu a Lei ao ser humano a fim de orientá-lo e protege-lo e assim tentar evitar que ele se autodestrua. Porque a liberdade ilimitada é autodestrutiva.

Imagine uma pessoa que resolva exercer a liberdade de comer ilimitadamente, sem jamais parar! Ou alguém que resolva exercer a liberdade de inspirar ilimitadamente, sem jamais expirar! O que acontecerá com ela? A vida pulsa. Ela expande e se contrai. O sol nasce e se põe. A inspiração precisa da expiração. A vigília precisa do sono. A comida precisa do jejum. A corrida precisa da linha de chegada. A liberdade precisa da lei. A lei não é fim da liberdade é a sua fronteira! Há uma lei natural, fisiológica, que me impede de inspirar sem jamais expirar. Essa mesma lei natural me impede também de fazer o contrário: expirar sem jamais inspirar. A Lei é a fronteira entre duas liberdades. Ninguém pode exercer a própria liberdade ilimitadamente porque, se assim fizer, irá ferir ou mesmo anular a liberdade de alguma outra pessoa. Para que a sua liberdade seja preservada, é preciso que a minha seja limitada! E vice-versa. Ou seja: a experiência da lei é inerente à experiência da liberdade. Ao contrário do que talvez pareça à primeira vista, a lei não ameaça a liberdade, ela a sustenta. É como as rodinhas auxiliares de uma bicicleta. Ela certamente limita as possibilidades que a criancinha (em tese) possui de fazer manobras e acrobacias; todavia, mantém a criancinha sobre a bicicleta exercendo a liberdade de pedalar. Sem as rodinhas, a criança é mais livre, sem dúvidas, porém o risco de queda é acentuadamente maior. E dependendo da maturidade da criança, fatalmente maior.

A questão, portanto, não se a lei é boa ou ruim! Ela é boa porque sustenta a liberdade. Ela nos mantém em pé. De outra parte, ela o faz colocando-nos certos limites – o que é inevitável. Em termos práticos, porém, a questão é outra, a saber: o quão flexíveis ou rígidos são os limites que a lei fixa e quem os determina. A lei é tão boa quanto mais justo é limite que ela estabelece entre duas ou mais liberdades. A Lei de Deus faz isso. Por isso ela é boa, é graça. De outra parte, se não faz isso, não é graça nem é de Deus. Uma lei unilateral, que garanta apenas a minha liberdade em detrimento da sua, não pode ser uma lei divina ainda que reivindique tal autoridade. Daí que precise urgentemente ser revista ou abandonada. A Lei de Deus estabelece o justo limite entre as liberdades. Porque o seu fundamento é a graça e a graça é o amor incondicional, irrestrito e irrevogável de Deus por todos e todas nós indiscriminadamente.

 

Graça e Lei (I)

Quem nunca descumpriu uma norma, quebrou uma regra, infringiu alguma lei? Davi, certa vez, comeu os pães da Presença que eram consagrados a Deus e que, segundo Levíticos 24, somente poderiam ser comidos pelos sacerdotes. Quem evocou a memória deste episódio foi Jesus que fora interpelado pelos fariseus em razão de os seus discípulos estarem colhendo espigas no campo em dia de sábado – o que era proibido. O interessante no texto é que Jesus defende os discípulos citando a experiência de Davi. Ele justifica um erro com outro!

O raciocínio foi o seguinte: “Se, em essência, a transgressão dos discípulos foi a mesma de Davi, por que, no caso de Davi, isso não foi motivo de alarde, mas no caso dos discípulos sim?”. Os fariseus se calaram. Sabiam que, quando convinha, eles engoliam um camelo inteiro sem mastigar, mas quando não convinha, eles coavam o mais insignificantes dos mosquitos.

Jesus, no entanto, age diferente. Para ele o que está em jogo não é o interesse de A ou B, mas a finalidade da lei de Deus que é o bem-estar humano, a defesa e a promoção da vida. Daí que ele tenha ignorado tanto a letra da lei do sábado quanto sua interpretação dominante. Pois ambas refletiam a grave inversão que a lei sofrera tornando-se algo em si mesmo em detrimento do ser humano ao qual deveria servir e abençoar. Daí Jesus vaticinar: “O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado” (2:27). Para ele, o ser humano é maior que o sábado! A vida humana é mais importante que a lei e seu cumprimento ao pé da letra. Decorre daí que, quando deixa de beneficiá-lo e passa a oprimi-lo, a lei precisa ser reinterpretada ou abolida!

