Graça, igualdade e libertação da mulher

Se Deus criou homem e mulher a sua imagem e semelhança e ambos são alvos de sua graça, que não discrimina nem faz acepção de pessoas, por que, na igreja (exatamente como ocorre na sociedade), ao homem são garantidos todos os direitos e ainda são concedidos privilégios enquanto à mulher, direitos básicos são frequentemente negados? E por que isso não é um problema para a gente?

Há uma inconsistência aqui. Se a graça é amor incondicional, irrestrito e irrevogável de Deus em favor de todos e todas nós e a Lei de Deus é expressão dessa graça que é equânime e imparcial, então a interpretação bem como sua aplicação precisam garantir a homens e mulheres os mesmos direitos e a mesma liberdade. E por que isso não acontece? Porque, via de regra, nós lemos a Bíblia com outros óculos que não são o da graça. Eis o problema. A chave de leitura de qualquer texto bíblico – especialmente os mais difíceis – precisa ser a graça, porque a graça de Deus é o Evangelho, a boa-notícia de Deus para nós! Assim sendo, qualquer leitura da Bíblia que assegure o direito de A em detrimento do direito de B deve ser colocada em questão. Pois qualquer leitura da Bíblia feita a partir da graça irá marcar a justa fronteira entre o direito de A e de B garantindo ambos.

Dos livros bíblicos, nenhum tem a força do Cântico dos Cânticos no que diz respeito a isso. Pois ele coloca em questão a lógica patriarcal dominante nos tempos e escritos bíblicos e fala da relação homem-mulher em termos de uma equanimidade de liberdades e direitos. Um refrão perpassa e costura todo o livro e ilustra de forma emblemática essa realidade: “O meu amado é meu, e eu sou dele”.

Num mundo em que a mulher era propriedade do homem, esse refrão é um escândalo! Porque ele afirma o mútuo pertencimento. A via aqui é de mão dupla. O escritor sagrado eleva a mulher à altura onde o homem se encontra socialmente. Aliás, nesse poema, a voz predominante é a voz de uma mulher – a Amada. Esse simples fato já é em si uma retificação, além de uma transgressão. Pois nos textos bíblicos quem fala é sempre o homem. O Cântico dos Cânticos é o único livro da Bíblia onde encontramos um eu-lírico feminino. E essa é a voz ouvida com mais força – a da mulher.

É muito importante frisarmos aqui que essa mulher que fala no Cântico dos Cânticos não é mulher como as que os leitores do livro sagrado estavam acostumados a ver em casa ou nas páginas das escrituras! Essa uma mulher é rara, incomum, extraordinária. Uma mulher que se comporta a partir de uma liberdade tida como exclusivamente masculina.

Em Ct 1:2(a), vemos que essa mulher extraordinária deseja: Ah, se ele me beijasse, se a sua boca me cobrisse de beijos… Ela suspira pelo prazer, pelo encontro sexual, pelo corpo do seu amado! Ela não tem vergonha de confessar-se abrasada e nem de fantasiar o amor erótico. Sim, ela tem a coragem de admitir isso! A amada não apenas deseja, mas fala desse desejo livremente, o que, para nós, é um escândalo. Isso porque nossa educação cristã é pautada na negação e condenação do prazer, sobretudo, do prazer sexual! Ainda mais quando o sujeito que suspira por esse prazer é uma mulher!

Outra característica dessa mulher extraordinária relatada em Ct 1:(2) é o gosto pela bebida: Sim, as suas carícias são mais agradáveis que o vinho. Como essa mulher poderia comparar as delícias do amor sexual ao vinho se não o tivesse experimentado? É só porque bebe e aprecia o vinho que ela pode fazer essa comparação exaltando uma e outra experiência. Ao fazê-lo, ela manifesta seu anseio por embriagar-se de amor.

Finalmente, essa mulher extraordinária é alguém que vai a luta, conforme Ct 1:4 nos deixa saber: Leve-me com você! Vamos depressa! Leve-me o rei para os seus aposentos. Essa mulher não espera ser escolhida e resgatada de sua solidão por um príncipe encantado. Não! Em lugar disso, ela se oferece, pede para ser amada e sai em busca do seu amor! Essa mulher quer ser autora de sua própria estória e por isso toma a iniciativa na aventura do amor!

O Cântico dos Cânticos é um livro extraordinário porque fala de maneira extraordinária de uma realidade que deveria ser o ordinário das relações entre homens e mulheres: a equanimidade. O Cântico dos Cânticos, fala assim de uma mulher rara que deseja viver a plenitude de um amor igualmente raro e para isso se assume e assume todos os riscos que tal aspiração implica libertando-se dos receios e preconceitos que tantas vezes amarram as pessoas e empobrecem as relações sociais e interpessoais.

 

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