Medo da Graça

Se Deus nos ama incondicionalmente e, portanto, não há nada que possamos fazer para que ele nos ame mais; nem há nada que possamos fazer para que ele nos ame menos, qual é então o ponto da vida cristã? Por que viver uma vida de obediência a Deus se a graça me assegura que sou e serei amado por Deus a despeito de qualquer coisa que eu faça ou deixe de fazer? Por que me esforçar para ser uma pessoa melhor, se a graça me assegura que Deus me ama do jeito que eu sou e não do jeito que eu deveria ser? Por que ser cristão se Deus me ama tanto quanto ama o pior dos ímpios?

Essas são algumas das perguntas mais recorrentes que nós cristãos nos fazemos quando ouvimos ou pensamos a respeito da graça de Deus. Todas elas são, no fundo, derivações de uma única e mesma pergunta: toda essa segurança acerca do amor de Deus não nos coloca numa posição de muita liberdade? Em outras palavras: saber que sou amado por Deus de maneira incondicional, irrestrita e irrevogável, não aumenta as chances de eu me perder? Pois quem me garante que, diante de tanto amor e tanta liberdade, eu vou desejar viver segundo a vontade de Deus e não segundo a minha própria vontade?

Eis a raiz do problema: em geral, nós temos medo da graça! E temos medo da graça porque morremos de medo de nós mesmos! Nós não confiamos em nós mesmos! E isso é bom, até certo ponto, porque nós somos realmente capazes de fazer muitas bobagens. Mas isso é péssimo, num outro aspecto, porque nem sempre nós fazemos bobagens; nem sempre nossas escolhas são errôneas, equivocadas e nos distanciam de Deus!!!

O grave nesta história é que o medo de nós mesmos nos impede de arriscar! Então nós nos retraímos. Nosso raciocínio funciona (estejamos conscientes ou não) segundo a seguinte lógica: se a graça me dá liberdade, mas eu sei de antemão que usarei mal essa liberdade, é melhor então eu não usá-la! É melhor então eu fingir que ela não existe e negá-la, ignorá-la, restringí-la, omití-la, minimizá-la! Pois quanto menos liberdade eu tiver, mais seguro eu me sentirei de que não farei nada errado!!!Acontece então que criamos para nós prisões que não existem para que elas nos contenham como uma coleira contém um cão bravo!

Na estória de Jó, nós encontramos uma afirmação escandalosa: Deus aposta na gente! Deus confia em nós!!!

Jó era um homem temente a Deus. Isso não é o mesmo que dizer que ele era alguém que tinha pavor de Deus; mas amor por Deus. Jó era um homem que amava a Deus. Porém, Satanás, que não acredita no amor, se aproximou de Deus, certa vez, e o desafiou: “Você acha mesmo que Jó te ama? Você acha mesmo que ele te serve gratuitamente, a troco de nada? Sei. Experimenta tirar tudo que você tem dado a ele e vê se ele vai continuar te amando e te servindo?”. Deus topou a aposta. Ele confiava em Jó, cria no amor de Jó por ele (essa desconfiança que tantas vezes nutrimos em relação a nós mesmos não é divina, é maligna. Não é por acaso que o cristianismo vivido fora da liberdade da graça seja tão triste, tão sem graça. No fundo, é uma prisão autoimposta. Por não confiarmos em nós mesmos, nós deixamos de viver!!!).

Paulo escreveu aos Gálatas: “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão” (Gl 5:1).

Deus aposta na gente! Deus confia em nosso amor por ele! Deus confiou em Jó, mas não apenas nele. Confiou em José e Maria, em Pedro e nos doze, e confia em nós hoje. Parece loucura, mas é a sabedoria de Deus. A graça é a sabedoria de Deus que é loucura para o mundo (e, às vezes – como dissemos na semana passada – para a própria igreja). A graça é o amor que aposta no amor, que lança fora o medo. Não é o amor que é refém do medo, mas o amor que liberta do medo para a vida!!! Não é o medo que nos livra do pecado! É o amor!

Mas confiar no amor é seguro? A outra alternativa é confiar no medo. A escolha é de cada um.

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