Alguém poderia objetar: mas o próprio Jesus disse que não veio abolir a lei, mas cumpri-la… Exato. Jesus cumpriu a lei mesmo a tendo desobedecido. Porque “o cumprimento da lei é o amor” (Rm 13:10). Não é a obediência cega que corresponde ao cumprimento da lei, mas a experiência do amor. Porque o espírito da lei é o amor. O espírito da lei de Deus é o cuidado, o respeito, a equidade, a compaixão, o bem comum. No episódio da mulher flagrada em adultério, Jesus descumpriu a letra da lei que mandava quem cometeu a falta, mas cumpriu o seu espírito defendendo a vida e o direito a uma nova oportunidade

Isso é graça: colocar o ser humano à frente da lei; amar o ser humano antes de julgá-lo; perdoá-lo antes de apedrejá-lo! A característica do legalismo é o amor à norma em detrimento do ser humano. A característica da graça é o amor ao ser humano em cumprimento ao verdadeiro espírito da norma. No momento em que perde o ser humano de vista e se torna um fim em si mesmo, a lei se torna também uma arma letal. A lei pela lei é morte! Ao invés de proteger, expõe; ao invés de curar, adoece; ao invés de ajuntar, espalha; ao invés de salvar, mata!!! Daí Paulo dizer: “a letra mata, mas o espírito vivifica” (2Co 3:6).

Talvez escandalize alguns, mas a graça é antropocêntrica – ela coloca o ser humano no centro da vida e da religião. A graça é o Evangelho centrado no ser humano. Jesus não morreu por um sistema doutrinário, por alguma confissão de fé ou código de moralidade; Jesus morreu por mim e por você. O ser humano e não a lei está no centro do Evangelho e da experiência da graça de Deus!!!

É exatamente isso que a segunda porção do texto afirma. Era sábado. Todos estavam reunidos na sinagoga em torno da Lei. Havia ali um homem doente, marginalizado por sua doença – porque naquele tempo os leprosos e aleijados eram tidos por malditos, por gente rejeitada por Deus. Jesus também está ali. Ele vê o homem e se compadece dele. As pessoas na sinagoga o observavam: será que ele irá novamente transgredir a lei do sábado e curar esse homem amaldiçoado? Sim, Jesus irá curar o homem. A primeira coisa que diz, virando-se para ele, é: “Levante-se e venha para o meio”!!! (3:3). Notem bem: todos ali estavam reunidos em torno da Lei. A lei ocupava o lugar central nas sinagogas. Mas Jesus diz: “vem para o meio” colocando a lei para escanteio. Ele faz isso porque a graça afirma a primazia do ser humano sobre a lei! Para algumas pessoas isso soa como blasfêmia ao invés de boa-notícia. Mas para quem tem se sentido quebrado, prostrado, cabisbaixo, culpado e rejeitado por Deus e o mundo, essa fala de Jesus é sim boa-notícia; é salvação!

Frequentemente, a verdadeira obediência a Deus implica colocar de lado a interpretação que os homens dão à lei, seja esta lei humana ou divina. Seguir a Jesus, em muitos momentos, corresponde a transgredir, desobedecer e se rebelar.

Medo da Graça

Se Deus nos ama incondicionalmente e, portanto, não há nada que possamos fazer para que ele nos ame mais; nem há nada que possamos fazer para que ele nos ame menos, qual é então o ponto da vida cristã? Por que viver uma vida de obediência a Deus se a graça me assegura que sou e serei amado por Deus a despeito de qualquer coisa que eu faça ou deixe de fazer? Por que me esforçar para ser uma pessoa melhor, se a graça me assegura que Deus me ama do jeito que eu sou e não do jeito que eu deveria ser? Por que ser cristão se Deus me ama tanto quanto ama o pior dos ímpios?

Essas são algumas das perguntas mais recorrentes que nós cristãos nos fazemos quando ouvimos ou pensamos a respeito da graça de Deus. Todas elas são, no fundo, derivações de uma única e mesma pergunta: toda essa segurança acerca do amor de Deus não nos coloca numa posição de muita liberdade? Em outras palavras: saber que sou amado por Deus de maneira incondicional, irrestrita e irrevogável, não aumenta as chances de eu me perder? Pois quem me garante que, diante de tanto amor e tanta liberdade, eu vou desejar viver segundo a vontade de Deus e não segundo a minha própria vontade?

