Graça, Lei e Liberdade

Não se deixem enganar: de Deus não se zomba. O que o homem semear, isso também colherá” (Gálatas 6:7)

Um amigo certa vez me contou que havia plantado sementes de maçã em seu quintal onde, tempos depois, crescera uma pereira. Naturalmente, eu não acreditei na estória, apesar da insistência dele. Todos sabemos que não há como alguém plantar sementes de um tipo de árvore e obter como resultado uma árvore de tipo diferente. Assim acontece também com nossas escolhas, diz-nos o apóstolo Paulo. Escolher é dar à luz um futuro e os filhos sempre carregam o DNA de seus pais. Todas as nossas escolhas se desdobram em consequências que lhe são correspondentes. Daí que aquele que plantar maçãs, colherá maçãs. Quem quiser colher peras, terá de plantar peras. Segundo o apóstolo, afirmar qualquer coisa diferente disso é zombar de Deus.

É importante observarmos que Paulo faz essa afirmação numa carta cuja finalidade era instruir os irmãos e irmãs da Galácia sobre a relação entre a liberdade cristã e a Lei de Deus no horizonte da graça. Pois aquela comunidade estava perdendo de vista a experiência da graça e, por essa razão, usando a liberdade cristã de maneira equivocada. Para nossa surpresa, no entanto, eles não estavam usando a liberdade para levarem uma vida de frouxidão moral e libertinagem como nós frequentemente tememos. Não. Eles estavam usando a liberdade decorrente da graça de Deus para anularem a própria liberdade e se aprisionarem em cadeias autoimpostas feitas de legalismos, moralismos, dogmatismos e tradicionalismos. Por isso Paulo escreve no capítulo 5:

Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão. Ouçam bem o que eu, Paulo, lhes digo: Caso se deixem circuncidar, Cristo de nada lhes servirá. De novo declaro a todo homem que se deixa circuncidar, que está obrigado a cumprir toda a Lei. Vocês, que procuram ser justificados pela Lei, separaram-se de Cristo; caíram da graça. 

A citação não poderia ser mais clara: abrir mão da liberdade cristã em prol de uma vida regida pela lei, é uma desgraça; é dar as costas para Cristo. Pois, como vimos duas semanas atrás, a lei de Deus existe para proteger e garantir nossa liberdade e não para ocupar o lugar dela! Deus não nos criou – e Jesus não nos libertou – para normas e regras e prescrições e costumes. Todas essas coisas existem para nos servir e abençoar. Quando deixam de cumprir essa finalidade e tornam-se fim em si mesmas, tornam-se também desimportantes, deixam de ser graça, e por isso podem e precisam ser questionadas, revistas e até abandonadas. Um Evangelho legalista, enrijecido por tradicionalismos e dogmatismos, não é, a rigor, Evangelho, porque já não é boa-notícia. O Evangelho de Jesus Cristo é a boa-nova do amor incondicional, irrestrito e irrevogável de Deus que nos permite viver com leveza, liberdade e responsabilidade, porque o jugo de Jesus é suave e o seu fardo é leve. Não há nada que possamos fazer para Deus nos amar mais, nem nada que possamos fazer para Deus nos amar menos. Daí que, para Paulo, nem circuncisão, nem dieta judaica, nem calendário religioso, nem lugares sagrados ou tantas outras coisas constituem condição para obtermos o amor de Deus que nos é dado de antemão. Somos amados por Deus e, portanto, livres para vivermos sem medo as nossas vidas.

Infelizmente, contudo, nós tememos a liberdade. Nós fomos ensinados e acabamos por acreditar que a liberdade é perigosa pois é uma porta para a libertinagem. Então nós a mantemos fechada. Se não sabemos usar a liberdade, a coisa a fazer então é abdicar dela. Exatamente como os gálatas estavam fazendo. Só que Paulo não pensa nem age assim. Ao invés de prescindirmos da liberdade, ele entende que é preciso aprender a usá-la: Por isso digo: Vivam pelo Espírito, e de modo nenhum satisfarão os desejos da carne” (Gl 5:16). Quem vive no Espírito não tem medo da liberdade! Porque sabe que será conduzido por Deus por caminhos de retidão.

O ensino de Paulo é uma denuncias: ela revela que nosso medo da liberdade funda-se no fato de estarmos vazios (ou esvaziados) do Espírito Santo. É para quem vive essa experiência que Paulo diz: “Não se deixem enganar: de Deus não se zomba. O que o homem semear, isso também colherá”. É como se dissesse em outras palavras: “Pela graça de Deus vocês são livres! Vocês são livres até mesmo para abrirem mão da liberdade que a graça concede a vocês. Mas lembrem-se: tudo o que vocês plantarem, vocês colherão! Vocês querem viver segundo a Lei? Não reclamem depois se a vida de vocês se tornar um fardo insuportável!”.

Toda ação produz uma consequência correspondente: ninguém planta maçãs e colhe peras! Se alguém quiser colher peras, terá de plantar peras! A vida abundante não está destinada àqueles que temem a liberdade. Mas aos que, no Espírito, a exercem corajosamente! Todos estamos diante de uma escolha fundamental: ou viveremos livre e corajosamente pela graça no poder do Espírito Santo ou viveremos tímida e receosamente sob o peso da Lei que nos rouba a alegria da vida e da salvação. A escolha é nossa. A responsabilidade também.

 

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