O trauma da graça

Experiências positivas também podem ser traumáticas. Um amigo, certa vez, teve uma costela quebrada devido a um abraço apertado. Depois disso, passou a ter medo de ser abraçado. Cumprimentava as pessoas estendendo a mão ou acenando à distância. Tivesse ele poder nas mãos e quem sabe não criaria leis para que as pessoas não pudessem mais se abraçar… Isso é um trauma: uma ferida decorrente de uma experiência forte, intensa, impactante que produz um comportamento medroso, de fuga, esquiva e evitação. E, muitas vezes, até de beligerância e violência. Uma pessoa traumatizada é, portanto, uma pessoa tensa, enrijecida, cujo comportamento é incompreensível para quem não compartilha de seu medo ou desconhece sua experiência de dor. Pois quem temeria um abraço? Abraços são desejáveis, certo? Não para quem já teve uma costela quebrada e teme reviver essa dor…

Eis a razão porque fariseus, saduceus, escribas e mestres-­da-­lei tiveram tanta dificuldade com a graça de Deus encarnada no comportamento de Jesus e anunciada em suas palavras: eles eram pessoas traumatizadas. Talvez pareça estranho aos nossos ouvidos, mas a graça é um trauma para não poucas pessoas, sobretudo as mais religiosas. O trauma da graça consiste na ferida causada pela descoberta de que somos amados não porque conquistamos esse amor por mérito próprio, mas porque Deus é amor e gratuitamente nos ama. Ele simplesmente não pode evitar de nos amar. Isto é o que nos diz a graça: que Deus nos ama desde sempre e para sempre, a despeito de o amarmos de volta ou não. A graça afirma o amor incondicional de Deus que não exige nada em troca (embora nos convide a um caminho – “siga-­me” – que é também um convite de amor). Não há nada que se possa fazer para que esse amor aumente ou diminua. O amor de Deus por nós é, está posto; não recua, não volta atrás.

Um tal amor é tão de outra ordem em relação ao que conhecemos que nos sentimos desconfortáveis diante dele, sobretudo, porque somos incapazes de amar assim. O amor de Deus desmascara a fragilidade, a prepotência e a falácia de nossa forma de amar. Em outras palavras: o trauma da graça consiste na dor de nos descobrirmos impotentes perante um amor que não podemos controlar nem imitar. O máximo que podemos fazer – e o fazemos frequentemente – é rejeitá-­lo. O trauma da graça explica, assim, a enorme diferença de atitude entre o grupo dos fariseus-­religiosos e o grupo formado por publicanos e demais “pecadores” com relação a Jesus. Enquanto estes se abriram para a experiência da graça, aqueles a rejeitaram e ficaram indignados por causa dela: “como pode Jesus dizer-­se profeta de Deus e se sentar- à mesa para comer e beber com pecadores? Se Jesus é quem diz ser, eles não merecem tamanho privilégio! São indignos!”. Com esta postura, os religiosos fariseus deixavam transparecer o que ocupava-­lhes o coração: somente eles, os justos, os retos, os piedosos, mereciam um lugar à mesa com Deus. É quando Jesus sentencia (para escândalo deles e nosso): “Os que tem saúde não precisam de médico, mas sim os doentes. Eu não vim para os justos, mas para chamar pecadores ao arrependimento”.

Enquanto os “indignos” publicanos se deliciavam com o abraço da graça, os religiosos fariseus levantavam suas defesas e criticavam Jesus, o “abraçador”, a fim de manter a graça o mais longe possível. Eles sabiam que o abraço da graça os quebraria e faria descer do salto-­alto. E isso eles não poderiam suportar. É certo que eles haviam experienciado algo da graça quando se aproximaram da Lei de Deus (porque a Lei é uma expressão da graça, é um cuidado de Deus para nos orientar e proteger). Ali, no trato com a Lei, eles entraram em contato com o escandaloso amor de Deus e algo dentro deles se quebrou. Como não trataram a ferida – o trauma – permaneceram doentes. Mas, certos que estavam de sua saúde, nunca admitiriam para si mesmos a própria enfermidade. Muito pelo contrário. Traumatizados, criaram mecanismos para se proteger, para manterem-­se distantes da graça e evitarem o contato com ela. Daí que quisessem manter Jesus afastado, longe, e que mantivessem longe também os “indignos pecadores”.