Eis a raiz do problema: em geral, nós temos medo da graça! E temos medo da graça porque morremos de medo de nós mesmos! Nós não confiamos em nós mesmos! E isso é bom, até certo ponto, porque nós somos realmente capazes de fazer muitas bobagens. Mas isso é péssimo, num outro aspecto, porque nem sempre nós fazemos bobagens; nem sempre nossas escolhas são errôneas, equivocadas e nos distanciam de Deus!!!

O grave nesta história é que o medo de nós mesmos nos impede de arriscar! Então nós nos retraímos. Nosso raciocínio funciona (estejamos conscientes ou não) segundo a seguinte lógica: se a graça me dá liberdade, mas eu sei de antemão que usarei mal essa liberdade, é melhor então eu não usá-la! É melhor então eu fingir que ela não existe e negá-la, ignorá-la, restringí-la, omití-la, minimizá-la! Pois quanto menos liberdade eu tiver, mais seguro eu me sentirei de que não farei nada errado!!!Acontece então que criamos para nós prisões que não existem para que elas nos contenham como uma coleira contém um cão bravo!

Na estória de Jó, nós encontramos uma afirmação escandalosa: Deus aposta na gente! Deus confia em nós!!!

Jó era um homem temente a Deus. Isso não é o mesmo que dizer que ele era alguém que tinha pavor de Deus; mas amor por Deus. Jó era um homem que amava a Deus. Porém, Satanás, que não acredita no amor, se aproximou de Deus, certa vez, e o desafiou: “Você acha mesmo que Jó te ama? Você acha mesmo que ele te serve gratuitamente, a troco de nada? Sei. Experimenta tirar tudo que você tem dado a ele e vê se ele vai continuar te amando e te servindo?”. Deus topou a aposta. Ele confiava em Jó, cria no amor de Jó por ele (essa desconfiança que tantas vezes nutrimos em relação a nós mesmos não é divina, é maligna. Não é por acaso que o cristianismo vivido fora da liberdade da graça seja tão triste, tão sem graça. No fundo, é uma prisão autoimposta. Por não confiarmos em nós mesmos, nós deixamos de viver!!!).

Paulo escreveu aos Gálatas: “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão” (Gl 5:1).

Deus aposta na gente! Deus confia em nosso amor por ele! Deus confiou em Jó, mas não apenas nele. Confiou em José e Maria, em Pedro e nos doze, e confia em nós hoje. Parece loucura, mas é a sabedoria de Deus. A graça é a sabedoria de Deus que é loucura para o mundo (e, às vezes – como dissemos na semana passada – para a própria igreja). A graça é o amor que aposta no amor, que lança fora o medo. Não é o amor que é refém do medo, mas o amor que liberta do medo para a vida!!! Não é o medo que nos livra do pecado! É o amor!

Mas confiar no amor é seguro? A outra alternativa é confiar no medo. A escolha é de cada um.

A graça que reforma a vida e o mundo

No dia 31 de Outubro de 2017, a Reforma Protestante celebrou seu quingentésimo aniversário. No entanto, mesmo depois de todos esses anos, tudo continua como nos dias de Lutero, Calvino e cia. Os postulados dos reformadores nunca realmente se encarnaram nas vidas da vasta maioria daqueles que se dizem herdeiros do movimento. É fato que vários destes postulados alcançaram status de verdade de fé e são popularmente conhecidos e repetidos, tanto no jargão religioso quanto no ensino dos especialistas. Mas ao nível prático da experiência cotidiana da fé, não significam nada para a vasta maioria das pessoas, especialmente no Brasil. Não são mais que palavras de efeito. Talvez tenham verdadeiramente influenciado uma ou duas gerações de homens e mulheres. E certamente moldaram indivíduos, congregações e até denominações aqui e ali. Contudo, tais casos constituem as exceções. Mundo afora, a Reforma não se manteve protestante, tornou-se evangélica e assim traiu as afirmações que a originaram. Mas isso é assunto para um outro post.

Para os próximos 500 anos, as palavras de ordem seguem sendo PROTESTAR e REFORMAR. Quem sabe desta vez a Igreja não levará a sério o princípio que define sua identidade e, finalmente, viverá o que tem pregado ao longo de 5 séculos?

Não me esquivando da responsabilidade de contribuir nesse sentido, proponho aqui – no espírito de Lutero – doze teses que explicitam o que afirmo acima ao mesmo tempo em que servem de pauta e roteiro para a tarefa que nos compete: (1) pastores, bispos e apóstolos, etc. são ainda hoje verdadeiros mediadores entre Deus e as pessoas em lugar do Cristo; (2) o sacerdócio universal de todos os crentes não é universal, pois às mulheres e crianças é negada a plena cidadania eclesial e eclesiástica; (3) a Escritura está longe de ser a autoridade última da vida religiosa, pois a tradição hermenêutica denominacional fala em lugar do texto sagrado; (4) o livre exame da Escritura é uma piada, pois há verdadeiro estado de polícia pairando sobre as consciências e o Espírito Santo nem de longe tem lugar para exercer seu ministério de intérprete da Palavra de Deus; (5) a graça é quase sempre mal-compreendida e frequemente rejeitada, temida e hostilizada pelos mais diferentes legalismos que a sufocam e silenciam por completo – nunca se cobrou tanta indulgência e a salvação custou tão caro como em nossos dias; (6) o dualismo fé-obras ainda não foi superado – pelo contrário: o discurso sobre a fé em oposição as boas-obras segue firme espiritualizando e desencarnando o Evangelho, esvaziando a dimensão ética da experiência cristã e da obediência fazendo da igreja uma multidão omissa e desengajada em relação à sociedade, ao país e ao planeta; (8) em nome da glória de Deus, oprime-se o ser humano que é reduzido à nada – Deus, na retórica da igreja sofre de sérios problemas de autoestima e inveja o sucesso das pessoas exigindo que toda a glória seja dele e dele somente; (9) prega-se ainda hoje que fora da igreja (evangélica) não há salvação e demoniza-se os católicos, os adeptos de religiões não-cristãs, os ateus e todos os grupos militantes que não se conformam com o mundo tal qual se nos é dado – marxistas, feministas, artistas, ativistas de diferentes sortes, etc.; (10) a castidade e o celibato são ainda virtudes celebradas e frequentemente impostas sobre os corpos anestesiados e tristes de homens e mulheres que só sabem comer e malhar porque não tem permissão para dançar nem transar; (11) prega-se a eternidade a custa da história – a salvação é bem-aventurança post-mortem que livra do fogo eterno e quase nada diz respeito a vida de cada dia, ao aqui e agora; (12) o bordão Igreja Reformada sempre se reformando é tão somente isso: um bordão que serve apenas como instrumento ideológico para manipulação das consciências e das identidades.

Na raiz de toda essa problemática, reside um pecado capital: o abandono da experiência da Graça que é o que fundamenta e torna possível tudo o que a Reforma (e mais amplamente o cristianismo) se propôs a dizer e realizar. A Graça é o Evangelho de Jesus Cristo, a boa-nova de Deus para homens e mulheres de todas as épocas e localidades.

Registro aqui minha firme convicção: fora de uma experiência profunda da Graça de Deus entendida como o amor incondicional, irrestrito e irrevogável de Deus por todos e todas, não haverá qualquer futuro para o protestantismo e, quiçá, para a humanidade.

 

Retrato de um mundo que deu errado

BN-KG409_C30912_M_20150911135614Aylan Kurdis, 3 anos.

Não há cura para a sua chaga; a sua ferida é mortal […] quem não sofreu por sua crueldade sem limites? (Naum 3:19)

Quem não viu, não se emocionou e se perturbou com a chocante imagem do corpo inanimado do pequenino Aylan? A fotografia que dominou as redes sociais e comoveu o mundo é o retrato emblemático e implacável do fracasso de nosso projeto de civilização. Aylan Kurdis, de apenas 3 anos, morreu afogado com sua mãe Rehab e seu irmãozinho Galip, de 5 anos, quando tentavam fazer de barco a travessia que os levaria para longe do horror instalado em sua terra natal.