O trauma da graça era neles tão profundo que os levou a torcer a Lei de Deus para que nela não restasse mais nada da graça. Criaram uma interpretação dominante e uma teologia oficial onde a graça ficava de fora. Por isso, nos lábios e atitudes deles, a Lei de Deus carecia e anulava a graça ao invés de transmitir e manifestá-la. Na pregação e prática dos fariseus e demais religiosos, a Lei de Deus é sem graça. Em contrapartida, os indignos publicanos e “pecadores” deixavam-­se abraçar e festejavam. Como não eram tensos, enrijecidos pelo trauma, a graça não os quebrava, mas os acarinhava. De fato, o abraço da graça nem poderia quebra-­los, porque já se haviam sido quebrados. A vida se encarregara desta tarefa. Os “pecadores” conheciam sua condição de indignos. Como o filho pródigo, diziam para si mesmos: “pequei contra os céus e contra meu pai, não mereço sequer se tratado como filho ou ser recebido em casa”. Por esta razão, também se deixaram abraçar quando se viram diante do amor do pai manifestado em Jesus. Os fariseus, por sua vez, agiam como o filho mais velho da parábola, ícone máximo de prepotência e autossuficiência. Este, não apenas odiou ver seu irmão ser abraçado, mas negou-­ se a participar da festa. Sequer reconhecia-o como irmão. Por isso, abandona à casa e rejeita o abraço do pai quando este vai busca-­lo pedindo-­lhe que volte para a casa.

No fundo, o religioso traumatizado é um ressentido. Ele acredita que fez por merecer o amor de Deus e não aceita que Deus ame aqueles que nada fizeram para isso. No fundo, seu ódio aos pecadores é um ódio a Deus que não reconhece sua superioridade. Daí que ele odeie também a liberdade. Pois se fosse livre para fazer o que quisesse, não andaria com Deus (já que o odeia). O religioso fariseu não ama a Deus nem está ligado a ele por amor. Ele está, na verdade, preso a Deus como um cão feroz está encoleirado a seu dono. Ele não foge para longe por falta de opção (o castigo eterno).

Na raiz do trauma da graça reside, portanto, a rigidez de quem odeia e se recusa a perdoar os outros e a si mesmo. Daí que não aceite ser abraçado. Daí que tenha medo de ser quebrado e não seja capaz de admitir que necessita de uma experiência de cura que somente se dará por meio da experiência do perdão. Pois somente se perdoar o outro poderá perdoar-­se a si mesmo.

É fundo o poço do religioso traumatizado pelo abraço da graça. Haverá esperança? Sim, há. Basta que ele se deixe abraçar. Basta que se deixe quebrar. Basta que aceite se ver. Basta que se assuma igual àqueles a quem odeia. Basta que os perdoe. Basta que se perdoe. Basta que admita sua impotência diante de um amor que não se deixa controlar ou manipular. Basta que se renda e aceite que não é Deus. Basta, enfim, que se converta de justo em pecador, de digno em indigno, de puro em impuro, de perfeito em imperfeito, de merecedor em não-­merecedor.

Deus nos ama de graça e constantemente nos oferece o seu abraço gracioso. Recebê-­lo, contudo, pode ser custoso, traumático. Não para quem nada tem a perder, para quem já desistiu de si mesmo, mas para aqueles que acreditam ter “chegado lá”, pois, neste caso, receber o abraço da graça implica nascer de novo. E isso, é justamente o que o religioso fariseu não quer. Em sua visão, quem tem de nascer de novo é sempre o outro. Ele não precisa de médico.

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