A história é muito triste. A família de Aylan fugira da Síria com a intenção de chegar ao Canadá. Partiram movidos pela expectativa de um milagre, pois o governo canadense lhes negara o pedido de asilo político. Eis o plano: de Kobane, no coração do conflito que assola a Síria, para a Turquia de onde cruzariam de barco para a Grécia visando, quem sabe, voar para a cidade de Vancouver onde há mais de 20 anos residem parentes que os ajudariam com a papelada junto à imigração. Mas o plano foi abortado pela tragédia. Aylan naufragou com a pequena embarcação sendo devolvido sem vida à terra pelas águas agitadas do mar que se negou a tragá-lo. Da família, somente o pai Abdullah Kurdis sobreviveu. Ainda outras 6 pessoas morreram no naufrágio.

O mais alarmante é descobrir que a tragédia da família Kurdis não constitui um fato isolado. Desde a Primavera Árabe em 2011, mais de 10 milhões de sírios já foram cadastrados como refugiados políticos e seguem deixando o país em busca de alternativas para sobreviver. O número de vítimas fatais é desconhecido. A história se repete também no Iraque e no Sudão e em outras partes da África gerando um fluxo migratório sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial. Paralelamente, por motivos sobretudo econômicos, incontáveis contingentes humanos partem de seus países de origem ao sul da linha do Equador e à leste de Greenwich em direção à Europa e à América do Norte num deslocamento silencioso e contínuo que ocorre há mais de 100 anos e torna-se mais vigoroso a cada dia.

A grande questão frequentemente negligenciada e da qual não podemos mais fugir é a seguinte: o que faz com que tantas pessoas em todo o mundo se vejam forçadas a deixarem para trás suas casas, suas famílias e os seus relacionamentos de toda uma vida rumo a uma terra cujo idioma não é o seu, a cultura e culinária não são a sua e o povo não é aquele ao qual pertencem? Mais ainda: o que faz com que toda essa movimentação humana não apenas seja necessária, mas seja necessariamente vivida de forma clandestina e marginal na maioria das vezes?

O que há de errado com o mundo? O que há de errado com esse mundo que nós construímos com base no capital, no mercado, na competição, no consumo, na acumulação e no privilégio? Essa era, no fundo, a incômoda interpelação que o profeta Naum dirigira ao povo de Israel aproximadamente 650 anos antes de Cristo: Cavaleiros atacando, espadas reluzentes e lanças cintilantes! Muitos mortos, montanhas de cadáveres, corpos sem conta, gente tropeçando por cima deles! Tudo por causa do desejo desenfreado […] Não há cura para a sua chaga; a sua ferida é mortal […] quem não sofreu por sua crueldade sem limites?” (Naum 3:3,4,19).

O profeta se refere à Nínive, mas sua profecia se destina e aplica a todas as cidades-nações de sua época, Israel inclusive. Nínive, capital do império Assírio, era para o mundo dos dias do profeta Naum o que Nova York, Londres, Paris, Berlim, Amsterdã, Roma, Toronto, Madri, entre outras, são para o mundo de hoje: o epicentro político e econômico, o ícone máximo do desenvolvimento e do poderio militar, o empreendimento humano que supostamente deu certo; numa palavra: o primeiro mundo. Todos conheciam sua riqueza, seu poder e a força de seu exército. Nínive era invejada. Quem não desejava sua glória? Ao mesmo tempo, era temida. Quem não estremecia pela ameaça que representava? Não foi sem razão que o profeta Jonas negou-se num a evangelizá-la. O esplendor de Nínive custava caro para os povos que pagavam a fatura.

Eis a missão do profeta Naum: dizer a Israel e a quem mais tivesse ouvidos para ouvia sua mensagem que Nínive não servia como ideal e modelo de civilização. O jeito assírio tão admirado e invejado de estabelecer-se no mundo e impor sobre ele sua liderança era insustentável e estava prestes a ruir – o que de fato ocorreu mais ou menos 100 anos depois com a emergência da Babilônia. Deus mesmo deflagraria esse processo, adverte o profeta! Deus mesmo estaria por trás do fim desta história de crueldade e horror disfarçada de sucesso e bem-estar: “Eu estou contra você […] vou levantar o seu vestido até a altura do seu rosto. Mostrarei às nações a sua nudez e aos reinos, as suas vergonhas” (Naum 3:5).

Por que Deus faria isso? Por duas razões: acabar com o cinismo e a maldade daquele sistema e assim quebrar seu feitiço e sua sedução sobre as nações; e desmascarar a hipocrisia de Israel que apontava o dedo para Nínive, mas a invejava, que se queixava de suas perversidades, mas as reproduzia domesticamente – pois o que se dava em Nínive em escala mundial, acontecia também em Israel em escala local!!!

Alguém perguntaria: por que Deus permitiu que as chocantes imagens da tragédia de Aylan invadissem as telas de nossos computadores, tablets, celulares e televisores, ocupando as manchetes de jornais e revistas e não nos permitindo evitá-la? O profeta Naum responderia: para acabar com o cinismo e a hipocrisia; o cinismo de nossa civilização que se vangloria de ter criado um mundo sensacional e maravilhoso – o que é uma deslavada mentira – e a hipocrisia de nossa sociedade brasileira que finge que nada disso acontece aqui em nosso país.

Ora, quem defenderá que o histórico deslocamento de pessoas de todas as partes do país para as grandes cidades da região sudeste brasileira não obedece à mesma lógica dos fluxos migratórios que há décadas se destinam à Europa e aos EUA? Quem negará que a favelização das cidades brasileiras constitui fenômeno análogo ao histórico empobrecimento e abandono do continente africano por parte dos países desenvolvidos? Subjaz a tudo isso, uma mesma realidade: a concentração de renda e oportunidades nas mãos de uma minoria que detém o controle dos meios de produção e o acesso aos bens de consumo ficando todos os demais à margem do sistema e do sonho capitalista de felicidade. O que acontece aqui em escala nacional, reproduz o que acontece lá fora em escala global.

É tão grave e desanimadora a situação no Brasil hoje que mesmo quem não tem necessidade do ponto-de-vista econômico está deixando o país ou cogitando fazê-lo. Mas a profecia de Naum está aí para nos dizer que essa é uma solução ilusória. Fugir não vai funcionar. O problema que existe aqui é o mesmo que existe lá. Mudam a proporção e os contornos, é verdade. Mas, em essência, é o mesmo problema. O mundo globalizado é regido por uma única lógica. Como sentencia o apóstolo João em sua primeira carta: “o mundo todo jaz no maligno” (1João 5:19).

A profecia de Naum está aí, no entanto, para nos lembrar que a Assíria ruiu. E ruirá novamente. Pois um tal modelo de civilização é insustentável. O mundo que nós construímos e estamos tentando salvar, também está condenado. Ele já deu errado, fracassou, e agora afundando como a embarcação em que viajava a família Kurdis. Talvez tenha sido para nos mostrar isso, para nos fazer enxergar o destino trágico daqueles que neste mundo estão excluídos dos meios de produção e do acesso aos bens de consumo, para nos fazer ouvir perplexos o grito inaudível desses milhões e milhões em todo o planeta que são tratados como descartáveis, como o resto incômodo de uma equação civilizatória que não fecha nem se resolve, que Deus permitiu isso.

Cabe lembrar que esse nosso mundo que assiste indiferente a tragédia de tantos e tantos Aylans é também o mundo que segue tentando empurrar Deus para fora do barco de nossa sociedade e cultura, buscando exilá-lo de sua própria criação. Esse mesmo mundo clivado ao meio pelo desigualdade de condições e oportunidades, que produz e consome irresponsavelmente e depois compartilha no facebook as manchetes de jornais e revistas perguntam cinicamente “Onde está Deus em meio a tudo isso?”.

A imagem do pequeno Aylan morto à beira-mar é o retrato de nossas vergonhas expostas, a fotografia do que está oculto sob nossos discursos, um oráculo profético endereçado contra nosso o estilo de vida e o mundo que criamos. Ela denuncia a falência de nosso projeto civilizatório e a monstruosidade do que nos tornamos. Ao mesmo tempo, nos chama à responsabilidade e à mudança. Cumpre-nos assumir a derrota e recomeçar desde outras premissas. Substituir os pilares dessa civilização moribunda por outros novos e mais promissores como os valores do Reino de Deus compartilhados todas as religiões: humildade, solidariedade, serviço, perdão, cooperação, compaixão, generosidade, contentamento, misericórdia, altruísmo, abnegação, amor. Em duas palavras: arrependimento e conversão. Eis o caminho diante de nós.

Que Deus nos guie e guarde na travessia.

Noutra direção

Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos: se vocês se amarem uns aos outros” (João 13:35

Nunca foi intenção da Reforma fundar uma outra igreja ou nova religião. O movimento propunha-se antes a renovar o cristianismo ocidental por meio de um retorno à Palavra de Deus como fonte fundamental e critério definitivo a partir do qual todos os aspectos da fé e da vida cristãs deveriam ser julgados.

Desde essa perspectiva, os reformadores não hesitaram em romper com certos conceitos e práticas da igreja romana tendo o cuidado, entretanto, de manter e preservar todo um patrimônio espiritual, doutrinário, ético e litúrgico milenar constitutivo do próprio cristianismo.

Acontece que tais esforços revelaram-se insuficientes. Os cortes e as revisões reivindicados pelos reformadores foram percebidos pela igreja romana como inaceitáveis. De outra parte, a radicalização crescente do movimento que se alastrava e ganhava novas expressões e agendas levou à interrupção do diálogo e ao confronto aberto. O resultado foi o rompimento definitivo. A Igreja de Cristo já dividida entre Ocidente e Oriente, agora se fragmentava ainda mais.

O fator determinante na fixação da identidade dos novos grupos resultantes do cisma foi o quão profundamente cada um entendeu que seria necessário fazer o corte nas mais diversas questões. Assim, calvinistas, luteranos, anglicanos e anabatistas divergiram não apenas do catolicismo, mas também entre si.

Em virtude da obsessiva preocupação que nutriu pela busca da verdade – busca essa conduzida sob a luz da Sagrada Escritura diversamente lida e interpretada por cada grupo particular – tal fragmentação interna do movimento era inevitável. Uma lógica exclusivista orientou e perpassou todo o processo: “se é desse jeito, então não pode ser de nenhum outro”. Ora, a perpetuação dessa lógica implicaria em sucessivas e intermináveis divisões como de fato veio a ocorrer na história do cristianismo.

Seria possível superar esse quadro? Como? A Conferência Mundial de “Fé e Constituição” ocorrida em Lund, na Suécia, em 1925, apontou um caminho que parece promissor: o de uma convergência que se oriente não no sentido de uns para os outros, mas “de todos na direção de Cristo, no qual está a verdade e a unidade”. Não se trata, portanto, de pedir às diversas igrejas que busquem em seus corpos doutrinários e tradições particulares pontos de convergência e uma base comum. Pois à toda e qualquer experiência cristã no Ocidente subjaz uma base única que consiste de 1500 anos de história e teologia. Ora, se todo esse capital compartilhado não significou até hoje uma base comum ampla e sólida o bastante para inspirar e alicerçar uma convergência de todas as partes entre si, é porque nos encontramos diante da clara necessidade de um outro tipo de esforço.

Após cinco séculos de infindáveis rupturas e subdivisões, não teria chegado o momento de tentarmos algo realmente novo? Algo que não violente às identidades das diferentes tradições cristãs há séculos consolidadas? Será, portanto, que ao invés de partirmos do que temos não deveríamos partir então do que não temos? Será que em lugar de seguirmos buscando saber quem está com a razão, não seria este o momento de nos abrirmos para o fato de que estamos todos parcialmente errados? Será que não deveríamos nos render a realidade de que Deus é mistério inabarcável além de toda compreensão? E se em lugar do sempre insuficiente catafatismo protestante (via afirmativa) nós incorporássemos a nossa teologia o espírito da tradição apofática (via negativa)? Será que ao invés de negarmos a validade da experiência das outras igrejas não seria o caso de as afirmarmos ao lado da nossa? Será que da conjugação de nossas parciais e precárias compreensões particulares de Deus não emergiria uma visão mais abrangente e um pouco mais próxima de como Deus realmente é? Não seria este então o tempo de substituirmos a fracassada lógica exclusivista por uma outra lógica inclusiva e ecumênica?

Uma igreja dividida não pode dar testemunho de um Cristo inteiro. Tampouco tem condições de anunciar a pessoas e nações o Evangelho da reconciliação, do perdão infinito, do amor incondicional de Deus. A Igreja de Jesus Cristo – Católica e Protestante (e também Pentecostal) – encontra-se assim diante da obrigação moral de lutar pelo emergir de um outro momento na história do cristianismo, um novo kairós divino que terá na abertura ao Espírito, na tolerância e na comensalidade seus pilares fundamentais e em Cristo seu horizonte.

Urge, enfim, que as denominações e tradições cristãs diversas ouçam o convite da Conferência de Lund e dêem as mãos umas às outras para juntas seguirem na direção do único noivo e cabeça do Igreja, aquele que um dia finalmente será “tudo em todos” (1Co 15:28).